APESAR DE VOCÊS: OPOSIÇÃO À DITADURA BRASILEIRA NOS ESTADOS UNIDOS

Ultimamente, tem sido grande a preocupação dos historiadores com o efeito social de suas leituras do passado. Neste momento em que diferentes atores políticos disputam os sentidos da anistia e da ditadura militar, é muito oportuna a publicação de Apesar de vocês: oposição à ditadura brasileira nos Estados Unidos. Escrito por James Green, um dos maiores destaques na atual geração de especialistas em história do Brasil nos EUA, o livro, além de pesquisa detalhada em fontes diplomáticas e de imprensa, se baseia em memórias de brasileiros e norte-americanos que constituíram uma rede política internacional, até hoje invisível, com vistas a influenciar a opinião pública e denunciar as relações do governo americano com os militares latino-americanos.
A tese principal é que esses intelectuais e ativistas – religiosos, brasilianistas e refugiados brasileiros – conseguiram questionar a visão oficial sobre o regime militar brasileiro nos EUA: não como uma revolução que havia impedido, sem derramamento de sangue, um golpe comunista, mas como uma ditadura que havia generalizado o uso da tortura contra os opositores. Para tanto, utilizaram várias estratégias – palestras, boicotes – e denunciaram prisões, torturas e mortes, não só de guerrilheiros, mas de padres, sindicalistas e artistas. Finalmente, articularam com parlamentares com o objetivo de fazer do respeito aos direitos humanos condição para qualquer tipo de ajuda governamental. O autor consegue demonstrar que essa campanha foi fundamental para o posterior repúdio ao golpe no Chile.
O livro permite ao público brasileiro compreender que os EUA não são constituídos apenas de cristãos fundamentalistas, defensores de uma missão civilizatória que se traduz em intervenção militar ou em projetos de modernização etnocêntricos. A lógica da Guerra Fria e o apoio a ditaduras em nome de interesses econômicos e geopolíticos foram questionados internamente tanto por pacifistas da nova esquerda, contrários à guerra do Vietnã, quanto por um segmento mais amplo de liberais e humanistas, católicos e protestantes.