MUNDOBRAZ – O DEVIR-MUNDO DO BRASIL E O DEVIR-BRASIL DO MUNDO

A brasilianização do mundo, segundo Giuseppe Cocco, seria a extensão, por todo o planeta, de um modelo que configura “um arquipélago de brancos privilegiados sobre um oceano de pobreza branca, negra e mulata”, combinado com a disseminação dos efeitos sociais perversos da desigualdade econômica, fragmentação social, segregação espacial e violência. Ideia que abre o debate sobre a naturalização das crises, uma vez que a perda de direitos e a precarização da vida são consequência de opções políticas em cada país. E diversas em cada formação histórica.
Cocco, neste ensaio instigante e provocativo, trata do impacto no Brasil das políticas da globalização e o seu contrário, o impacto das políticas brasileiras no mundo. Ele coloca em questão nossa própria capacidade de pensar o futuro sem questionar os conceitos que orientaram nosso pensamento nas últimas décadas: desenvolvimento e subdesenvolvimento, centro e periferia, Primeiro Mundo e Terceiro Mundo etc.  
Migrações, demandas identitárias das populações indígenas, nacionalismos e ódios xenófobos, heranças coloniais escravagistas, alienação cultural; todos são importantes fenômenos não tratados pelo neoliberalismo, porque esse “não sabe propor nenhum modelo de integração social”, avalia Cocco.  
Para ele, os conflitos se mundializam e atravessam todas as sociedades. Nesses conflitos, originados das práticas de resistência, podemos identificar os caminhos potenciais do devir, do futuro, tais como aprofundar mais a mestiçagem, aproveitando os novos fluxos mundiais, reconhecer e valorizar as relações horizontais e cooperativas com “o outro”, valorizar e promover a esfera pública democrática e produtiva.
Neste contexto das crises que se aprofundam, o Brasil consegue manter uma razoável coesão social, com a implementação de políticas sociais e um sistema democrático participativo, enquanto, ao mesmo tempo, se apresenta como uma região do mundo onde a lucratividade das empresas, especialmente do setor financeiro, é das maiores e a desigualdade se mantém em níveis alarmantes. Não seria esse um modelo que vem sendo adotado como referência pelos demais países?