DICIONÁRIO CRÍTICO DO FEMINISMO

Sempre achei excelente a ideia de um dicionário do feminismo, ou mesmo feminista. Primeiro, por uma questão de resistência: as mulheres simplesmente estão excluídas do dicionário usual – não adianta buscar palavras no feminino, porque elas não existem, o gênero que prevalece é sempre o masculino; prova disso é que nem mesmo a expressão “feminina” consta no Aurélio, Houaiss e afins. Segundo, porque trata-se de adotar um outro olhar sobre termos que dizem respeito especialmente às mulheres – como aborto e lesbianismo – ou foram desenvolvidos e/ou revistos por elas –, como a divisão sexual do trabalho.
É, portanto, muito oportuno o lançamento do Dicionário crítico do feminismo, uma tradução da obra francesa, organizada, entre outras, pela socióloga brasileira Helena Hirata. São 48 verbetes – a bem da verdade, poderiam ser muitos mais – que oscilam entre o resgate histórico, a conceituação teórica e o enfrentamento prático das questões. A base, claro, é a França, o que pode deixar alguns pontos um pouco distantes da realidade brasileira e latino-americana, ao mesmo tempo que nos possibilita vislumbrar perspectivas diferenciadas do outro lado do Atlântico – os autores e autoras são pesquisadores de renome no país, muitos deles integrantes do grupo de pesquisa “Genre, travail, mobilité” (“Gênero, trabalho, mobilidade”), e outros já mais familiares a nós, como Michelle Perrot e a própria Helena Hirata.
O início do verbete sobre prostituição, escrito por Claudine Legardinier, dá a tônica da proposta de análise deste dicionário: “É comum tentar explicar a prostituição com base nas pessoas prostituídas, a ponta visível do iceberg. Longe de se limitar à pessoa que troca serviços sexuais por remuneração, a prostituição é, antes de tudo, uma organização lucrativa, nacional e internacional, de exploração sexual do outro. Há muitos agentes envolvidos: clientes, cáftens, Estados, o conjunto de homens e mulheres, pois essa instituição está fortemente enraizada tanto nas estruturas econômicas como na mentalidade coletiva”. Ou seja, um convite a um debate aprofundado e necessário.