SE VOCÊ GOSTOU DA ESCOLA, 
VAI ADORAR TRABALHAR

Não dá para ignorar que Irvine Welsh é autor de Trainspotting, livro que vendeu dois milhões de exemplares e virou sucesso nos cinemas. A leitura de Se você gostou da escola, vai adorar trabalhar avança, digamos, numa espécie de sobreposição de painéis corrompidos. Welsh escreve pensando em imagens e carcaças. Cinema puro. Às vezes, penso que escritores como ele fazem storyboards em vez de literatura. Mas isso pode ser implicância minha. Um fã de Welsh diria que essa sobreposição trepidante se justifica devido à deliberação do autor. Os personagens são assim mesmo, confusos, perdidos. Pode ser, mas o leitor não iniciado nesse pretexto ou lógica junkie – acho – terá dificuldades para seguir adiante. A passagem de um painel para outro não funciona na literatura.  Apesar da velocidade que Welsh tenta propor e das boas piadas, o livro, às vezes, é cansativo. Como se as imagens atrapalhassem a leitura. Muitos solavancos, cortes abruptos. Viagens desesperadas por desertos pedregosos, crimes pairando no ar pesado. Isso vale para os cinco contos do livro. Desde o casal que, depois de 16 anos de um convívio inexplicável, é obrigado a se encontrar por conta das “porcarias que deixou para trás” (a filha deles é a porcaria em questão), até os segredos de uma viúva taxidermista.  Se você gostou… parece seguir a lógica das mazelas deixadas pelo caminho. Do veneno que corrompe a partir dos lugares mais nojentos: como o pau de Eugene mordido por uma cascavel no meio do deserto. “Quem vai chupar para tirar o veneno?” Scott, o amigo de faculdade? Madeline, a junkiezinha tesuda?
Ou você, leitor? Parece que essa é a tese do livro, a questão que Welsh impõe. Se você gostou… carrega péssimas intenções. Talvez por isso eu tenha gostado, não da escola, mas da lógica claudicante do livro. Mas isso não quer dizer grande coisa. Também gosto do Fábio Jr. O cardápio de Welsh sugere velhas arapucas. Não é um livro ruim. Mas se fosse cinema, enganaria melhor.