O QUE RESTA DA DITADURA: A EXCEÇÃO BRASILEIRA
Em nosso país, as forças conservadoras e seus aliados da social-democracia, em nome de uma estabilização política, buscam soterrar a questão da responsabilização da política genocida estatal sob o argumento de não atiçar a direita radical que ainda ocupa postos oficiais. Desse modo, negam as práticas de tortura, o extermínio, o exílio, o banimento, a privação dos direitos elementares, o desaparecimento forçado dos “inimigos internos”, assim nomeados pela ditadura brasileira (1964-1985).
Enquanto isso, felizes, os artífices da repressão se apresentam na mídia, reafirmando seus atos criminosos de lesa-humanidade. O acerto de contas que não se completa… A impunidade continua a ser nossa marca registrada. No livro O que resta da ditadura: a exceção brasileira, um conjunto de densos escritos intenta responder acerca do legado da ditadura. Mais ainda: da permanência de suas estruturas em âmbitos diversos da nossa sociedade. Objetiva responder a questões cruciais sobre as razões dessa herança: por que os corpos de seus mortos ainda não foram acolhidos pela memória? Qual o preço que pagamos por essa reconciliação extorquida? Por que os torturadores ainda permanecem ilesos, intocáveis e livres após praticarem crimes de lesa-humanidade? Por que os arquivos públicos não se tornam públicos? Por que a crítica humanista não se torna força social irrefreável?
Enquanto isso, os familiares, herdeiros da dor, se transmudam em “colecionadores das marcas do passado”. O filósofo Vladimir Safatle é enfático ao refutar a falsa questão segundo a qual toda a violência se equivale. “Toda a ação contra um governo ilegal é uma ação legal. Um Estado ilegal não pode julgar ações contra si por ser ele próprio algo mais próximo de uma associação criminosa.” Em tempo, a corte da OEA julgará o extermínio da guerrilha do Araguaia a fim de punir os responsáveis pela execução de cerca de 70 pessoas. A família Teles, com sua dignidade e coragem, já forneceu provas cabais para a identificação do torturador coronel Brilhante Ustra (ex-comandante do DOI-Codi). Mais um passo será dado.


