A TV NO ARMÁRIO
Diferente do mito, na televisão o arco-íris colorido não leva a um caldeirão de ouro; ele é cinza, sem criatividade; o caldeirão de gêneros e sexualidades só tem estereótipos antiquados que a mídia mostra como ‘retratos da verdade’. Assim é A TV no armário, de Irineu Ramos Ribeiro (São Paulo: Edições GLS, 2010) que, sem ser pessimista, fala do que (ele e todo mundo) vê.
A partir da Teoria Queer e da inspiração nos textos de Foucault sobre relações de poder, o autor desvenda o jogo duplo da TV: ela tem o discurso público politicamente correto, contrário à discriminação; mas em cada programa, seja jornalístico, seja o de auditório, seja de ficção, abundam representações binárias que fortalecem o senso comum e desqualificam e/ou ignoram a diversidade de gêneros e sexualidades possíveis.
A abordagem teórica é consistente, sem ‘enrolar’ o leitor com intermináveis sucessões de conceitos obscuros. A linguagem, ágil e concisa, expressa de forma direta termos cuja definição contemporânea pode ser confusa, como ambiguidade, identidade, representação e sexualidade. O texto fica mais interessante ao falar de Queer, tão pouco entendido pela sociedade e pelos movimentos que defendem a diversidade.
Ribeiro alfineta a militância que, antes transgressora, se submeteu à afirmação identitária e perdeu, em parte, o sentido de ‘transgressão’ – em suas palavras, “dar voz à luta contra a opressão social causada pelas categorias fixas de masculinidade e feminilidade, a imposição obrigatória da vinculação entre sexo e gênero”.
A análise é clara, dissecando programas de jornalismo (matérias sobre a Parada LGBT de 2007, em São Paulo), entretenimento (Beija Sapo, na MTV, Zorra Total e Sob Nova Direção, na Rede Globo) e novela (América).
Muitos produtos da mídia, um só foco heterossexista; boas chances de visibilidade perdem-se por falta de imaginação e vontade dos produtores. No fim, a TV é conservadora e reproduz o status quo. Uma análise crítica contundente, numa leitura rápida e agradável.


