AFINAL, ESPIRITISMO É RELIGIÃO?
A publicação, em 1857, de O livro dos espíritos, por Allan Kardec, continha a pretensão de realizar uma conjunção entre ciência, filosofia e religião. As ideias logo conseguiram adeptos no Brasil e, hoje, o espiritismo é mais forte aqui que em seu país de origem.
É comum a afirmação de que, por aqui, o espiritismo teria exacerbado sua dimensão religiosa. Isso pode ser entendido em vários sentidos. É verdade que, apesar dos esforços de alguns, é pouco provável ver o espiritismo estudado em laboratórios ou discutido em cursos de filosofia. Por outro lado, se alguém assumir, diante do recenseador do IBGE, sua adesão ao espiritismo, engrossará o número dos adeptos de algo reconhecido como uma religião.
Também é verdade que a maioria de seus praticantes encara o espiritismo como um verdadeiro cristianismo. Mais importante que seus fenômenos e sua oposição ao materialismo seriam seus ensinamentos morais e a leitura dos evangelhos. Isso permitiu uma acomodação ao catolicismo, ao mesmo tempo que o espiritismo elaborou práticas e instituições próprias. Nem assimilado ao catolicismo, nem beneficiado pela mesma legitimidade, o espiritismo se firmou no país como uma força difusa, atuante sobretudo no campo religioso.
O livro de Célia Arribas também responde afirmativamente à pergunta que consta em seu título. Mas tendo como referência as teorias de sociólogos como Max Weber e Pierre Bourdieu, “há religião quando se constitui uma visão de mundo sistematizada, doadora de sentido à vida, organizada e mantida através de instituições”. Arribas destaca o papel que nisso tiveram médicos, advogados, literatos, políticos – em suma, membros de uma camada socialmente privilegiada e letrada.
O livro assenta sobre fontes produzidas pelos próprios espíritas e retoma materiais que já foram objeto de análises sociológicas, antropológicas e históricas. No momento em que o espiritismo passa por uma exposição intensa na mídia, é importante que ela venha acompanhada da contribuição de estudos acadêmicos.


