POEMA EM QUADRINHOS

Nos tempos em que a barbárie se disfarça de noiva e nos encontramos no altar prestes a beijá-la; em que realidade e ficção se tornam um só conceito, misturado e nebuloso – nesses tempos, modernos e sem mudanças, reinterpretações da mitologia grega surgem como elementos-chave para a compreensão desta ficção alegórica em que vivemos.
É o que faz Dino Buzzati – entre versos e pinturas, o escritor italiano apresenta, em seu Poema em quadrinhos, uma releitura ainda mais trágica do mito de Orfeu e Eurídice. Dispondo versos, rimados ou não, com suas próprias pinturas – o italiano gostava mais de pintar do que escrever –, Buzzati aproveitou-se de uma linguagem até então inóspita para tecer sua prosa.
Poema em quadrinhos resgata a história de Orfeu e Eurídice, transformados em Orfi e Eura. O primeiro é um jovem músico – suas letras encantam as mulheres de Milão; a segunda é sua amada. Orfi assiste Eura atravessando a porta de um casarão “como se fosse um espírito”. Entrava para o mundo dos mortos, onde não há dia, nem noite, nem horas. Desesperado, Orfi faz de tudo para recuperá-la, mesmo estando vivo – contudo, é justamente a possibilidade de morrer que o faz alcançar Eura, pois o belo jovem canta canções sobre a morte e consegue a permissão de Hades, o deus do Mundo Inferior, para adentrá-lo.
Até aqui, o poema e as pinturas, por vezes surreais, caminham lado a lado com o mito. É no último ato que a reinterpretação entra em cena: Orfi reencontra Eura, mas não há a possibilidade deles retornarem para o mundo real; não existe essa diferença entre mundo dos vivos e mundo dos mortos, entre realidade e ficção. Diante de um Orfi extasiado e inquieto, Eura insiste: “Eu lhe disse, querido. É inútil. Não posso acompanhá-lo lá em cima. Pobre fábula de Orfeu. Mesmo se você não se voltar para trás, não adiantará de nada. Devagar, Orfi, por favor, eu estou cansada. Todos aqui estamos cansados”.
Dino Buzzati constrói um final surpreendente para seu poema brilhantemente ilustrado por mais de 200 desenhos. Afinal, quem aqui não está cansado?