Razão Sangrenta: ensaios sobre a crítica emancipatória da modernidade capitalista e de seus valores ocidentais
No Brasil, Robert Kurz ganhou projeção entre o público intelectualizado de esquerda com a publicação de O colapso da modernização, calorosamente prefaciado por Roberto Schwarz, no ano de 1992. Nesta obra, notabilizaram-se duas teses: que a experiência soviética consistira numa modalidade do processo de modernização capitalista; e que sua derrocada prenunciaria o iminente colapso desse modo de produção, vítima de uma contradição interna fundamental: após a revolução microeletrônica, a incessante revolução dos meios de produção, imposta pela dinâmica concorrencial, estaria alijando maciçamente da produção a própria substância do valor, o trabalho vivo. Ademais, adquiriu vulto a crítica de Kurz à perspectiva ontologizante do trabalho, frequentemente conceituado de modo anistórico e positivador.
Nos quatro ensaios reunidos em Razão sangrenta, a crítica ao valor e à modernidade capitalista (recentemente consumada) dirige-se à razão iluminista, que “contaminaria” mesmo os mais ferrenhos e rigorosos críticos do capitalismo. Tendo como ponto de partida concreto da análise o “sofrimento”, reiteradamente produzido nas distintas formações sociais, Kurz propõe uma espécie de totalização da história como uma sucessão de formas fetichistas; se tal “fundamentação” da história repõe o tema da ontologia, tratar-se-ia aqui de uma ontologia negativa, que garantiria um sólido alicerce para o combate ao Esclarecimento e ao conjunto das formas fetichistas contemporâneas. Em meio a essa contenda se destaca a tematização da dimensão patriarcal do processo de valorização e da dinâmica global da acumulação de capital.
Não obstante seu desprezo pelo “academicismo”, atualmente, ao menos no Brasil, a incidência de Kurz se restringe a certos grupos universitários – pequenos e dedicados – que acompanham assiduamente sua vasta produção teórica e polêmica. Entretanto, como revela a leitura de Razão sangrenta, o caráter provocador de seu texto não arrefeceu.


