Suor

O romance é impregnado do conhecido pensamento comunista do autor que mais tarde, em 1945, seria eleito deputado federal pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro). Mas não é um pensamento retórico. Longe disso. A ideia de revolução, de greve, surge no curso da história através de engrenagens puramente literárias. Os muitos personagens, a maneira que aparecem e reaparecem puxando o foco da narrativa para si, o entrelaçamento entre eles tendo como locação única uma enorme casa colonial no Pelourinho fazem do romance a novela da classe operária brasileira que não passava no rádio.

Mais de seiscentas pessoas moram no Casarão 68, na Ladeira do Pelourinho em Salvador: lavadeiras, prostitutas, operários, cafetões, costureiras, ambulantes etc. Todos os personagens sopram vida ao casarão que se torna um organismo, que carrega consigo todos os moradores.

Poucos são os personagens que têm nome ou alcunha. Um deles é o mendigo Cabaça que mora na escada de entrada do casarão. Nos degraus, juntos com os moradores, muitos ratos também transitam. Cabaça conversa, acaricia e alimenta, todas as noites, com pedaços de acarajé, um rato gordo e sem pelos. O mendigo lembra o personagem de Denzel Washington no filme “O livro de Eli”, que também conversa e alimenta um rato. O que faz pensar o quanto Jorge Amado foi futurista na construção de Suor.

O “dar vida” ao casarão encontra paralelo em “O Cortiço” (1890), de Aluísio Azevedo, que também deu vida ao seu cortiço. O Casarão 68 é um grande cortiço na vertical.

O desfecho da história é uma greve geral dos operários e uma multidão em passeata, quando o Casarão 68 ganha vida de vez (“o 68 se precipit[ando] pela escada esmagando os ratos que fugiam espantados […]. Todo o 68 ali estava. Descera as escadas como um só homem” – p. 131-2”), e a enigmática personagem “moça de azul” casa-se com o patrão. Aludindo a metáfora do entendimento, ou da submissão, entre operários e patrões.

Suor foi publicado pela primeira vez em 1934, quando Jorge Amado tinha 22 anos.