História e cultura de moda

Não se pode falar de qualquer coisa em qualquer época, nos ensina com propriedade Michel Foucault. No Brasil, tratar de moda como assunto relevante é algo recente. O livro História e cultura de modadá notícias dessa prolífica mudança de estatuto dos estudos de moda no país com contribuições de pesquisadores comprometidos tanto com a acuidade teórica quanto com o esforço da pesquisa empírica.

À variedade dos objetos abordados na obra corresponde uma multiplicidade de perspectivas de análise que, longe de se contraporem, enriquecem o conjunto. Passeando por searas como os estudos culturais, os estudos de gênero, a história cultural, a história do tempo presente e flertando ainda com a sociologia, a filosofia e mesmo com a epistemologia, o livro suscita uma reflexão sobre as maneiras pelas quais a história, no caso, a história da moda, é construída, escrita e reescrita mediante injunções sociais, econômicas, políticas e culturais.

Sem restringir-se ao contexto nacional, a publicação contribui para a teorização sobre a moda por apresentar textos sobre os primórdios da historiografia de moda no Brasil, com os escritos de João Affonso no início do século XX; sobre os usos políticos do vestuário da era Vargas; e sobre os anos 1960 e 1970, com temas como a “juvenilização” da moda, desembocando em tópicos como a proposição da revista Vogue como fonte atual de pesquisa acadêmica.

Longe de tropeçar em um viés cronológico simplista, o livro busca refletir criticamente sobre a historiografia dominante e romper consensos estabelecidos, ousando, em alguns dos textos mais bem-sucedidos, colocar perguntas que nunca foram feitas, mas cujas respostas já estavam comodamente assentadas. Embora alguns dos trabalhos não se atribuam tal empreitada ou não alcancem sucedê-la, o livro como um todo tem o mérito de tratar de muita coisa sem ser superficial e, sobretudo, de levar a efeito a tarefa legada por Walter Benjamin àqueles que se ocupam da história, da cultura e da moda, qual seja, extrair a força heurística do dito “banal” para que se pense historicamente não só o passado, mas também o presente.