Mahatma Gandhi e sua luta com a Índia

Polêmica, essa obra mostra ambiguidades e posturas incomuns de Gandhi. Joseph Lelyveld pesquisou profundamente a vida política e pessoal do líder indiano, consultando personagens próximos, parentes e livros especializados. O resultado foi uma obra de mais de quatrocentas páginas, com informações minuciosas e desconhecidas sobre a atuação de Gandhi. Alguns políticos indianos denunciaram o livro – “perverso”, “difamatório” –, exigindo retratação e a retirada de sua circulação. Tushar Gandhi, neto do Mahatma, intercedeu no debate dizendo que a proibição seria um “insulto maior”, reconhecendo a faceta questionadora da obra.

O livro mobiliza humores daqueles que o têm como ícone de uma nova ordem moral e política, expondo posições ambíguas, discutíveis e problemáticas, como o apoio aos brancos na guerra contra os zulus e o serviço prestado ao império britânico na Guerra dosBôeres, sempre apontando as tensões entre o homem e o mito. Ao analisar a amizade de Gandhi com Hermann Kallembach, a biografia sugere uma relação “homoerótica”. Enfim, o livro mostra um ser com ambiguidades, em conflito permanente, mas sempre formulando autocríticas e outras maneiras de pensar e elaborar os métodos de resistência ativa.

Embora Gandhi afirmasse não ser um santo que se tornou político, mas um político que tentava ser santo, ele entendia que a construção de novos caminhos para a emancipação passava necessariamente por transformações e conflitos. Sua trajetória forjou um gigante cunhando a liberdade e a redenção da vida com novos caminhos de libertação, até então quase impensados.

Vez ou outra pairamos quase que perdidos ante a avalanche de informações biográficas e restam-nos indagações quanto à verdadeira intencionalidade da obra: trata-se de um rigoroso compromisso com a pesquisa histórica ou uma exploração de dissensos para desconstruir talvez a maior figura política do século XX? O resultado final apresentado, contudo, não é um laudo acusatório com o objetivo de macular a figura do Mahatma, mas de entendê-la melhor, longe das paixões pelo mito ou do reconhecimento monolítico da história.