No limiar do silêncio e da letra: Traços da autoria em Clarice Lispector
Em Reflexões sobre o romance moderno, Anatol Rosenfeld observa que, ao assimilar a precariedade da posição do indivíduo no mundo atual à estrutura e não apenas ao conteúdo da obra, a arte moderna veicula uma nova visão de homem e da realidade.
A literatura que brota desse cenário transita na fronteira entre a palavra e o silêncio, buscando capturar nas malhas de suas linhas e entrelinhas as marcas desse sujeito evanescente. Ela tem como um de seus grandes representantes universais Clarice Lispector, cuja expressão estética radical alinha sua obra com a de Joyce, Beckett e Virginia Woolf.

No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector, de Maria Lucia Homem, prima, antes de tudo, pela sintonia fina de sua linguagem analítica com os meandros do texto clariceano. Para examinar “o confronto do silêncio com a palavra e a relação visceral deste embate com a questão da autoria” em Água viva, A hora da estrelae na obra póstuma Um sopro de vida, a estudiosa recorre ao instrumental crítico da teoria literária e da psicanálise, sobretudo de vertente lacaniana.
Os três primeiros capítulos, de cunho teórico, são dedicados à fortuna crítica, às relações entre palavra, silêncio e autoria e à vinculação da crítica literária com a psicanálise, preparando o terreno para as análises textuais dos três últimos romances da escritora, que ocupam os capítulos finais.
A fluidez do texto, a clareza da exposição e a articulação feliz da teoria literária com a psicanálise, tanto no percurso teórico como nas análises bem construídas, fazem do livro de Maria Lucia Homem uma contribuição de valor para os estudos clariceanos. Graças a suas qualidades didáticas, a obra é indicada principalmente para aqueles estudiosos e estudantes que pretendem se iniciar na análise literária psicanalítica.

