Perversos, amantes e outros trágicos
Perversos, amantes e outros trágicos invadem nossa casa por meio do texto instigante de Eliane Robert Moraes. O livro reúne ensaios e resenhas produzidos pela autora ao longo de algumas décadas de trabalho como pesquisadora e estudiosa do erotismo literário presente tanto na literatura francesa do início do século XX como em diferentes momentos da história da escrita: dos poemas de Safo de Lesbos, passando pelo Gattopardo, de Lampedusa, ou pela novela A madona do futuro, de Henry James, entre outros.
Em textos extremamente bem escritos, cujo valor estético vai além de uma simples crítica literária, a autora aborda temáticas delicadas como o amor, o erotismo e a perversão.

Acaso, perda, desvio – esses são declaradamente os componentes que guiam a reunião de textos em uma costura invisível, mas que o leitor acompanha sem dificuldades.
O desvio se encontra tanto na análise da literatura realista − que se propõe a uma linguagem direta e objetiva, mas contrasta com o conteúdo fantasista da narrativa − quanto na “Ingenuidade de um perverso”, que parte do caráter infantil presente na erótica da perversão.
A perda figura como condição necessária para construção do novo, e o acaso, como método. Perder-se em Paris, como Breton, em indagações sobre a sensibilidade moderna, ou em um passeio de bicicleta pelas bordas inexistentes da noite e dos personagens de Bataille, em História do olho.
Longe de qualquer aproximação reducionista ou psicologizante de personagens ou autores importantes da literatura, Eliane trabalha em cima do fio da faca, propondo um olhar sobre as duas faces desse gume: erótica e mística, forma e conteúdo, diferente e semelhante, distante e próximo, palavra-corpo e palavra-representação. Nas torções da linguagem se produz a sensação de encontro com o inesperado, além do desejo de visitar as histórias e os personagens abordados no livro.

