A civilização capitalista
Comparato entregou-se a um exercício prazeroso. Já pagou seus impostos escrevendo numerosos trabalhos especializados, integrantes da nossa cultura geral. No presente livro, dá-se ao luxo de desenhar nossos desafios, retomando as origens do capitalismo em torno dos grandes eixos que o caracterizam: seu espírito (mentalidade coletiva e sistema ético), a estrutura de poderes que organiza as instituições sociais e a base geoeconômica. Dos mercadores de Veneza aos especuladores dos hedge funds, traça uma visão muito mais ampla do tradicional conceito de modo de produção que utilizamos na economia. Esse é o sentimento que resulta da leitura, o problema da ética, denominador comum de tantas tomadas de posição do autor.
“Há sempre um mínimo de sensibilidade emocional, que comanda a vontade do agente. Em suma, o juízo ético não é feito somente de razão, mas também de indignação e vergonha, de ternura e compaixão” (p.19). Essa “releitura” do capitalismo como sistema no sentido amplo, de sistema histórico, acompanha-se de referências aos grandes autores, cientistas e outros transformadores que balizaram nossa evolução nos últimos séculos. Com isso, tantos nomes que estudamos na escola sem entendê-los adquirem nova dimensão, passam a tomar sentido e assim iluminam nosso futuro.

É uma visão progressista. Tanto no desvendar dos mecanismos do capitalismo realmente existente – a falsa visão de um capitalismo submetido a mecanismos de mercado, o peso dos sistemas especulativos, a apropriação dos processos políticos – como na apresentação de visões propositivas na parte final do trabalho: os desafios ambientais, da reforma tributária, do acesso democrático à informação, dos sistemas de controle popular, dos mecanismos internacionais de concertação. Já foi declarado o fim da história por uns, ou que não há alternativas. Felizmente, a história continua, e há muitas alternativas.

