Ditadura em som e imagem: Trinta anos de produções cinematográficas sobre o regime militar brasileiro
A dissertação de mestrado defendida no IFCH da Unicamp e transformada em livro por meio do Concurso Brasileiro de Teses Universitárias da Anpoc (2012) apresenta um estudo maduro, com extensa pesquisa bibliográfica e de acervo sobre o cinema brasileiro pós-abertura política em 1979. O enfoque é a representação cinematográfica da ditadura no Brasil e como simbolicamente o período é ressignificado através das lentes, seus atores e ações, desde a revogação do AI-5, mas ainda sob a égide da ditadura e de censores, até os anos 2000.
É um tema pertinente para reflexão e que recebe menos atenção da historiografia e análise crítica da academia, que tendem a se concentrar mais no Cinema Novo e na retomada do cinema nacional pós-era Collor, no florescimento de uma democracia recente e na ressignificação de temas abordados pelo cinema dos anos 1960, como o sertão, a marginalidade e a favela.
O livro traz um panorama bem embasado e fundamentado de como os “anos de chumbo” são vistos e adquirem nova dimensão conforme as décadas vão passando: os militantes/guerrilheiros, a tortura, a direita, a população civil, os que nasceram e cresceram durante a ditadura. Ao dividir cada um dos seis capítulos em “Panorama”, onde é apresentado um quadro mais amplo sobre o tópico abordado, e “Close”, em que um filme escolhido é analisado nos mínimos detalhes (histórica, simbólica e esteticamente), Carolina Gomes Leme dá ao leitor uma visão aprofundada de como a conjuntura política e os atores vão adquirindo significado, ou perdendo e se ausentando da tela, sendo dado, assim, um olhar sobre o passado pela ótica desses cineastas, fruto de seu tempo.
Em época de Comissão da Verdade, presidente ex-guerrilheira e forças conservadoras ganhando terreno, faz-se importante compreender como nos constituímos no presente e revisitamos o passado por meio da cultura, principalmente o cinema, com um alcance exponencial.


