A mulher, o Estado e a revolução: Política da família soviética e da vida social entre 1917 e 1936

O modo de produção mais bem-sucedido na criação de estratégias de subjugação e disciplina do trabalhador foi o capitalismo. A mulher, como um de seus objetos, é aquela que mais sofreu com a incessante busca por melhores taxas de lucros e suas agressivas políticas de redução de custos. Na monumental obra de Wendy Goldman, busca-se compreender o legado das avançadas políticas soviéticas em prol da libertação da mulher. É só na Revolução de Outubro que a condição feminina alcança o status de questão de Estado, estabelecendo-se, sem restrições, a igualdade entre homens e mulheres.

As discussões sociais promovidas pelos bolcheviques debatiam as formas de aplicação dessa igualdade material, distanciando-se dos modelos de família burguesa. A dependência econômica e a subjugação cultural da mulher, relegada às tarefas domésticas, transferia as estruturas de exploração capitalista da fábrica para o espaço privado do lar que, para serem abolidas no comunismo, deveriam ser substituídas por relações igualitárias baseadas no amor fruto da afinidade e do respeito. O modelo familiar passa a ser questionado, assim como será o papel da mãe nos cuidados exclusivos de seus filhos, defendendo-se o aumento da carga de responsabilidade do Estado no cuidado e na educação das crianças. O tratamento do amor livre apresenta-se como um dos pontos de maior discórdia que, provavelmente, como observa a autora, teria tido menor repercussão se os métodos contraceptivos da época apresentassem maior segurança.

Em um texto ricamente descritivo do processo histórico, de estilo invejável, demonstram-se as possíveis razões da destruição do mais inovador e avançado projeto de sociedade já ensaiada. A derrocada daquele projeto revolucionário não aponta para sua inviabilidade, mas é capaz de indicar o caminho a ser trilhado por quem reconhece a importância da revolução íntima de seus valores para a consolidação da revolução para fora de seus muros.