O novo tempo do Mundo

Vivemos uma era da emergência, de guerra civil e estado de exceção permanentes, perda de horizontes, falência de projetos utópicos e militarização absoluta do cotidiano. O capitalismo global encontrou o “jeitinho brasileiro” e aprendeu a sambar. Esta é a catástrofe nossa de cada dia, que Paulo Arantes encara em seu novo livro como um “crítico diante da barbárie” (conforme a apresentação de Marildo Menegat). Não por acaso, a coletânea de ensaios (escritos entre 2008 e 2014) integra a coleção Estado de Sítio, coordenada pelo autor e publicada pela Boitempo, excelente iniciativa editorial que reúne algumas das mais ousadas cabeças pensantes do presente.

Se em uma primeira mirada a prosa de Paulo Arantes pode parecer demasiada “baderneira” ao demolir tantas quantas certezas e sensos comuns – não só da direita (de onde geralmente se parte), mas sobretudo da esquerda −, é porque o movimento do texto procura atiçar o pensamento crítico brasileiro que, “salvo engano, foi posto para dormir duas décadas atrás” (como dizem o autor e Roberto Schwarz). Do quebra-quebra intelectual, desenvolvido em um ritmo alucinante num vaivém que procura dar conta de abraçar o mundo, surgem algumas das grandes indagações do tempo que corre − questões pelas quais a “próxima geração” certamente deverá passar durante a nada fácil tarefa de tecer os fios de uma nova utopia.
Por meio de considerações acerca da organização do trabalho “após o fim do mundo”, o golpe de 1964, a dinâmica carcerária e a escalada bélica em nossa sociedade, conclui-se com um extenso e inédito ensaio sobre o Brasil pós-junho de 2013. Terminada a leitura, fica claro ao longo do percurso que, para pensarmos hoje em capitalismo, formas de resistência e ruptura (revolução, enfim), é imperativo nos voltarmos à questão urbana e à vida nas cidades, palco da violência – seja a física, seja a sistêmica.
Kim Doria
Mestrando em História, Teoria e Crítica pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da ECA-USP. Pesquisa as formas de representação da cidade e do capital no cinema brasileiro contemporâneo.

