AMAZÔNIA PÚBLICA
O livro aponta problemas de três das principais regiões afetadas por megaobras na Amazônia brasileira: Tapajós, Madeira e Carajás. Com depoimentos humanos, narrativas detalhadas e o cuidado de não simplificar ou cair em dicotomias que empobrecem o debate sobre temas complexos, os jornalistas e fotógrafos autores das reportagens conseguem apresentar um retrato aprofundado sobre impactos sociais e ambientais relacionados às construções planejadas, em curso ou já executadas
O resultado – um conjunto de textos e fotos distribuído em três capítulos, cada um sobre uma das regiões – pode contribuir para o debate sobre perspectivas, consequências, problemas e soluções não só para esses, mas também para outros projetos faraônicos na Amazônia.
Em alguns capítulos, a apuração é detalhada, quase obsessiva – por vezes, a impressão é de que para escrever um parágrafo foram feitas viagens, incontáveis telefonemas, leituras e longas entrevistas –, o que, se por um lado enriquece o material, por outro torna a leitura exageradamente detalhada, quase técnica, em alguns momentos.
No geral, porém, o conjunto de reportagens é de fácil leitura, com um ritmo que envolve. Assim, o leitor consegue navegar pelas águas do Tapajós e projetar as perspectivas da construção de hidrelétricas que devem modificar a geografia local; pensar sobre questões complexas como o modelo de compensações socioambientais de Juruti; ou visitar as margens do Madeira, onde as barragens de Santo Antônio e Jirau já alteraram a vida de comunidades inteiras. Durante a leitura, dá até para sentir a fumaça das carvoarias clandestinas que alimentam as siderúrgicas do Pará, em um cenário de degradação ambiental e humana no qual até casos de escravidão são reportados.

Daniel Santini é repórter, coordenador de jornalismo da ONG Repórter Brasil e editor de jornalismo de dados do site especializado em jornalismo ambiental ((o))eco.

