O COLAPSO DO FIGURINO FRANCÊS: CRÍTICA ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS NO BRASIL

 

 

a boa tradição latino-americana, esse é um verdadeiro ensaio. Vai contra a palermice de grande parte do meio acadêmico brasileiro, cuja essência é a manutenção da ordem. Revela o bloqueio uspiano-campineiro ao marxismo latino-americano. Supera o falso dualismo entre neoliberais e desenvolvimentistas, conveniente divisão que “mantinha a crítica radical cativa do liberalismo político na mesma medida em que tornava proscrita a tradição importante representada pela teoria marxista da dependência” (p.101).

Ajusta contas com Paulo Arantes, Francisco de Oliveira, Celso Furtado, Plínio de Arruda Sampaio Jr., Ricardo Antunes, Maria da Conceição Tavares, Fernando Henrique Cardoso, João Manuel Cardoso de Mello e mais alguns. Seu alvo é o figurino francês: “o velho colonialismo intelectual e seu corolário: a tentativa de perpetuar no Brasil o desconhecimento da importante contribuição do pensamento crítico latino-americano no desenvolvimento de nossas ciências sociais” (p.44). Traz à tona diversos intelectuais ligados a esse pensamento, com destaque para Ruy Mauro Marini.

O mais importante é que sua crítica às ciências sociais não se faz descolada da política. Afinal, “a administração petista da ordem instaurada pelo tucanato era, antes que uma surpresa inusitada, consequência necessária da comunhão teórica” (p.57).

Nos oito ensaios do livro há muito mais, e cada leitura encontrará suas sacadas e também pontos fracos. Ensaio em movimento, mesmo seus buracos abrem o bom debate, de onde devem partir o marxismo e a esquerda no Brasil atual. Cadê o subimperialismo brasileiro na reivindicação da obra de Marini? Aliás, essa categoria não seria uma chave para entender a tendência chauvinista do nosso nacionalismo? É certo: “urge a solução classista da questão nacional” (p.69); mas será mesmo que “há que buscar, contraa tradição do marxismo brasileiro, a necessária articulação entre classe e nação, entre socialismo e nacionalismo”?