A Rússia volta ao Caribe - Le Monde Diplomatique

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A Rússia volta ao Caribe

julho 19, 2017
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Quase 30 anos após a queda da URSS, doações, financiamentos e apoio ideológico podem mascarar interesses russos na região. Entre os projetos, estão o de construir um canal semelhante ao do Panamá, historicamente sob domínio dos Estados Unidos, no território nicaraguense. A obra seria financiada com dinheiro chinês e tocada por administradores russos. Nenhum veículo da imprensa internacional conseguiu descobrir quem seria o investidor da China interessado no negócio.Vinicius Mendes

“É a primeira vez que um presidente russo visita a Nicarágua”, afirmou um eufórico Daniel Ortega, presidente do país centro-americano, diante de Vladimir Putin em uma sala abarrotada anexa do aeroporto de Manágua, em julho de 2014. A televisão estatal cobria o encontro ao vivo desde a aparição do avião presidencial no horizonte da cidade até o desembarque do governante da Rússia na pista.

“Estamos muito felizes de recebê-lo em nossa terra”, continuou Ortega. Após os rápidos discursos, ambos se fecharam na mesma sala e tiveram uma reunião de 20 minutos. Então, uma hora após pousar, a aeronave de Putin já levantava voo novamente rumo a Argentina.

A visita não estava prevista na agenda oficial do Kremlin, que incluía apenas encontros com Raúl e Fidel Castro, em Havana, Cristina Kirchner, em Buenos Aires, e Dilma Rousseff, em Brasília, durante os cinco dias de viagens pela região. “A rapidez do encontro serviu apenas para dar ao governo de Ortega a fotografia que ainda não tinha ao lado do seu principal aliado político e econômico desde que chegou ao poder, em 2007”, explica o jornalista francês Fabrice Le Lous, que edita um semanário do jornal La Prensa, um dos poucos independentes do país.

As questões importantes possivelmente já haviam sido tratadas com Serguei Lavrov dois meses antes, quando o chanceler russo ficou algumas horas a mais no país encontrando autoridades locais.

A Rússia e seu presidente voltaram a pairar sobre a Nicarágua há dez anos, quando Daniel Ortega ganhou sua primeira eleição presidencial desde a guerra civil. Logo nos primeiros meses de seu governo, recebeu de Putin doações de 100 mil toneladas de trigo e cerca de 500 ônibus e 500 veículos fabricados pela Lada para modernizar a frota de transporte urbano e de táxis de Manágua. Apesar do discurso oficialista, a oposição se alarmou.

“A maioria dos veículos da imprensa da Nicarágua foi comprada pelo Estado e teve toda a linha editorial modificada. Entre os canais de televisão, quatro são oficialistas. Se você assiste um deles sem conhecer a realidade do país, acha que ele é o melhor do mundo”, conta Le Lous.

No ano da reeleição de Ortega, em julho de 2011, a Rússia voltou a demonstrar apoio aos nicaraguenses: os dos países assinaram um acordo em Moscou que previa doações regulares de trigo catalogadas como “ajuda humanitária”. No ano seguinte, um navio russo desembarcou a primeira remessa de 100 mil toneladas avaliada em US$ 35 milhões no porto de Corinto, no Pacífico. À época, a coordenadora do Conselho de Comunicação e Cidadania e primeira-dama, Rosario Murillo, que hoje também é vice-presidente, afirmou que as doações colaborariam para manter o preço da farinha no mercado interno e, assim, estabilizar a inflação. Em 2015, a Rússia enviaria outras 160 mil toneladas do cereal para a Nicarágua.

As relações generosas entre russos e nicaraguenses, porém, atingiram outras áreas: em projetos paralelos, a Rússia doou ao parceiro centro-americano US$ 37 milhões em dinheiro e prometeu construir um grande hospital em Manágua, cujo plano previa custos em torno de US$ 41 milhões.

Segundo números da Secretaria de Integração Econômica Centro-Americana (Sieca), as exportações da Nicarágua para a Rússia cresceram 178% entre 2006, último ano sem Ortega no poder, e 2010, quando ele já planejava sua reeleição. As trocas comerciais desse tipo passaram de US$ 7,8 milhões em 2006 para US$ 21,7 milhões em 2010.

As importações também tiveram um crescimento significativo: de US$ 24,8 milhões em 2006 para US$ 78,9 milhões em 2012. A diferença entre os seis anos foi de 218%, a maior taxa entre todos os países da América Central. Em casos como o de El Salvador e Guatemala, o volume de importações chegou a cair.

Enfim, o Banco Central da Nicarágua divulgou no ano passado que recebeu US$ 151 milhões em doações russas entre 2007 e 2016, quantias usadas para custear despesas com equipamentos de prevenção de desastres naturais e para o setor agrícola. Deste volume, a maior parte – R$ 119 milhões – foi enviada entre 2011 e 2013, o que representa 79% do total das remessas de Moscou.

Apesar do crescimento desses valores, o professor Rafat Ghotme, do departamento de Relações Internacionais da Universidade Militar Nueva Granada, na Colômbia, acredita que não é possível comparar o “retorno” russo à América Latina com a época da União Soviética, quando financiou e deu apoio político aos regimes de Cuba e da própria Nicarágua. O volume de trocas ainda é muito pequeno, diz ele. “As atividades comerciais estão presentes, ainda que com altos e baixos, durante décadas: por exemplo, a venda de armas a países da América Latina representa menos de 15% das exportações totais de armas provenientes da Rússia”.

“Se é difícil discernir se as relações atuais estão mais focadas no comercial do que no estratégico, se pode dizer que a estratégia diplomática russa não é suficiente em tamanho nem em alcance”, completa.

 

Aporte militar

Desde o começo do ano passado, a presença russa na Nicarágua passou a chamar a atenção da imprensa internacional pelo crescimento das trocas envolvendo armas e equipamentos de guerra, como tanques e radares. Em junho de 2016, o diário britânico Daily Mail publicou uma extensa reportagem afirmando que os recentes investimentos militares da Rússia no país centro-americano lembravam a Guerra Fria.

Na mesma época, o embaixador nicaraguense em Moscou, Juan Ernesto Vásquez, afirmou em um encontro com empresários e diplomatas, na capital russa, que os dois países estavam no “nível mais alto” de relações políticas da história.

A afirmação de Vásquez levou em conta não apenas a parceria atual, mas as relações com a União Soviética nos anos 1970, quando o governo comunista europeu apoiou financeiramente a guerrilha liderada por Daniel Ortega para derrubar a família Somoza, que estava no poder desde a década de 1920. Com a vitória dos rebeldes de esquerda – chamados de sandinistas –, os soviéticos tentaram estabelecer uma conexão semelhante à que existia com Cuba desde a revolução de Fidel Castro, em 1959. As relações foram rompidas em 1990, ano da queda da URSS e do início da guerra civil na Nicarágua.

As trocas militares começaram em 2013, quando o governo nicaraguense construiu, com o aporte financeiro russo, um campo de treinamento militar em Manágua batizado de Mariscal Zhukov, em homenagem a um chefe militar soviético da Segunda Guerra Mundial. Naquele mesmo ano, os dois países promoveram diversos encontros para tratar da ajuda que a Rússia enviaria ao país centro-americano no controle do crime organizado e do tráfico de drogas. Em 2014, enfim, o parlamento da Nicarágua aprovou a construção de uma estação russa de navegação de satélites em seu território.

Para além da estação, no ano passado o Estado nicaraguense comprou 50 tanques de guerra T-72, quatro lanchas patrulheiras equipadas com metralhadoras, dois barcos com mísseis instalados e um número não divulgado de aviões de combate da Rússia. O pacote foi avaliado em cerca de US$ 80 milhões, mas as especulações dão conta que o país centro-americano, um dos mais pobres da América Latina, não vai pagar nada por eles.

Ainda em abril de 2016, o vice-ministro de Indústria da Rússia, Alexander Morozov, disse que seu país concederia um empréstimo de R$ 250 milhões de dólares à Nicarágua para a aquisição de um sistema de radares, aeronaves e para a modernização do aeroporto da Manágua, além de custear as obras de moinhos para processamento de grãos.

“A relação entre Putin e Ortega não é ingênua. É motivo de suspeitas que haja um interesse claro da inteligência russa escondido sob um discurso de informação pública. As doações de trigo, ônibus, carros e tanques não são de graça. Eles vão cobrar de alguma forma”, disse o general Hugo Torres, que lutou na guerrilha sandinista e hoje é um dos poucos opositores a Ortega, ao diário La Prensa.

 Segundo Le Lous, o armamento nicaraguense alertou os países vizinhos, além de criar uma instabilidade nas relações com a Costa Rica, que já é uma rival em discussões sobre demarcações marítimas na Corte de Haya. “Todos os governos ficaram surpresos. Não há nenhuma guerra em vista. O combate ao narcotráfico se dá nas selvas ou no mar, onde não se luta com tanques”, diz. “A Costa Rica chegou a manifestar sua repudia”, completa.

 

Glonass

Em abril, após anos de obras, a Rússia inaugurou a estação de navegação de satélite que fora aprovada pelo parlamento em 2014 próximo ao lago Nejapa. Trata-se do Glonass (Sistema Global de Navegação por Satélite), uma aposta de Putin para encerrar o monopólio do GPS estadunidense e, de quebra, levantar dúvidas sobre as instalações russas em um território localizado a 3 mil milhas de Washington (5 horas de avião) – a metade disso no caso de Miami, na Flórida.

Segundo o Instituto Nicaraguense de Telecomunicações e Correios (Telcor), as instalações servirão para combater narcotraficantes, prevenir desastres naturais e monitorar mudanças climáticas. Já para uma das poucas fontes que levantam dúvidas sobre o projeto dentro do país, o consultor civil de segurança Roberto Cajina, o excesso de segredos sobre as operações russas em Nejapa são indicações de que o discurso oficial tenta mascarar algo. “Não há informações sobre nada do que se faz ali. É estranho”, diz.

Entre os projetos, estão o de construir um canal semelhante ao do Panamá, historicamente sob domínio dos Estados Unidos, no território nicaraguense. A obra seria financiada com dinheiro chinês e tocada por administradores russos. Nenhum veículo da imprensa internacional conseguiu descobrir quem seria o investidor da China interessado no negócio.

“Não há acesso a informação na Nicarágua. As autoridades não respondem as dúvidas dos jornalistas. Quando algum ministro fala com a imprensa, é demitido no dia seguinte, como aconteceu com María Auxiliadora Chiong, da pasta de Economía Familiar. Portanto, não se sabe nada dos interesses russos no país”, explica o jornalista Fabrice Le Lous.

Os Estados Unidos

O jornal Washington Post foi o primeiro da imprensa estadunidense a mostrar preocupação com a movimentação russa na Nicarágua. Em uma reportagem publicada no mesmo mês da inauguração do Glosnass, o periódico levantou suspeitas de que o projeto tenha o objetivo de espionar manobras estadunidense ou retaliar a existência de bases militares dos EUA na Europa Oriental. De acordo com o texto, o Departamento de Estado já está alerta sobre a presença dos russos no país centro-americano, e inclusive nomeou funcionários com experiência em diplomacia russa para trabalhar na embaixada de Manágua.

Segundo Rafat, da Universidade de Nueva Granada, a presença da Rússia na Nicarágua é parte de um projeto do Kremlin de reequilibrar novamente o poder com os Estados Unidos, se aproveitando da orientação anti-americana de alguns países, como a Nicarágua e a Venezuela, ou do interesse em estabelecer soberania, como o Equador, gerando desconforto em aliados dos EUA na região, como a Colômbia.

“Moscou tem investido significativamente na região, ainda que o volume do seu comércio, estimado em US$ 14 bilhões de dólares anuais, segue sendo relativamente pequeno se comparado com os quase US$ 300 bilhões de intercâmbio da América Latina com a China”, explica ele.

“Os intercâmbios comerciais da Rússia com a América Latina estão em direta relação com a nova distribuição do poder no sistema internacional contemporâneo: a transição da multipolaridade e equilíbrio em lugar da unipolaridade e da hegemonia estadunidenses”, finaliza.

 

Vinícius Mendes é jornalista e cientista político. Já colaborou com publicações como BBC Brasil, Revista Brasileiros e Calle2. Atualmente, é estudante de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo.

 



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