O PAPEL CRUCIAL DA SOCIEDADE CIVIL

Construindo o futuro da segurança alimentar global

Nossa história demonstra que quando há vontade política e engajamento social é possível acabar com a fome

A luta contra a fome e a má nutrição é uma tarefa que vai além dos governos. O papel da sociedade civil na elaboração e monitoramento de políticas públicas é essencial, como bem demonstra a experiência brasileira. Os atores não estatais têm que ser também partes constituintes do tema na agenda internacional.

A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza (AGFP), iniciativa atual da presidência brasileira no G20, exemplifica essa abordagem, que não se legitima apenas pelas experiências de políticas públicas que erradicaram a fome no Brasil, mas busca consolidar o combate à fome como tema permanente na pauta internacional.

José Graziano da Silva, diretor do Instituto Fome Zero, discursando sobre segurança alimentar no 8º Fórum Global do Pacto de Política Alimentar Urbana de Milão (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
José Graziano da Silva, diretor do Instituto Fome Zero, discursando sobre segurança alimentar no 8º Fórum Global do Pacto de Política Alimentar Urbana de Milão (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Desde 2008, quando a crise dos preços agrícolas assolou países pobres e ricos, iniciativas para enfrentar a fome foram tomadas em busca de fontes globais de financiamento. O próprio G20, em presidências anteriores, apoiou a criação do Fundo Global para a Segurança Alimentar e Nutricional (GASFP), em 2008, e do Quadro de Segurança Alimentar e Nutricional (FSN Framework), em 2013. Também em 2008, o G7 lançou a Iniciativa de Áquila e a FAO, em 2020, a Coalizão Alimentar, para lidar com os impactos da Covid-19.

Tais iniciativas se mostraram pontuais, em respostas emergenciais a crises específicas, e não contaram com participação da sociedade civil, embora algumas tenham buscado apoio do Comitê Mundial de Segurança Alimentar (CFS).

A proposta do Brasil procura uma abordagem mais ampla, com governos, organizações internacionais e sociedade civil, e é aberta à adesão de todos os países. O fato de o Brasil liderar essa iniciativa confere-lhe uma significância particular, pois é pelo exemplo de nossas políticas públicas, e não por deter a presidência do G20.

Nossa história demonstra que quando há vontade política e engajamento social é possível acabar com a fome. Foi assim com o Programa Fome Zero, lançado em 2003 pelo presidente Lula, que resultou na saída de milhões da miséria, em menos de uma década, levando o Brasil a sair do Mapa da Fome da FAO em 2014.

O Fome Zero alcançou tambem reconhecimento internacional, impulsionado pela iniciativa do então Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, de lançar o Desafio Fome Zero em 2012, na Conferência Rio+20. E depois, com a inclusão na Agenda 2030 da ONU do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2 de erradicar a fome, não por acaso chamado de “Zero Hunger”, e não mais de apenas reduzir à metade os famintos do mundo, como era antes de 2015 a meta dos Objetivos do Milenium.

A Aliança Global proposta pelo Brasil visa sistematizar a troca de boas práticas, não se limitando ao modelo brasileiro, mas incorporando outras experiências que deram certo ao redor do mundo.

Há lições a serem aprendidas nessa longa luta. Uma delas é que para erradicar a fome e a pobreza é preciso partir de iniciativas concretas, trocar experiências bem sucedidas e, sobretudo, contar com a participação da sociedade civil.

 

José Graziano da Silva é diretor-presidente do Instituto Fome Zero, ex- diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) – 2012 a 2019 – e ex-ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, quando implantou o Programa Fome Zero.

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