RESENHAS

Miscelânea

Confira as resenhas dos livros Cavalo, de Lucas Castor, Amar elos Vermelhos, de Márcia Meira Basto, e Financeirização: crise, estagnação e desigualdade

FINANCEIRIZAÇÃO: CRISE, ESTAGNAÇÃO E DESIGUALDADE

Lena Lavinas, Norberto M. Martins, Guilherme L. Gonçalves e Elisa Van Waeyenberge (orgs.), Contracorrente 

 

O livro vê-se diante da tarefa de avançar nos debates sobre a centralidade dos mercados financeiros e finanças relativamente à esfera da produção e circulação efetiva de mercadorias. Organizada em oito partes e 35 capítulos e com 66 colaboradores, a obra explora diversos aspectos do capitalismo em sua forma financeirizada e apresenta-se como expressão teórica e de conteúdo político.

A coletânea destaca que, nas formas contemporâneas do capitalismo, há inegável subordinação da produção e circulação de mercadorias aos ganhos e rendas financeiras, com proeminência do rentismo e das práticas expropriatórias. O resultado é a erosão das bases do Estado de bem-estar social. Dessa forma, educação, saúde, saneamento básico, entre outros direitos fundamentais, tornam-se apenas colaterais das políticas sociais, pois o interesse maior são os ganhos financeiros. O livro mostra o caso das parcerias público-privadas na saúde, da financeirização da educação superior, da financeirização da pobreza e da dívida como mecanismo de reprodução social. 

As questões de gênero, meio ambiente, direitos humanos e democratização do acesso às cidades também se veem transformadas no capitalismo financeirizado. As políticas públicas desprezam, portanto, o bem-estar coletivo e passam a priorizar os mercados secundários de títulos e papéis, que vão concentrar a riqueza nas mãos das novas elites financeiras. Há uma desconexão entra a política social e sua função primaz. Com isso, são negociados direitos, natureza, cidadania, que se transformam em ativos financeiros, como mostra o livro. 

É preciso colocar as lentes da financeirização para compreender não apenas o capitalismo contemporâneo, mas também os desafios que se colocam hoje para o Brasil, considerando que foi justamente nas gestões de coalizões de esquerda que os efeitos da financeirização se tornaram recorrentes e dramáticos. Essa é a contribuição desta coletânea.  

 

[Carlos Eduardo Caldarelli] Professor associado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). E-mail: [email protected].

 

CAVALO

Lucas Castor, Penalux

Potência e impotência. Qual é o significado dessas palavras na vida de um homem? Em Cavalo, romance finalista do Prêmio Mozart Pereira Soares em 2023, Lucas Castor propõe, de forma leve, realista e crítica, um retrato da construção da masculinidade.

Ao longo da obra, acompanhamos a vida de Carlos, um homem de meia-idade que se envolve com sua chefe, Marília, em circunstâncias bastante atrapalhadas e até mesmo um pouco truculentas. A partir daí, o personagem se apresenta reflexivo, retomando eventos de sua vida que vão da juventude à velhice. Vale ressaltar que todos esses momentos são ambientados na cidade de Brasília entre os anos 1960 e 2013. O livro também não deixa de lado os diversos cenários e narrativas políticas presentes nesses momentos.

O título Cavalo, que no linguajar popular muitas vezes se refere a um homem de expressiva vitalidade, principalmente no âmbito sexual, acaba sendo uma escolha inteligente e provocativa para a reflexão que vai sendo elaborada por Carlos. Frustrado, o personagem descreve a trajetória de seu corpo, o que envolve também uma carreira como preparador físico, cuja potência vai se “esvaindo” conforme o tempo passa.

Desse modo, o envelhecimento também faz parte de sua percepção da masculinidade. Já não se encaixando mais no padrão de virilidade que dele é supostamente esperado, Carlos passa a se entender como impotente, termo que, assim como o título, é explorado em sua polissemia – mais especificamente, em seu significado para o masculino. Ao mesmo tempo, ele procura reconstruir e atribuir um significado à ideia de potência.

Por fim, Cavalo é uma obra que se destaca pelo jogo inteligente com o jargão próprio da masculinidade – “cavalo”, “impotência” –, buscando, acima de tudo, ressignificar a masculinidade.

 

[Laura Redfern Navarro] Poeta, jornalista e crítica literária.

 

AMAR ELOS VERMELHOS 

Márcia Meira Basto, Labrador

A palavra de Márcia Meira Basto é visceral, profunda. É palavra de poeta que descobre seu lugar na ancestralidade da linguagem, revelando o mundo em bruto, tal como origem – buraco, cratera… essência. É verbo que pesa sobre a alma que o descobre, mas nem por isso perde a leveza e o encantamento poético, sendo capaz de convidar o leitor a contemplar a árvore cósmica, em tudo feminina e inaugural.

Amar elos Vermelhos nos revela uma escritora madura, que não teme o verbo e conta história para que o tempo não lhe escape e se converta em permanência, em nós. Para Márcia, a infância é o Elo que não se perde e com o qual se pode entregar ao mundo e amá-lo com a força do Mar, do Ouro, do Sangue, do Sagrado, do Tempo, da Dor e, sobretudo, do Amor. É permanente. 

Em tons de amarelo e vermelho, o livro é composto de contos que se apresentam na urdidura dos pequenos cotidianos, como se fosse uma manta que agasalha e afaga o leitor. Cada história projeta-se em amarelos de luz – sol, dia, jardim, girassol, semente, laranjas –, explosão de afetos. Estamos diante de uma escritora brotada da palavra “mundo” e sua significância. Com o sal e o sol, Márcia batiza a terra, sem nunca nos apontar o caminho da salvação. Somente nos diz que a falta nos marcará em círculos de fogo, retornando à alma da criação, como se fosse um relâmpago surgido das palmas de Deus. Apenas num instante, entre uma palma e outra, nascem as histórias. Nascemos e morremos. Depois, como cometa que se perdeu no infinito, resta o escuro, onde o fogo dança em roda escarlate. Mas também há brancura e solidão. Existe em Márcia uma urgência, uma “quasidade” clariceana, em que a Menina, personagem que acende as estrelas e desnuda a face da artista, vive sua universalidade. Ler Amar elos Vermelhos foi como poder descobrir mundos e, no bater das palmas, a eternidade.  

 

[Joana Cavalcanti] Escritora, professora do Instituto Europeu de Estudos Superiores – Portugal e doutora em Teoria Literária. E-mail: [email protected].

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