FABULAR MATERNIDADES POSSÍVEIS

Como a literatura reescreve experiências e violações de mães e crianças

Quais são as crianças que não vingam? Ou, quais maternidades são violadas? Se interrompidas, que maternidades experimentam o direito ao luto? E quando vingam, em que condições podem existir?

“Nem todas as crianças vingam.” Termina assim o conto “Pai contra mãe”, de Machado de Assis. Publicado originalmente no livro Relíquia de Casa Velha, de 1906, o conto narra a história de Cândido Neves, homem pobre que decide capturar a escravizada Arminda para, então, obter uma recompensa e dar de comer a seu próprio filho. Arminda achava-se grávida e fugia da escravidão. Em sua republicação de 2022 pela Editora Cobogó, “Pai contra mãe” recebeu comentários da jornalista e escritora Bianca Santana, para quem o conto de Machado remete, em diferentes momentos, à carta que Esperança Garcia escreveu em 6 de setembro de 1770 para o Governador da Província do Piauí.  

O documento, reconhecido hoje pela Ordem dos Advogados do Brasil como o primeiro Habeas Corpus da nossa história, denuncia os maus-tratos que Esperança e sua família vinham sofrendo do capitão que administrava a fazenda onde eram escravizados. Na carta, entre outras atrocidades, ela relata ter sido atirada grávida das escadarias de um sobrado, aproximando-se da história de Arminda no conto de Machado e de tantas outras mulheres escravizadas.   

Além do sofrimento de Arminda, “Pai contra mãe” aborda os dilemas morais vividos por Cândido e, com a sagacidade que caracteriza a obra de Machado, enseja uma complexa elaboração sobre a escravidão, a pobreza e as desigualdades que marcam nosso país. Clara, a esposa de Cândido, e sua tia Mônica compreendem o nascimento do filho do casal, Candinho, como um evento de grande relevância, símbolo da concretização do matrimônio, para o qual seria importante preparar-se economicamente visando aos melhores cuidados possíveis. A chegada de uma criança mobiliza então uma dimensão de futuro, cercada por preocupações, mas também pelo desejo de uma vida melhor.  

Ainda que retratada por Machado como extremamente pobre, a família de Candinho consiste numa família livre e, podemos supor, branca. Assim, o embate simbólico explicitado no conto resume-se à concretização da paternidade do protagonista branco em oposição à maternidade de uma mulher negra escravizada. Enquanto Cândido buscar salvar seu filho da Roda dos Enjeitados – mecanismo de entrega de crianças para instituições de caridade bastante comum na época –, a maternidade de Arminda é constantemente ameaçada e, ao final, extinguida, não só pelo aborto causado pela violência da captura e pelo fracasso de sua fuga, mas também pela frase que o próprio Cândido diz ao ter o seu filho de volta em seus braços: “nem todas as crianças vingam”.  

Mas quais são as crianças que não vingam? Ou, quais maternidades são violadas? Se interrompidas, que maternidades experimentam o direito ao luto? E quando vingam, em que condições podem existir? 

Nós que escrevemos este texto somos antropólogas. E, já há alguns anos, dedicamos nossas pesquisas a essas perguntas ou, no mínimo, desenvolvemos nossas etnografias observando tais questões. É tendo-as em vista que nós integramos a Rede Transnacional de Pesquisas sobre Maternidades Destituídas, Violadas e Violentadas (REMA). A REMA representa uma articulação de pesquisadoras que procura refletir sobre quem possui o direito reconhecido de ser mãe, quem tem esse direito negado e por quais mecanismos. A iniciativa parte da ideia de que toda reprodução é política e se ancora nos debates sobre governança e justiça reprodutiva. Ocorre porém que, sendo antropólogas, nós temos encontrado na literatura ficcional um catalisador do exercício de imaginação para o tratamento analítico das maternidades e, mais amplamente, para o campo dos estudos de gênero, sexualidade e diferença.  

É que a literatura – como o conto de Machado – oportuniza múltiplas experiências de maternidade. Permite a fabulação de outras maternidades possíveis. Enseja a compreensão das particularidades e desigualdades que formam maternidades ameaçadas, impossíveis ou, como no caso de Arminda, impossibilitadas, interrompidas. Ao estimular a imaginação, a literatura ficcional alcança desde maternidades precarizadas até aquelas que se mobilizam contra a precarização, a ameaça e a interrupção. No limite, o esforço ficcional da literatura desnaturaliza a maternidade. Com isso, retroalimenta os campos feministas de produção de conhecimento e põe em xeque qualquer presunção moral sobre a pretensa universalidade do que é ser mãe.  

Por exemplo, a competência materna natural para o amor é contestada pela existência narrativa de uma Arminda impedida de amar seu filho nascido. O destino materno ao trabalho de cuidado é rechaçado pela aparição de uma Arminda que não pôde criar seu próprio filho. Em “Pai contra mãe”, Machado deixa vazar ainda outra provocação, subliminar e associada aos dilemas morais de Cândido: Clara ama um filho cuja presença em sua vida decorre do sequestro de outra mãe e da morte de outro filho. E sabe disso.  

 

Literatura e maternidades 

Mais de cinco décadas após Machado publicar “Pai contra mãe”, as questões que seu conto suscita ecoam em Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. Quando, em 1960, o livro autobiográfico de Carolina tornou-se um best-seller que viria a ser traduzido para treze idiomas, os leitores brasileiros passaram a conhecer de perto a obra literária de uma mulher que, sendo negra como Arminda, escrevia sobre seu cotidiano na Favela do Canindé, em São Paulo.  

Crédito: Divulgação

Em Quarto de despejo, Carolina se equilibra entre o exercício cotidiano da escrita, o desejo de ser reconhecida como escritora e a imperatividade de arrumar como sobreviver e garantir a sobrevivência de seus filhos. Carolina Maria de Jesus era mãe solo de três crianças e enfrentava a fome em seu dia a dia. Ela descreveu com gravidade essa fome e a extrema pobreza que vivenciava, assim como descreveu sua recusa a se submeter a condições humilhantes de trabalho nas chamadas casas de família. Embora em diferentes momentos de sua trajetória Carolina tenha se dedicado ao trabalho doméstico remunerado, embora essa fosse (e permaneça sendo) a ocupação reservada a muitas mulheres negras, aquela recusa moral e política à submissão facultava a ela a possibilidade de escrever. Por isso, Carolina Maria de Jesus escrevia. Escrevia enquanto precisava catar lixo, virar-se como conseguia, alimentar os meninos.  

À época, parte da crítica autorizada reduziu a obra de Carolina a mero relato pessoal de condições de miséria, um ensaio pseudo-sociológico desprovido de qualidade literária. Outra parte da crítica, tão ou mais moralista, atacou a legitimidade de sua maternidade. Se tão pobre, se seus filhos sofriam tantas faltas, por que Carolina se dedicava a escrever? Por que simplesmente não cuidava de sua família? Um olhar atento (e antirracista) divisaria, contudo, que dimensão indelével da qualidade literária de Quarto de despejo está na vida que a escrita de Carolina engendra. É uma vida incômoda e vibrante, incômoda inclusive por ser vibrante, tal como são incômodas a insubmissão de Carolina, sua maternidade e a simples oportunidade de que uma mulher como ela seja de fato uma escritora. A naturalidade não incomoda. Escrever e maternar, sim. 

Outras personagens literárias encontram rotas de atuação, ainda que limitadas, nas ambivalências entre exploração e afeto características ao trabalho doméstico remunerado. Em Solitária, de 2022, a escritora Eliana Alves Cruz localiza a maternidade de Eunice nas tensões de sua vida. Uma vida que se organiza, em grande medida, em torno da família junto à qual trabalha como empregada doméstica durante anos. Filha de Eunice, Mabel cresce entre o quarto de empregada e os demais cômodos do apartamento dos patrões. Nessa clivagem espacial, acaba tornando-se uma agente no tensionamento de relações laborais e familiares que são herança de nossa organização social escravocrata. As narrativas de Eunice e de Mabel, com seus caminhos distintos e suas distintas possibilidades de negociação, apresentam uma maternidade que se faz nas complexidades do trabalho doméstico e da intimidade com a filha. No romance, Eliane Alves Cruz arquiteta, com habilidade, os campos de atuação possíveis às personagens, que se transformam de uma geração para outra. As escolhas da filha, afinal, diferenciam-se do que é disposto à mãe. 

Os efeitos da limitação de possibilidades no exercício da maternidade também são mobilizados por Buchi Emecheta, escritora nigeriana, no romance As alegrias da maternidade, publicado pela primeira vez em 1979. Na história ambientada entre os anos de 1930 e 1950 na Nigéria colonial, a personagem Nnu Ego, uma mulher igbo, é retirada de sua aldeia para casar com um homem, também igbo, que vivia em contexto urbano, trabalhando em casas de famílias inglesas inicialmente. Aqui, vemos uma face da pobreza atravessada por vários fatores. Nnu Ego é criada para ser esposa e mãe, algo que ela deseja profundamente.  

Porém, distante de seu povo e de suas relações constitutivas, habitando a cidade, a maternidade torna-se um fardo profundo e solitário, atravessada pelo poder colonial, pelas desigualdades de gênero e questões étnicas. Ao decidir ir às ruas e trabalhar como vendedora ambulante de comidas, entre outros trabalhos pontuais que realiza, como lavar roupas, Nnu Ego passa a ser considerada uma mulher indigna, ainda que consiga melhorar as condições de vida de seus filhos e a sua própria, em termos econômicos. 

É nessa corda bamba entre a subsistência, o gênero a elas imposto e seus próprios desejos, que as mães imaginadas em tais literaturas ficcionais se veem. Essas mulheres operam escolhas sempre delicadas e cruéis, intrincadas pelo fato de serem mães e pelas condições em que suas maternidades se desenvolvem.  

Talvez a mais notável obra literária brasileira que abordou as possibilidades e impossibilidades da maternidade seja Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Recentemente classificado como o livro brasileiro mais importante do século XXI em pesquisa empreendida pela Folha de S.Paulo, esse incontornável romance épico tem como protagonista Kehinde, personagem inspirada em Luísa Mahin, revolucionária que participou da mobilização de escravizados que arrebatou Salvador em 1835, a Revolta dos Malês. Um defeito de cor se inicia com a infância de Kehinde no Reino de Daomé, de onde é raptada e posta no porão de um navio em direção à Bahia, para ser escravizada.  

Ana Maria Gonçalves explora a maternidade de Kehinde de diferentes modos no transcurso do texto. A primeira maternidade resulta do estupro cometido pelo então proprietário das terras onde mantinham Kehinde escravizada na Ilha de Itaparica. A segunda maternidade deriva da relação amorosa que ela estabeleceu com um homem branco, que acaba vendendo o filho do casal. O primeiro filho morre devido a um acidente em casa, com uma faca, apesar do intenso esforço de Kehinde para salvar o menino de sua predestinação espiritual. O segundo filho se transforma no destinatário das palavras escritas em Um defeito de cor. É para ele que a história é contada, uma maneira de Kehinde explicar-lhe que esteve em sua busca, que viveu e lutou pelo seu encontro. Não seria exagero dizer que Kehinde se acha entre Arminda, Carolina e Nnu Ego. Seu texto integra a maternidade interrompida que se opõe contundente à interrupção.  

Personagens ficcionais, menções a personagens históricas, histórias de ficção autobiográfica. As obras literárias que nós retomamos neste texto contam sobre mulheres que desejam ser mães, que lutam para serem mães, que perdem o direito de sê-lo e que atravessam a solidão e os desafios da maternidade. Trata-se da mãe que atravessa o Atlântico e narra sua trajetória de vida tendo como interlocutor imaginário o filho que lhe foi tirado, como em Um defeito de cor. Ou da mãe que insiste na escrita, apropria-se de sua vida e luta, luta inclusive contra a fome, convertendo-a em material de criação narrativa, como em Quarto de despejo. Trata-se da mulher cujo sonho de ser mãe é transformado e coagido diante da violência colonial e do esgarçamento de suas relações, como em As alegrias da maternidade. 

 

Dilemas e histórias 

Perseguindo essas maternidades pelas páginas dos livros, nós acompanhamos dilemas e histórias que tocam nossos contextos de pesquisa. E que nos provocam à sensibilidade e à complexidade diante das situações e personas descritas em nossos próprios escritos, que não deixam de ser ficções, ficções antropológicas. Como dissemos acima, atentar-se à literatura ficcional permite vislumbrar a singular competência de ampliar o exercício da imaginação. Ao menos é assim que nós temos compreendido violações, transformações, permanências e ambiguidades em torno das maternidades e dos direitos nelas envolvidos – inclusive o direito de não ser.  

Mesmo que não haja sido alvo central de nossas reflexões neste artigo, nós entendemos o tema do direito ao aborto como o coração da ideia de justiça reprodutiva: o direito de não ter filhos, mas igualmente o de tê-los e criá-los de forma digna, quando há desejo para tanto. Criminalizado na maioria dos casos em nosso país e em muitos países do mundo, o aborto tem se tornado cada vez mais presente na ficção literária, como ilustra o impactante romance autobiográfico O acontecimento, de Annie Ernaux, escritora francesa vencedora do Nobel de Literatura em 2022.  

Também vencedora do Nobel de Literatura e a primeira escritora negra a alcançá-lo, a norte-americana Toni Morrison ofereceu outra perspectiva para a renúncia à maternidade. Seu romance Amada tem como protagonista Seth, ex-escravizada que, em 1873, vive com sua filha mais nova na cidade de Cincinnati, em Ohio, numa casa assombrada por um espírito. Prêmio Pulitzer de 1988, Amada possui uma incitante narrativa não linear que transita entre a experiência da escravidão, a fuga, a vida naquela casa e os fluxos de consciência das personagens. O romance se ambienta no período pós-Guerra Civil dos Estados Unidos. 

Alguns anos antes, estados do sul norte-americano mantinham a legalidade da escravidão e permitiam que homens e mulheres que escaparam para os estados do norte fossem recapturados e reescravizados. Inspirada pela trágica história de Margaret Garner, Toni Morrison elabora Seth como a mãe que, sob a iminência do pior, mata sua própria filha para obstar que ela seja levada e submetida à escravidão. Essa filha seria Amada, que retorna como espírito para o cotidiano de Seth e de sua irmã mais nova. Toni Morrison explora a culpa e as acusações que Seth sofre em decorrência da morte da filha. E manobra brilhantemente os limites incertos do real e da fantasia que compõem o cenário de terror da escravidão e do racismo.  

Estamos convencidas: alargar a imaginação requer a sua racialização. É o que as ficções que preenchem este texto demonstram a partir da incontornável presença de mulheres negras. Como autoras dos livros ou suas personagens, essas mulheres não são um acidente, mera coincidência. De onde nós lemos, observamos, produzimos histórias, são as maternidades das mulheres negras as mais constantemente violadas, rechaçadas, negadas e destituídas. Não à toa, elas são representadas e mobilizadas intensamente na literatura ficcional. Seguindo essa literatura, nós apostamos que entender as complexidades do maternar e as violações do direito de mulheres criarem seus filhos implica apreender o esforço de mulheres negras para ter suas maternidades reconhecidas. “Nem todas as crianças vingam” foi como iniciamos este texto. Escrever, assim como etnografar, é imaginar que as crianças de Armindas, Carolinas, Eunices, Kehindes e Seths possam vingar. 

 

Natália Fazzioni é antropóloga, pesquisadora de pós-doutorado no PAGU/Unicamp e integrante da REMA.  

Natália Lago é antropóloga, professora nas Ciências Sociais da UNIRIO e pesquisadora vinculada à REMA. 

Roberto Efrem Filho é antropólogo e advogado. Professor do curso de Direito da UFPB e da pós-graduação em Antropologia da UFPE. Integra a REMA.  

 

Edição: Mariana Pitasse e equipe do Le Monde Diplomatique Brasil. 

Leia mais sobre o tema: