RESENHA

Como a negritude e a masculinidade atravessam os vários âmbitos da vida de um homem?

Romance de estréia de Maurício Mendes, acompanha a jornada de um médico racializado que começa a atender como plantonista em uma cidade distante da capital Fortaleza

Em pré-venda pela editora Mondru, O homem não foi feito para ser feliz é o romance de estréia do médico nuclear Maurício Mendes. A obra conta com prefácio e orelha do escritor e tradutor Santiago Nazarian e blurb de Evelyn Blaut, escritora, crítica literária e diretora do Centro Cultural Astrolabio.  

O livro acompanha a jornada de Germano, um médico racializado que começa a atender como plantonista em uma cidade distante da capital Fortaleza. Logo de cara, é surpreendido com uma paciente pouco agradável que lhe faz um comentário racista – e cuja consulta mais parece uma tentativa de conversa. Germano, polido, age de maneira profissional, porém avessa à postura da jovem. Poucas horas depois, ela é encontrada morta dentro do hospital, com óbito classificado como “suicídio”.  

São situações complexas como essa que passam a fazer parte do cotidiano de Germano, que também tem de lidar com a falta de estrutura do hospital e com questões pessoais, como a morte do pai e seus relacionamentos afetivos.   

Crédito: Divulgação/Mondru

Ao longo de O homem não foi feito para ser feliz, observamos como o racismo afeta e molda sua persona, estando constantemente preocupado em vestir, falar e portar-se de forma que seja respeitado como o médico que é – e não confundido com um motorista ou segurança. Essa necessidade de se provar o torna um homem ressentido e angustiado, além de misógino. A maneira como enxerga e se relaciona com as mulheres (a maioria delas prostitutas) é um escudo ante à discriminação que sofre, utilizada como forma de proteger-se das violências raciais interpessoais.  

Maurício tece a narrativa de maneira fragmentada, refletindo majoritariamente o fluxo de consciência de Germano diante do que vive, o que permite ao leitor compreender a construção de seu pensamento. Esta escolha estilística atribui ao personagem uma posição que ele demonstra não possuir em sua vida – o protagonismo e a autonomia de pensar e agir. 

O novo livro é, portanto, um romance que expressa as características do nosso tempo, dando destaque às imbricações entre gênero e raça em torno da vivência de homens racializados.  

 

Laura Redfern Navarro é poeta, jornalista e pesquisadora.