Jarid Arraes: ‘Hoje sei que minha grande obsessão como escritora é o trauma’
Autora de livros como Corpo desfeito e Redemoinho em dia quente é a terceira entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil
Com publicações em diversos gêneros literários, a cearense Jarid Arraes é um dos principais nomes da literatura brasileira na atualidade. Seus livros, em especial Corpo desfeito e Redemoinho em dia quente (ambos publicados pela Alfaguara), constantemente aparecem em listas de obras essenciais da nova safra de autores e autoras nacionais.
A escritora, que acaba de lançar o livro de poemas Caminho para o grito (Alfaguara), é a terceira entrevistada no especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor (25 de julho). “Tudo que escrevi até hoje fala sobre trauma. Trauma social, coletivo, transgeracional, individual. Demorei para me dar conta que o trauma, como tema, move minha criação literária. Porque vivi traumas terríveis e lido com as consequências disso todos os dias”, afirmou.
Ao longo da entrevista, Jarid Arraes ainda destacou a importância da poesia de Augusto dos Anjos em sua vida, falou sobre o mercado editorial e celebrou a pluralidade da literatura brasileira.
Confira na íntegra:
Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?
Hoje sei que minha grande obsessão como escritora é o trauma. Tudo que escrevi até hoje fala sobre trauma. Trauma social, coletivo, transgeracional, individual. Demorei para me dar conta que o trauma, como tema, move minha criação literária. Porque vivi traumas terríveis e lido com as consequências disso todos os dias. No presente, enquanto respondo essa entrevista, estou divulgando meu novo livro, Caminho para o grito, em que falo sobre como foi ter sido vítima de pedofilia e abuso sexual – isso foi aos 3 anos de idade. É um livro de poemas, passa pelos eventos traumáticos e por tudo que vem depois. A elaboração de todas as implicações durante a adolescência e vida adulta e o lugar de hoje, esse espaço limiar que é o constante “fazer algo com isso”. E então sou capaz de perceber, e creio que os leitores também perceberão, que o trauma e a dor existem dentro de mim numa ambientação riquíssima em selvageria e assombro. É o trauma e o que considero belo, sempre juntos: o animalesco, o horror, a extrapolação, a insolência, a iconoclastia, e os ícones do feminino monstruoso e terrível. Assim me sinto confortável, inspirada, criativa e viva. Sou obcecada por explorar o horrível.
Para escrever um bom livro, o enredo e a linguagem têm a mesma importância?
Penso que sim, pois se você não consegue comunicar o enredo, como o leitor vai se relacionar com ele? Mas isso não quer dizer que exista uma maneira melhor e “universal” de usar a palavra ou que exista um tipo de literatura mais artística que outra. Um bom livro, com bom enredo e bom uso técnico da escrita pode existir em todos os subgêneros, pode ser super comercial, super experimental, super best-seller ou ser considerado como a tal “alta literatura”. E mais: um bom uso da palavra no gênero Jovem Adulto pode significar coisas diferentes do bom uso da palavra na ficção contemporânea brasileira que geralmente é reconhecida por prêmios ditos de grande prestígio. As coisas estão juntas, mas são amplas e complexas.
Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?
Eu releio livros de poesia todos os dias. Raramente do início ao fim, mas todos os dias. Hoje reli alguns poemas de Quase todas as noites, da Simone Brantes, e outros vários de cova profunda é a boca das mulheres estranhas, da maravilhosa Mar Becker. Fora os poemas, sempre releio e revisito obras que utilizo nos meus cursos de criação literária, sobretudo as publicações sobre trauma e saúde mental, como O corpo guarda as marcas, de Bessel van der Kolk, que já recomendo mais do que beber água e 8 horas de sono por noite, e recentemente reli a obra Father-daughterIncest, da psiquiatra Judith Lewis Herman, que infelizmente não tem seus livros publicados em português – alguém precisa resolver isso!

Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora?
Uma antologia de poemas de Augusto dos Anjos. Eu tinha pouco mais de 8 anos e peguei o livro da biblioteca da escola em segredo. Copiei os poemas para meu diário e devolvi dois dias depois. Fui de caso pensado. Meu pai tinha declamado para mim os versos “apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija!” num dia que voltei da escola animada por ter lido o poema Porquinho-da-Índia, de Manuel Bandeira. Nesse dia eu conheci Bandeira, Drummond e Augusto dos Anjos, mas a sensação de que aquele trechinho de Versos Íntimos me provocou foi tão marcante que decidi procurar pelo poeta na biblioteca minúscula. Que sorte ter encontrado. Eu, menina de 8 anos, sentia coisas imensas demais, coisas tão gigantescas, mas que foram acolhidas pela escrita de Augusto dos Anjos. Eu brinco que lia e jurava que era a própria filha do carbono e do amoníaco. Por acaso, eu tinha ganhado um dicionário de presente da minha avó e eu gastava muitas horas buscando sinônimos para as palavras que eu conhecia nos poemas dele. Fiquei fascinada pela palavra “mórbido”. E desde o primeiro dia comecei a escrever meus próprios poemas tentando copiar o estilo. Foi ele que me fez entender que, “desde a epigênesis da infância”, eu sofria “a influência má dos signos do zodíaco” e o único jeito de lidar com tanto peso em cima de ombros tão infantis era escrever poesia.
Em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?
Podemos celebrar a pluralidade da nossa literatura e como temos uma língua cheia de vida que pode ser escrita de maneiras inacreditáveis de tão diversas e profundas.
Mas há tantas coisas preocupantes no nosso meio. Tenho falado sobre a bagunça que é o mercado editorial, como autores são mais do que desvalorizados, são realmente prejudicados e, em infelizes muitíssimos casos, vítimas de editoras e outras empresas desonestas, que têm práticas abusivas e se aproveitam dos escritores que são iniciantes e inexperientes. Temos que lutar pela profissionalização e regulamentação das editoras, incluindo as que se chamam de pequenas ou independentes, e defender os direitos dos autores como classe.
Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?
Muitos. É uma questão de ampliar repertórios para que autoras e autores fora do Sudeste sejam lidos, reconhecidos, valorizados. Ainda precisamos correr atrás das muitas décadas de exclusão sofrida por escritoras mulheres. Nosso problema é muito maior do que um ou dois nomes pontuais.
Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior?
Não me lembro de nenhum conselho que tenha me marcado e tenha vindo do meio literário. Pensando bem, não me lembro de conselhos de modo geral.
O que move sua escrita?
Antes eu sabia responder. Hoje sei que sempre que me senti no mais abjeto fim dos meus tempos, escrever foi o único movimento possível.
Sobre a escritora
Nascida em Juazeiro do Norte, Cariri (CE), em 12 de fevereiro de 1991, Jarid Arraes é escritora, cordelista e poeta. Autora de obras traduzidas para francês, espanhol, italiano e inglês, publicou o romance Corpo desfeito e o premiado livro de contos Redemoinho em dia quente, vencedor dos prêmios Biblioteca Nacional e APCA, além de finalista do prêmio Jabuti. Jarid é mentora de escrita, criou o Hub Górgona, que trabalha o tema do trauma na literatura, e ministra cursos como Escrevendo o Trauma. Também é autora dos livros de poemas Caminho para o grito e Um buraco com meu nome, da coletânea Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, de As lendas de Dandara e da obra infantil Cordéis para crianças incríveis. Atualmente vive em São Paulo (SP).
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

