Fabrício Corsaletti: “Escrever é me colocar em movimento, uma aventura mental”
Num passeio pela Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Corsaletti fala de Um milhão de ruas, seu livro mais recente de crônicas, lançamento da Editora 34
“Escrever é parecido com andar, embora andar nem sempre se pareça com escrever”, escreve Fabrício Corsaletti na introdução de Um milhão de ruas: Crônicas 2010-2025 (Editora 34). O volume é uma reunião de dois livros de crônica já publicados, Perambule e Ela me dá capim e eu zurro, com textos originalmente veiculados em jornais e revistas, e um inédito, Bar Mastroianni. No meio das crônicas, o autor esconde poemas em prosa, crônicas em verso e até alguns contos, textos difíceis de encaixar em definições limpinhas.

Mesmo que “andar nem sempre se pareça com escrever”, às vezes, escrever se parece com caminhar pelas ruas do centro histórico de Paraty, onde acontece a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty): é difícil encontrar o passo e não tropeçar no calçamento pé-de-moleque de pedras irregulares que remontam ao começo do século 19, então a simples caminhada vira a arte de prestar atenção em cada movimento. Uma vírgula fora de lugar e você dá de cara no chão. Fazendo essa caminhada, com um tênis nada propício para a empreitada, encontrei um par de botas muito mais adequadas ao terreno. Olhei para cima e vi meu entrevistado.
Eram 10h30, e nossa conversa só estava marcada para 13h30. Quando me apresentei, Corsaletti sugeriu que fizéssemos a entrevista naquele momento, já que os dois estavam sem outros compromissos. Começamos dando com a cara na porta de um bar fechado (eram dez da manhã, é verdade) e continuamos papeando sobre Bob Dylan e procurando algum lugar com uma mesa para poder conversar.
Depois de mais algumas portas fechadas e ideias ruins (ninguém queria tomar sorvete), acabamos nos instalando numa livraria enquanto sua amiga Noemi Jaffe lançava o livro Te dou a minha palavra (Companhia das Letras). Antes da entrevista começar, nosso encontro poderia ser uma crônica do Um milhão de ruas: passeio e papo sem rumo certo.
“A semelhança entre escrever e andar tem a ver com se colocar em movimento. Escrever para mim é me colocar em movimento, uma aventura mental”, diz Corsaletti, explicando a nota de abertura do livro. A ideia, como ele expressa num texto do Um milhão de ruas, se aproxima de “caminhar com um objetivo fútil”, sem burocracia ou funcionalidade. Objetivo fútil não significa que a literatura que ele propõe é, também, fútil: “Eu acho que toda boa literatura é séria, mesmo quando ela é engraçada, divertida, leve. Eu escrevo com muito prazer, ludicamente”.
Esse prazer na escrita é sentido no livro. Na seção inédita de Um milhão de ruas, há noites de bebedeira em Buenos Aires e São Paulo, animadas por conversas gostosas como dois escritores tentando criar uma história de mistério ou alguns amigos tentando chegar a um consenso sobre o melhor verso da história da música brasileira (lógico que o Chico Buarque ganhou, mas não vou estragar a surpresa contando o verso vencedor). “Esse tipo de crônica geralmente tem um papo furado de conversa de bar aparente. Tem essa ideia da crônica de pegar um assunto banal e transformar em algo que não seja banal, revelar algo surpreendente”, dizia Corsaletti até ser interrompido por um conhecido, no melhor estilo conversa de bar.
Crônicas dividem as páginas com poemas (“eu tenho uma vaga ideia de que o texto vai ficar melhor em prosa ou verso, mas às vezes isso muda durante o processo”) e conversas com estranhos dividem as páginas com memórias de infância. A cidade natal de Corsaletti no interior de São Paulo, Santo Anastácio, aparece algumas vezes. Pergunto se ele se preocupa com a distinção entre fato e ficção nas crônicas. “Essa ideia de olhar para a crônica como uma coisa factual, com lastro na realidade, é um defeito do leitor contemporâneo, que tá acostumado com essa ideia de autoficção. Com essa crise de imaginação contemporânea, as pessoas não conseguem aceitar que alguém está fabulando uma história.”

“Eu acho que qualquer coisa que não seja jornalismo e história é ficção. Poesia é ficção, letra de música é ficção… não interessa se o Roberto Carlos estava apaixonado por alguém quando ele fez tal música, isso é só um impulso pessoal que não interessa para o ouvinte ou o leitor.” Lembro de algo que ele falou um dia antes, na mesa da programação principal da Flip em que ele participou ao lado da escritora Lilian Sais: “quando você escreve um texto que funciona, as pessoas acham que é biográfico.”
Em seu livro Engenheiro Fantasma, de 2022, Corsaletti deixou claro desde o começo que o que escrevia era ficção. Em 56 sonetos, o poeta cria um eu lírico curioso: o cantor Bob Dylan exilado em Buenos Aires. Pode parecer esquisito, mas os textos funcionaram, e renderam a Corsaletti o prêmio Jabuti de livro do ano em 2023. “Faz 30 anos que eu escrevo, e foi a experiência mais radical da minha vida como escritor, a mais divertida, a mais prazerosa, a mais fácil de realizar e a que mais deu certo. Foi puro deleite.”
Depois de escrever o livro todo em nove dias, ele assistiu ao documentário Rolling Thunder Revue, dirigido por Martin Scorsese sobre uma turnê do compositor estadunidense. Foi lá que ele viu Dylan falando que “quando você coloca uma máscara, você diz a verdade”. Corsaletti logo se identificou: “eu nunca me senti tão autoral, tão eu mesmo, do que quando eu estava escrevendo aquele texto na pele de outra pessoa”.
Escrevendo outros textos, como os que integram Um milhão de ruas, ele está na pele de quem? “Também é uma máscara. É uma variação do que você imagina que você é. O personagem de todos os meus livros compartilha muitas coisas que eu vivi, coladas na minha biografia, mas tem regras próprias do personagem. Ele não é exatamente como eu sou. Quem me conhece sabe que tem muita diferença.”
Nosso papo é interrompido de novo, dessa vez por alguém pedindo autógrafo num exemplar recém-comprado, ali na livraria mesmo, de Um milhão de ruas. Quando voltamos, estamos falando do que seria de Corsaletti se ele não escrevesse. “Eu só consigo me enxergar muito infeliz. Não é uma diversão, não é uma sitcom que você acha engraçada. É um negócio de transformação psíquica, interna.” O que move o autor, voltando na metáfora da caminhada, é sair de casa (nesse caso, a casa interior). “[Escrever] é uma necessidade humana de sair de si mesmo e encontrar o mundo.” É mágico, antineurótico, “libertação psíquica”. Transformador como uma boa caminhada pode ser.
Se você estiver no Rio de Janeiro na próxima sexta, 15 de agosto, pode caminhar até a Livraria da Travessa do Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97) para acompanhar o lançamento de Um milhão de ruas, às 19h, que vai contar com a presença de Corsaletti, Laura Liuzzi, Paulo Henriques Britto, Olívia Byington e Eucanaã Ferraz.
Eduardo Lima é jornalista.

