Quando a indumentária revela a crise do multilateralismo

Quando a indumentária revela a crise do multilateralismo

A imagem é uma ferramenta de poder, uma forma de linguagem que constrói realidades, em vez de apenas refletir

A história da política internacional não se escreve apenas com tratados, sanções e batalhas, mas também com símbolos cuidadosamente encenados. Winston Churchill, em meio ao fogo da Segunda Guerra, eternizou o charuto como metáfora da resiliência britânica; Che Guevara fez de sua boina com a estrela um emblema da rebeldia transnacional; e Yasser Arafat, com sua túnica, transformou um traje tradicional em bandeira viva da causa palestina. São sinais que, ao mesmo tempo, comunicam pertencimento, resistência e identidade política.

Seguindo essa mesma lógica de gestos carregados de significado, recentemente, no Alasca, o chanceler russo Sergei Lavrov usou uma camiseta ‘CCCP’ durante o encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin, invocando a nostalgia soviética. Dias depois, em Washington, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky abandonou seu habitual uniforme verde-oliva e surgiu no Salão Oval da Casa Branca em um terno preto monocromático. Dois trajes, dois signos visuais que, muito além da estética, condensam projetos geopolíticos divergentes: a nostalgia soviética como afirmação de soberania frente ao Ocidente e a encenação da vulnerabilidade heroica de uma nação sitiada.

Crédito: Reprodução

A camiseta de Lavrov não é acaso estético e tão pouco proteção: é signo, é linguagem. O “CCCP” exibido em solo norte-americano reacende fantasmas da Guerra Fria, evocando um tempo em que Moscou disputava hegemonia global sem pedir licença. É gesto de provocação e, simultaneamente, de memória: para a plateia doméstica, uma reafirmação de continuidade histórica; para a plateia internacional, um recado de que a Rússia não se envergonha de sua herança imperial. Lavrov usou o corpo como bandeira, convertendo tecido em geopolítica.

Zelensky, ao contrário, decidiu pela neutralidade do preto, rompendo não apenas com a imagem de combatente, mas também com a estética da resistência, simbolizada ao longo da guerra pela sua tradicional camiseta verde-oliva. No Salão Oval, contudo, o presidente ucraniano aderiu ao ritual ocidental dos ternos escuros. Foi uma espécie de “conversão estética” à diplomacia americana, sugerindo que, para ser ouvido na capital do império, o traje deveria se alinhar ao código da liturgia oficial.

Ambos os gestos revelam que a geopolítica é também disputa simbólica. O “CCCP” remete a um império que insiste em não morrer; o preto de Zelensky sugere que, ao menos diante da Casa Branca, a guerra exige formalidade, não apenas resistência. São linguagens visuais que operam como narrativas. Assim, na diplomacia dos símbolos, ambas as vestimentas são códigos que, no palco da política global, comunicam mensagens poderosas.

No pano de fundo, emerge a ideia de que a imagem é uma ferramenta de poder, uma forma de linguagem que constrói realidades, em vez de apenas refletir. Enquanto Lavrov invoca a ‘fé’ soviética e a nostalgia de um império secularizado, Zelensky, ao vestir preto, adere a um rito quase sacerdotal da Casa Branca, onde o traje formal funciona como um sacramento da ordem liberal. Assim, a imagem se converte em um ritual de poder.

O enfraquecimento do multilateralismo e a diplomacia dos símbolos

Esses gestos não são vaidade ou acaso; eles emergem em meio a uma profunda crise do multilateralismo. O sistema de cooperação internacional, da ONU à OMC, perde força e cede lugar a lógicas imperiais e bilaterais. A cena de Trump e Putin no Alasca mostra um mundo onde dois homens fortes ainda definem as fronteiras do poder global. Em contrapartida, Zelensky, no Salão Oval, sugere que, para nações menores, a sobrevivência depende de um alinhamento com o centro do império.

O que se esgarça é justamente a promessa de uma ordem coletiva baseada em regras. A camiseta de Lavrov e o terno de Zelensky são faces da mesma crise: símbolos que apontam para a substituição do multilateralismo pela política do gesto, da força e da teatralidade. Nessa brecha, o BRICS busca apresentar-se como alternativa, erguendo-se como polo de contestação ao ocidente liberal. Mas mesmo aí a disputa simbólica continua: quem fala pelo Sul Global? Qual estética será consagrada como voz legítima?

O entrelaçamento de vestimentas revela uma constatação: o enfraquecimento do multilateralismo está dando lugar a uma diplomacia simbólica. Nesse contexto, a imagem não se limita a refletir a geopolítica, mas também molda a própria dinâmica das relações internacionais.

 

Maurício Alfredo é mestre em Educação, professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior. Autor de material didático junto à Editora Companhia da Escola.

 

 

 

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