Dez anos de desastre no Vale do Rio Doce
Ao contrário de um evento encerrado no passado, o rompimento da barragem de Fundão, que completa uma década neste 5 de novembro de 2025, prolonga-se ao longo dos anos e ainda opera sobre distintos ambientes e contextos socioculturais

Em uma de suas obras, a autora indiana Arundhati Roy escreveu que “Talvez seja verdade que as coisas podem mudar em um dia. Que apenas dez horas podem alterar a trajetória de uma vida inteira.”[1] Em um lugar bem distante da Índia, uma hora foi o suficiente para alterar a trajetória de vidas inteiras. Naquele dia 5 de novembro de 2015, foi este o tempo aproximado para que cerca de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos provenientes do rompimento da barragem de Fundão, pertencente à Samarco, subsidiária das mineradoras Vale e BHP Billiton, invadissem o curso do Rio Gualaxo do Norte e alcançassem o povoado de Bento Rodrigues, em Mariana (Minas Gerais), destruindo quase toda a comunidade, provocando dezenove vítimas fatais e um aborto.
A lama tóxica atingiu em seguida Paracatu de Baixo, também desmanchando a maior parte de suas propriedades. Ainda foram seriamente afetadas as comunidades de Paracatu de Cima, Ponte do Gama, Pedras, Camargos, Borba e Campinas em Mariana. À noite, os rejeitos chegaram ao curso do Rio do Carmo e extravasaram de suas margens em Barra Longa, cobrindo grande parte do centro urbano e áreas rurais. A lama então alcançou o Rio Doce e 49 municípios que seguem seu curso até chegar, 16 dias e mais de 600 quilômetros depois, ao Oceano Atlântico, na foz do Rio Doce em Regência, no Espírito Santo.
Desde 5 de novembro de 2015, completaram-se dez anos de desastre no Vale do Rio Doce. No curso da maior bacia hidrográfica do Sudeste brasileiro, o peso de uma década contém as ruínas de comunidades inteiras, a transformação radical da natureza, prejuízos socioeconômicos incalculáveis, trajetórias de vida profundamente alteradas e tradições comunitárias rompidas de modo, talvez, irreversíveis. Em função da sua complexidade, a totalidade das perdas é de difícil mensuração e tangibilidade, assim como o lastro espaço-temporal persistente do desastre. Ao contrário, portanto, de um evento encerrado no passado, ele prolongou-se ao longo dos anos e ainda opera sobre distintos ambientes e contextos socioculturais.
Em Mariana, o rompimento da barragem de Fundão desabrigou mais de trezentas famílias de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, constituídas, em sua maioria, por pessoas pardas, negras e de baixa renda, ligadas à agricultura familiar e à criação de animais. Realocadas sucessiva e provisoriamente no ginásio poliesportivo da cidade, em hotéis e casas alugadas pela Samarco após intervenção judicial, essas famílias passaram a habitar espaços que não mais comportavam suas hortas e criações, afastadas da antiga rede de relações e dos lugares que até então constituíam suas pertenças: a igreja, a praça, o campo de futebol, o rio. Os deslocamentos sucessivos, a alteração forçada dos modos de vida e a fragilização dos laços comunitários somaram-se à inserção dos moradores em rodadas de negociação exaustivas com as empresas e o Estado, cujas métricas e discursos hegemônicos frequentemente deixam de abarcar e, muitas vezes, invisibilizam as práticas e os conhecimentos tradicionalmente aprendidos.

Crédito: Larissa Helena
Atualmente, os reassentamentos das famílias, a cargo da Samarco e ainda em fase de conclusão, enfrentam diversos desafios. Além de já terem apresentado problemas infraestruturais antes da sua finalização, dificultam a retomada dos modos de vida que, desde o início das negociações, atingidas e atingidos reivindicavam. A distância em relação às comunidades de origem, a falta de áreas adequadas para hortas e criações, assim como a ausência da paisagem e dos espaços coletivos que historicamente integravam o cotidiano, agravam essas limitações.
Algumas pessoas resistiram à mudança; outras, fatigadas em um cenário de prolongadas incertezas, adoeceram e, em alguns casos, faleceram antes da conclusão das obras. Importa destacar, no que se refere à saúde mental, um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais que, já em 2018, identificou uma prevalência de depressão de 28,9% entre a população atingida em Mariana, índice que superou, na altura, em cinco vezes o da população brasileira. O estudo também apontou maior prevalência de transtorno de estresse pós-traumático, transtorno de ansiedade generalizada e comportamento suicida entre atingidas e atingidos, comparativamente à população geral.[2]
Em relação ao processo de reparação, este ainda é motivo de disputas. Em novembro de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) homologou o Novo Acordo do Rio Doce, que estabelece medidas de compensação, recuperação ambiental e reparação social ao longo da bacia, além de prever a extinção da Fundação Renova, até então responsável por gerir tais ações. Embora o acordo, firmado entre o poder público e as empresas responsáveis, represente um passo importante nesse processo, com a inclusão de valores que contemplam novas obrigações e a criação de instâncias de fiscalização, vítimas e seus representantes apontam limitações, sobretudo quanto à falta de participação efetiva das pessoas atingidas em sua construção. Um ano após a assinatura do acordo, aponta-se que vítimas ainda enfrentam dificuldades para obter reparação e indenização individual, além de obstáculos nos processos de cadastro e reconhecimento como atingidas.[3]
As margens e os arredores do Rio Doce constituem abrigo duradouro e ancestral de uma diversidade de culturas que estabeleceram com ele relações de dependência e reciprocidade para o desenvolvimento de atividades como o plantio, a pesca e a recreação e, com isso, foram criando seus modos de vida. Na soma dos dias, meses e anos subsequentes ao rompimento da barragem de Fundão, seus ofícios, ritmos, modos de sociabilidade alteraram-se substancialmente. Comunidades agricultoras, ribeirinhas, tradicionais, assentados da reforma agrária, pescadores, quilombolas, indígenas, lavadeiras, artesãos, foram e seguem atingidos. Mesmo com as indenizações em curso, convivem com um rio, a flora e a fauna que o englobam, profundamente transformados. Atualmente, controvérsias avultam-se em torno da qualidade da água na mesma proporção em que se somam relatos de contaminação de plantas, animais e pessoas.

Na bacia do Rio Doce, o rio, mesmo que nas últimas décadas já sofresse as consequências da poluição e do desmatamento, ajudou a construir mitos ancestrais, histórias e subjetividades. Ailton Krenak afirma que o rio, que para ele e sua aldeia é o Watu, seu avô, parte da construção de um coletivo que habita um lugar específico, está em coma.[4] Para o autor, ao ser coberto pelo material tóxico da barragem de contenção de resíduos, o rio mergulhou em si e a água das nascentes que o abastece, aos poucos, vai encontrando novos caminhos subterrâneos para seguir rumo ao Oceano Atlântico. “A água de verdade, que nasce das montanhas, agora está correndo debaixo de uma laje de pedra que os geólogos constataram ser uma formação de granito e outros materiais muito sólidos. Em cima dessa plataforma tem três camadas de solo: o rio mergulhou fundo.”[5]
Hoje em dia, ao caminhar junto às suas margens, ainda é possível ver fios de água transparente que descem dos morros e seguem em direção ao leito ainda marrom. Em sintonia com as águas, nos últimos dez anos, a população atingida vem resistindo e refazendo seus mundos. A reconstrução de si e dos coletivos se dá por meio de gestos simples, como o cultivo de plantas em vasos que lembram os lugares de origem, o retorno aos territórios atingidos durante as celebrações religiosas, ao aparar o mato que teima em crescer em alguma parede das casas que restaram de pé. Dá-se também no gesto de ensinar a uma criança o ritmo das águas, o nome das comunidades, o nome de quem já partiu. Ainda, por meio da organização coletiva em associações de moradores, movimentos sociais, redes de apoio, atingidas e atingidos se reerguem e seguem caminhando.
Ao longo da bacia do Rio Doce, dez anos foram vividos dia após dia, um dia de cada vez. Em um contexto mais amplo de desastres em curso em Minas Gerais, como nos lembra Brumadinho ou, ainda, aqueles que tendem a cada vez mais se acirrar em função das alterações climáticas, lembrar o desastre em curso no Vale do Rio Doce é uma tarefa comum do nosso tempo.
Ananda Martins Carvalho é doutoranda no programa “Discursos: Cultura, História e Sociedade” do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais; e Larissa Helena Pereira de Oliveira é mestranda em Comunicação pela Universidade Estadual Paulista e graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto. Nossas trajetórias pessoais e acadêmicas cruzaram-se ao desastre socioambiental provocado pelo rompimento da barragem de Fundão em Mariana (Minas Gerais). Desde então, temos acompanhado, registrado e analisado suas consequências nas dimensões territoriais e psicossociais.
[1] ROY, Arundhati. O deus das pequenas coisas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
[2] CASTRO, Maila de et al. (Orgs.). PRISMMA: Pesquisa sobre a saúde mental das famílias atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão em Mariana/ Minas Gerais. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2018.
[3] OLIVEIRA, Nubya. Pagas, não pagas, considerada insuficiente ou exagerada: indenizações continuam no foco após 10 anos. O Tempo, Belo Horizonte, 2 nov. 2025. Disponível em: https://www.otempo.com.br/especiais/como-se-fosse-ontem/2025/11/2/pagas-nao-pagas-considerada-insuficiente-ou-exagerada-indenizacoes-continuam-no-foco-apos-10-anos. Acesso em: 3 nov. 2025.
[4]KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
[5] KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

