O LEGADO DA COP30

Quando as cidades lideram a transição ecológica

Premiação internacional evidencia o avanço das cidades na agenda climática e revela como iniciativas locais vêm redefinindo os rumos da transição energética e da justiça ambiental rumo ao pós‑COP30

Diante da COP30, realizada no Brasil, um dado se impôs como inescapável: os sistemas energéticos, alimentares e de resíduos se tornaram eixos centrais da nova estratégia climática global. Se as grandes negociações entre Estados-nação permanecem reféns de impasses diplomáticos, o mesmo não se pode dizer das cidades. É nelas que a transição ecológica começa a tomar forma concreta, não como promessa, mas como política pública: com escala, impacto e continuidade.

Trata-se de uma virada estrutural: o centro da ação climática está migrando da diplomacia entre Estados para o terreno concreto das prefeituras, onde a transição ecológica se materializa em políticas reais, infraestrutura e cuidado cotidiano.

Foi esse o espírito que orientou o Local Leaders Climate Awards 2025, promovido pela Bloomberg Philanthropies em parceria com a C40 Cities, durante a Cúpula Mundial de Prefeitos, no Rio de Janeiro.

Cinco cidades brasileiras figuraram entre as vencedoras: Rio de Janeiro, Barcarena (PA), Salvador, São Paulo e Juiz de Fora (MG). O prêmio, que reconhece ações eficazes de enfrentamento às mudanças climáticas nos últimos três anos, destaca que o protagonismo climático está se deslocando do plano internacional para o urbano, e do discurso para a prática.

Juiz de Fora, na Zona da Mata Mineira, foi contemplada na categoria “Transição Energética e Edificações Inteligentes”, que premia iniciativas de redução de custos e emissões com energia limpa e design eficiente. O município mineiro, governado por Margarida Salomão (PT), foi reconhecido por um conjunto intersetorial de políticas públicas que integram tecnologia, inovação e justiça social sob a diretriz da Política Municipal de Neutralidade Climática, já com 60% das ações implementadas desde 2022.

As iniciativas incluem a substituição integral da iluminação pública por lâmpadas LED, a expansão da geração solar fotovoltaica para prédios municipais, a modernização de equipamentos públicos com soluções de eficiência energética e ventilação natural, além de um projeto pioneiro de produção de biometano a partir de resíduos orgânicos, previsto para entrar em operação em 2028 e reduzir em 100 toneladas diárias o volume enviado ao aterro sanitário. A cidade também universalizou a coleta seletiva e lançou o programa Lixo Zero, que estabelece, de forma progressiva, a separação obrigatória de resíduos em residências, comércios, indústrias e edificações públicas, ao mesmo tempo em que fortalece a inclusão produtiva de catadores e cooperativas, valorizando seu papel na cadeia da reciclagem e na economia circular.

Juiz de Fora.
Crédito: AP Photo / Maria Magdalena Arréllaga

Ao receber a premiação, a prefeita Margarida Salomão destacou a relevância do reconhecimento ao lado de grandes centros urbanos. Ela ressaltou a importância da liderança feminina na gestão pública e lembrou que cidades como Boston, Pequim e Oslo , igualmente premiadas, demonstram que a transição ecológica vem sendo conduzida por múltiplos perfis de governos locais.

A presença brasileira na premiação, com diversidade geográfica e de escalas urbanas, indica que há experiências promissoras em curso em todo o território nacional. O que essas cidades compartilham é a capacidade de articular políticas intersetoriais que dialogam com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente o ODS 11: “Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”, reconhecendo que a transição ecológica também depende de trabalho digno, inclusão de comunidades vulneráveis e valorização de atores-chave, como catadores e trabalhadores da limpeza urbana. No caso de Juiz de Fora, os avanços são visíveis em indicadores de saúde, educação, energia limpa e gestão urbana, conforme o painel do programa Cidades Sustentáveis.

Ao combinar eficiência energética, gestão inteligente de resíduos e ampliação das fontes renováveis, as cidades premiadas demonstram que é possível reduzir gastos públicos e emissões de carbono simultaneamente, enquanto avançam em indicadores estruturais como saúde, qualidade do ar, segurança urbana e desempenho educacional. Essa convergência evidencia que a transição ecológica não apenas descarboniza a matriz urbana, mas também melhora a qualidade de vida, fortalece a resiliência local e libera recursos que podem ser reinvestidos em políticas sociais.

A COP30 consolidou um ponto de inflexão: os governos locais não são mais coadjuvantes no cenário climático global. Eles formulam, executam e testam políticas públicas com impacto real na vida das pessoas, e no planeta. O prêmio Local Leaders Awards não apenas celebra essas experiências, mas aponta para um novo caminho. A transição ecológica, antes tratada como uma pauta técnica e setorial, emerge agora como uma agenda democrática, territorial e profundamente urbana.

Se o futuro será urbano, é nas prefeituras e nas pessoas que as movem que ele começa a se fazer presente. As cidades brasileiras mostram que é possível fazer política pública climática com escala, impacto e legado, inaugurando um novo capítulo no pós-COP30.

Aline Junqueira é secretária de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas de Juiz de Fora MG.

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