A insurreição da consciência, a arte e a liberdade de construir uma nova existência
Quando a política deixa de ser mediação e passa a ser captura, a sociedade é empurrada para a apatia ou para o desespero
Vivemos um tempo em que a consciência humana é sistematicamente convocada a abdicar de si mesma. Abdicar do pensamento crítico, da sensibilidade, do cuidado com o outro e, sobretudo, da capacidade de reconhecer que o mundo que nos cerca não é natural, nem inevitável – ele é construído. E, por isso mesmo, pode ser reconstruído. A insurreição da consciência nasce exatamente desse ponto: do instante em que percebemos que aquilo que foi criado por mãos humanas não pode se converter em instrumento permanente de opressão, sofrimento e morte.
A política institucional contemporânea oferece um dos retratos mais evidentes dessa crise. O Congresso Nacional, que deveria ser o espaço máximo de representação da vontade coletiva, transformou-se, em larga medida, em um balcão de negociações obscuras. As chamadas emendas secretas revelam não apenas um desvio técnico de recursos, mas uma falência ética da própria ideia de política. Milhões e bilhões do orçamento público são direcionados para interesses eleitorais, patrimonialistas e privados, enquanto ciência, educação, cultura e políticas de cuidado seguem subfinanciadas. Não se trata apenas de corrupção financeira; trata-se da corrosão da confiança social e da destruição deliberada da capacidade coletiva de planejar o futuro.
Quando a política deixa de ser mediação e passa a ser captura, a sociedade é empurrada para a apatia ou para o desespero. A insurreição da consciência se coloca como recusa ativa a essa lógica. Ela afirma que o espaço público não pode ser sequestrado por acordos silenciosos que aprofundam desigualdades e naturalizam a exclusão. Insurgir-se, aqui, não é destruir instituições, mas resgatar seu sentido histórico: servir à vida, e não a interesses privados.
Essa mesma lógica de desumanização se manifesta de forma brutal na persistência do feminicídio. Cada mulher assassinada é mais do que uma estatística; é a prova viva de que o Estado e a sociedade falharam em proteger a existência feminina. O feminicídio não é um evento isolado, mas o produto de uma cultura que tolera a dominação, o controle e a violência sobre o corpo e a liberdade das mulheres. A resposta não pode se limitar à punição penal posterior. É preciso agir antes: educar, prevenir, transformar consciências, desmontar estruturas simbólicas que legitimam a violência.

A insurreição da consciência, nesse campo, é um compromisso inegociável com a vida das mulheres. É a defesa radical do direito de existir sem medo, de decidir sobre o próprio corpo, de amar, criar e caminhar sem a ameaça permanente da violência. Não se trata de concessão, mas de reconhecimento: mulheres são sujeitos plenos de direitos porque são humanas, e isso deveria bastar.
Outro território onde a crise da consciência se revela de forma dramática é o mundo do trabalho. O adoecimento dos trabalhadores deixou de ser exceção e passou a ser regra estrutural. Dados públicos do INSS indicam que, em pouco mais de uma década, os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais praticamente dobraram. Em categorias como a bancária, os números são estridentes: metas abusivas, remuneração variável agressiva, assédio moral institucionalizado e uma cultura permanente de competição corroem a saúde psíquica de milhares de trabalhadores.
Não se trata de fragilidade individual, nem de incapacidade pessoal. Trata-se de um modelo de organização do trabalho que produz sofrimento como método de gestão. Um sistema que exige desempenho máximo enquanto nega condições mínimas de humanidade. A insurreição da consciência começa quando afirmamos, sem culpa e sem medo, que ninguém é obrigado a adoecer para produzir. Existe um direito fundamental de não adoecer. O trabalho deve servir à vida – e não o contrário.
Essa afirmação carrega um deslocamento profundo. Ela rompe com a lógica que desconfia do trabalhador adoecido, que o acusa de simulação, exagero ou fraqueza moral. Cada colega em sofrimento precisa ser reconhecido como alguém que, até pouco tempo atrás, sustentava o funcionamento da engrenagem coletiva. Acolher não é favor; é dever ético. Proteger a saúde de quem trabalha é proteger a própria continuidade da vida social.
É nesse ponto que a insurreição da consciência deixa de ser apenas reflexão e se transforma em prática concreta. Ela convoca à organização nos locais de trabalho, às assembleias, às reuniões, às conversas francas entre colegas. Convoca à reconstrução de laços de solidariedade destruídos pela lógica da competição permanente. Convoca a reconhecer que nenhum adoecimento é mentira, que nenhum sofrimento é irrelevante, que nenhum trabalhador é descartável.
Não podemos esperar que a política tradicional resolva aquilo que ela própria ajudou a criar. A história demonstra que as grandes transformações nasceram quando aqueles que produzem a riqueza material e simbólica do mundo decidiram assumir também a tarefa de reinventá-lo. Os trabalhadores criaram tudo: as cidades, as máquinas, os serviços, as instituições, o conhecimento aplicado. E, por isso mesmo, têm a capacidade histórica de recriar tudo.
A insurreição da consciência não é um chamado à violência, mas à lucidez. Não é um convite ao caos, mas à reorganização consciente da vida coletiva. É a recusa em aceitar a exploração como destino, o sofrimento como normalidade, o medo como método de governo. É a afirmação de que a humanidade não nasceu para sobreviver exausta, mas para existir com dignidade, criatividade e sentido.
Essa consciência insurgente também é arte. Arte como criação de sentido, como ruptura com a repetição do sofrimento, como gesto de reinvenção da existência. A arte, aqui, não é ornamento: é força vital que permite imaginar o que ainda não existe e sustentar a coragem de construí-lo. Sem arte, não há consciência plena; sem consciência, não há liberdade.
Essa insurreição não se limita às fronteiras nacionais. Ela se estende à indignação ética diante do massacre humanitário que se impõe sobre povos inteiros. A situação em Gaza e em diversas regiões da África expõe, de forma brutal, a seletividade da empatia global e a banalização da morte de populações inteiras. A insurreição da consciência exige romper o silêncio, denunciar a violência estrutural e afirmar que nenhuma vida é descartável em nome de interesses geopolíticos, econômicos ou estratégicos.
Que essa insurreição se faça nos gestos cotidianos, nas relações de trabalho, nas escolhas políticas, na defesa incondicional da vida. Que ela seja coletiva, solidária e profundamente humana. Porque aquilo que foi criado pela consciência humana pode – e deve – ser reconstruído por ela. E porque aqueles que criaram tudo têm, também, o direito histórico de recriar tudo e, assim, construir uma nova existência.
Flaviano Cardoso é advogado humanista, trabalhador bancário e pesquisador independente sobre saúde e psicodinâmica do trabalho, além de ser Ativista global na defesa do direito à saúde mental, à dignidade no trabalho e contra a situação de massacre humanitário na África e em Gaza.

