‘OS MEUS MORTOS PEDEM NOMES’

A sociologia que incomoda, um livro que diz tudo e mais um pouco!

Dentre os muitos significados que este livro desperta, o de maior impacto é o da superação e da transformação da vida diante da morte, por meio da construção de uma narrativa de reencantamento do mundo. Trata-se de uma obra sociológica na qual a autora evidencia que toda escrita possui uma consciência e uma potência social

Aos que convivem com os cadáveres, lamento, mas eu não posso esquecer. Enquanto eles continuarem nos matando, continuarei lembrando. Os meus mortos pedem nomes.”

Fabiane Albuquerque, 2025 

Os meus mortos pedem nomes é um dos grandes livros dessa nova ge ração de autoras negras que por vários recortes, discursivas e perspectivas tecem um conjunto literário dos mais estimulantes dentro da cultura brasileira. Em especial, estas autorias tecem uma sensibilidade criativa que mescla imaginação narrativa com criticidade social de uma maneira, que por caminhos desaguam em um universo de literatura das mais inovadoras e sofisticadas. Imprescindível para buscarmos nos entender e compreender enquanto sociedade, sem deixar de ao mesmo tempo gerar uma produção cultural de primeiríssima grandeza.

Crédito: Divulgação/Editora Uratau                                                  

Escritoras que em geral, possuem uma integridade autoral e uma consciência cidadã que se complementam e se influenciam, sem medo de sofrerem uma redução simplória, ou torpe, de uma pretensa crítica literária que desdenha toda obra oriunda das camadas populares ao qual não podem definir como “exóticas”, enquanto “panfletárias”. Como algo sem valor ou significância artística. São imaginadoras do infinito, escribas dos pormenores e amiúdes, tecelãs dos rasgados e retalhos, que se emaranham, são cortados, medidos e cozidos a partir de suas sapiências e ancestralidades, para dar forma, vazão, voz e discurso as suas escritas. E entre tantos conjuntos literários que já destacam a partir linhagem literária contemporânea brasileira, temos a literatura e trajetória de Fabiane Albuquerque.

Livro que se dá pela escrita enquanto instrumento de perpetuação de vidas, memórias e narrativas. Dentre tantos significados que este livro desperta, o de maior impacto seria o da superação e transformação da vida perante a morte. Da construção de uma narrativa reencantadora do mundo. De quem não aceita o destino como uma trilha definida de antemão, sem alternativas ou outras caminhadas, para além das mesmas narrativas de sempre. Obra sociológica, em que sua autora manifesta que toda escrita, possui uma consciência e potência social.

Diretamente relacionada ou imbricada pelos conjuntos de relações sociais que se dão em sociedade. Histórica e culturalmente influenciando na formação de seus sujeitos humanos e da maneira com que estes acabam por se relacionar e interagir com a sua realidade-mundo. Em que Fabiane revela a intencionalidade da sua escrita enquanto expressão de vida, em não aceitar ser apagada ou silenciada, nem tão pouco esquecida, em sua existência. Tomando tal premissa enquanto mote de sua produção textual, quando busca com ela dar voz, corpo e alma. Sentimentos, anseios e amores às suas gentes, ao seu povo.

Uma intelectual e pesquisadora periférica de vidas periféricas, que chama para si a construção de seu próprio destino e das narrativas que fara por (re)contar e (re)construir em suas escritas, em seus estudos. Livro potente, desafiador que te atravessa num crescendo desde as suas primeiras palavras. Oriundo de uma troca de cartas com uma leitora em relação ao impacto causado pelo seu primeiro romance Cartas para um homem negro que amei, e de como a morte se faz presente aos cotidianos das populações negras no Brasil. Velórios, enterros, a morte como sina. Buscando apenas sobreviver em meio a uma sociedade em que “viver” se dá enquanto verbo impossível de se recitar em realidade, para a maioria da sua população. Sempre em situação de abandono estatal, ocupando os “não lugares” de precariedade urbana e social. Tendo a violência e abusos como normas e regras, um mundo de informalidade civilizatória, dispensados a própria – má – sorte!

As primeiras páginas desse estudo, se dá com o leitor sendo expectador da relação dialogal entre escritora e sua leitora. Uma narrativa fascinante que balizará o texto a seguir…

E a partir dessa relação inesperada, se dá início a concepção e o desenvolvimento narrativo de uma escrita memorialista de Fabiane, pontuada e interligada com diferentes narrativas e depoimentos que permeiam o livro.  Dando-lhe toda uma essência narrativa articulada e coesa, que se faz burilar pela estilística cada vez mais refinada da autora. O que impede termos em mãos um livro de colagens autobiográficas e sem unidade. Sendo evidente o uso de seu arcabouço sociológico para elaboração e desenvolvimento conceitual de Os meus mortos pedem nomes, assim como da prosa argumentativa que sustenta suas elucubrações.

Nos apresentado um estudo social de primeira grandeza, navegando por entre a tradição ensaística das Ciências Sociais do Brasil e os chamados estudos de caso, permeados por uma influência antropológica urbana e cultural. Uma problematização sociológica sobre um país, uma sociedade tingida por um racismo basilar e definidor de nossos conjuntos históricos e contemporâneos de sociabilidades. Para os detratores do conceito de racismo estrutural, que questionam a comprovação empírica de sua existência, este livro comprova e amplia a gama analítica para além de sua ocorrência sistêmica, mas sim dos seus mais variados efeitos em meio a população brasileira, em especial as suas populações negras.

Sempre partindo das reflexões e problematizações sobre as experiências de se buscar sobreviverem em meio a uma sociedade que sempre lhe rotula enquanto um ser em eterno desterro, de não pertença, e desagradável ao ideal de humanidade pressuposto por nossas elites reacionárias.

Os meus mortos pedem nomes é o construir literário de uma intelectual consciente de seu (não) lugar no mundo enquanto pessoa negra, mulher, periférica, (i)migrante e diaspórica. Livro que acaba por se constituir enquanto um mosaico completo de um Brasil que mesmo diante de nossos olhos, se revela tão profundo, tão distante do modelo mítico de padronização social ao qual somos desde sempre condicionados a não contestar. De vivermos pacificamente e sermos um povo ordeiro, sem espaços para outras narrativas e discursivas que ponham em xeque este nosso jeito de viver e de sermos.

Como se as nossas precariedades cidadãs se dessem por acaso e não fossem projeto de alienação e poder, para manutenção das mesmas estruturas de poder de sempre. Em que direitos sociais se transformam em privilégios, que só beneficiam os mesmos de sempre. Marginalizando, lançando a própria sorte a maioria absoluta de nossa população. Dando assim, cor, gênero, recorte social e urbanístico as nossas desigualdades e diferenças sociais como se estas fossem naturais e só se mantivessem por culpa dos próprios vitimados. E nunca, de um Sistema engendrado para funcionar a partir de uma reprodução contínua de miséria em cima de miséria, de precariedade em cima de precariedade.

Romper com a norma social vigente, expondo e contradizendo as relações de poder hegemônicas, contribuindo para a edificação de um outro devir organizacional, para um outro ideário de sociedade. Práxis sociológica socialmente compromissada em retratar e interagir com aqueles sujeitos históricos aos quais opta por representar. Aos quais busca verbalizar, aos quais não deixa serem esquecidos, aos quais não deixa serem apagados da vida!

Esse livro se dá por essa premissa e inserida a tradição sociológica radical negra afrodiaspórica que se deu nas Américas. Nos oferecendo uma produção bibliográfica em que se contesta a defesa da ideologia da cordialidade como mito civilizatório – que justifica toda forma de perseguição e combate ante aqueles que ousam romper “nosso” pacto deturpado de brasilidade – de um sistema tão cruel. De uma realidade tão mórbida que suas vítimas buscam por se autodepreciar e autoviolentar enquanto grupo, sem nenhum sentido de pertença, em um último estágio desse processo de raiva e violência não canalizada, buscando a própria morte como a solução final ante tantas dores e sofrimentos.

É angustiante, chega a ser desesperador, o processo de encadeamentos que a leitura do livro oferece, ao discorrer acerca da associação de uma série de tragédias humanas, desde enchentes, até chacinas, passando pelas relações de violências cotidianas, ao longo da história do nosso país. Que atingem, se dão, preferencialmente com um mesmo grupo étnico-racial, alocados nas regiões periféricas urbanisticamente mais desestruturadas.

Um genocídio sistêmico e secularmente cotidiano de toda uma população. Em que a violência contra as mulheres se dá como elemento chave desse processo de desumanização e extermínio das populações negras no Brasil. Aquilo que as pesquisas e estudos apontam, Fabiane transforma em arte e redige em páginas e mais páginas, que acabam por dar alma e coração a esta obra. É uma escrita sociológica que transita por diferentes gêneros e normativas, desenvolvendo ao seu final uma escrita livre, rebelde e insolente. Deliberadamente afirmativa e provocativa. Profundamente raivosa – no sentido de que é válido e profundamente humano a manifestação e o exercício da raiva – como forma de reafirmação de humanidade e de libertação coletiva (2024). Aqui sendo manifestação pública – sem pudores ou medo – de sua quilombagem intelectual enquanto mulher negra, num país profundamente racista e misógino como o nosso.

É um livro corajoso e necessário, em que se problematiza e se discute o racismo como o nosso grande monstro devorador de almas, ao colocar em xeque a discursiva contemporânea da tão louvada meritocracia social brasileira. Revelando-a como ferramenta alienatória de dominação. Baseada numa perspectiva individualista – de mudar para não mudar – em que o negro(a) excepcional descolado(a) da questão racial-social e da negritude, se torna exemplo daquele que venceu pelos próprios méritos e virtudes, em oposição ao comodismo e vitimismo de seus semelhantes. Mas que mesmo assim, não acaba incluído organicamente, de igual para igual, as sociabilidades hegemônicas da sociedade brasileira. Continuando sendo potencial vítima do racismo e seus efeitos, mesmo com toda uma trajetória de escalada social.

Trabalho de análise sociológica em que a partir de uma problematização dos relatos colhidos durante a elaboração do livro, nos apresenta um país em que até os cemitérios renegam essas populações. Como se elas simplesmente não tivessem existido. Fossem em vida ou na morte apenas um grande e profundo nada! Não podendo por isso serem louvados ou pranteados. Pois como você chora por quem de fato nunca existiu? Por quem nem a terra acaba por acolher? Em dentre tantas mazelas sociais, psicológicas, físicas que o estudo nos aponta, se ressalta, por sua extrema crueldade mórbida, o relato detalhado acerca de um cemitério, como único espaço de convivência formal entre a sociedade com os seus socialmente não bem quistos. Escondidos, precarizados e vivendo entre os mortos. Relegados a uma vida em negação, alojados entre as vítimas fatais por uma série de descasos nada aleatórios. Em uma sociedade reacionária e racista, que empulha, obriga, aos sobreviventes desse genocídio negro, a conviver entre cadáveres. Sem direito de reivindicar a memória dos seus, nem a buscar louvar os seus nomes.

Sociedade estruturada de tão forma – ciosa dos privilégios dos seus grupos sociais mandatários – que não permite nem o choro de suas vítimas. Não se têm respeito pelo luto, não se têm espaço para as lágrimas em silêncio. Não se pode sofrer por aquilo que não existe? Pois como prantear por aquilo que não viveu? Por aquilo que não foi? E a dor é perigosa, pois fomenta momento de ruptura, mesmo que momentânea, a realidade alienatória a sua volta. E pode dar margem a reflexões, indagações, questionamentos, revoltas… Podendo gerar ódio e raiva! Que geraram novos sentidos, novas buscas de se viver e transformar o mundo! A dor é perigosa… Por isso dever ser evitada, para que não haja riscos, para que tudo siga como sempre foi e deverá vir a ser!

Por isso, para que o Sistema não vença mais o seu próprio jogo, em que opta por negar a morte daqueles a quem nunca reconheceu em vida, Albuquerque dá vazão ao seu novo livro! Cobrando, indagando, reivindicando o nome dos nossos mortos… Para que, numa perspectiva de africanidade do sagrado imbricado ao mundo material, possamos relembrar e louvar as suas vidas, as suas existências! Dando a estes o devido reconhecimento, respeito e direitos, sempre negados, até mesmo após as suas mortes.

É a Sociologia em ação, decifrando nosso reacionarismo civilizatório, as complexidades de nossas relações sociais e os amiúdes contraditórios que a tudo definem na nossa sociedade. É a literatura enquanto registro da vida vencendo a morte. De tantas pessoas, seres humanos apagados de suas existências, que retornam a vida nas páginas desse belíssimo e necessário livro. Ao qual vivem para sempre, em que nunca mais serão esquecidos! Nossos mortos, têm nome… E não os esquecemos… E nunca mais deixaremos ninguém a apagar suas vidas e existências!

Pois, dar nome aos nossos mortos é resgatar a memória dos que aqui não mais estão e da vida que eles (não) tiveram! Em que a busca por existir numa terra a qual ingratidão e desprezo, se dão como marcas cotidianas da nossa maldita herança escravocrata.

Sei que são tantos nomes, quase incontáveis ao longo de tantos séculos e séculos… A memória chega até a falhar… E a lista não para de crescer… Não para… Até por isso, você pode até esquecê-los… Mas nós não… Não mais, nunca mais…

Esse livro… Não é só por isso! Mas ele é… Por isso!

Brasil, quais os nomes dos nossos mortos?

Nossos mortos pedem nomes!

Christian Ribeiro é doutor em Sociologia. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/UNICAMP.

 

Referência Bibliográfica.

ALBUQUERQUE, Fabiane. Os meus mortos pedem nome. São Paulo: Urutau/Hecatombe, 2025.

ALBUQUERQUE, Fabiane. Ensaio sobre a raiva. São Paulo: Editora Patuá, 2024.

ALBUQUERQUE, Fabiane. Cartas a um homem negro que amei. Rio de Janeiro: Malê Editora, 2022.

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