ARTIGO

Onde as palavras sonoras atingem o peito: reflexões sobre gênero, raça e classe na música

Sons, ritmos, dinâmica e silêncio são processos manipuláveis que atravessam os interesses de quem compõe ou interpreta uma melodia. Como podemos ampliar nossas perspectivas acerca do fazer artístico-musical sem considerar fatores raciais, sociais e de gênero?

Uma cidade de encruzilhadas 

Na polissemia das palavras e seus significados 

Onde as palavras sonoras atingem o peito 

E as indagações e mistérios se encontram na face curiosa de quem pergunta 

De fato, há uma certa curiosidade

No registro, na ausência e de maneira latente, na presença 

Meu silêncio é questionado 

Minha reclusão gera interesse 

 

Mas há momentos 

Apesar de ser algo corriqueiro, há momentos 

Há momentos para pensar e refletir 

Pensar no giro da vida

Na ginga da malandragem 

Escolher as palavras ou deixá-las soltas? 

É possível eleger um jeito de escrever, ou esse jeito é quem nos escolhe? 

E tudo é reflexo

Um vasto rio que segue com suas águas caudalosas

Numa dança circular da palavra lançada

Poema da autora intitulado “Um Vasto Rio”, 2026.

 

Lançar palavras como convite ao descobrimento de quem somos, como nossos corpos interagem com os acontecimentos cotidianos da vida, e se permitir refletir de forma poética, crítica, artística e sonora envolve coragem.

As palavras-movimento procuram registrar as relações presentes entre corpo, som, música, cidade, origem, filosofia, crenças e modos de existir e se relacionar com o presente, os acontecimentos, os escritos e, principalmente, a escuta. Nessa configuração, a escuta torna-se elemento privilegiado na relação que construímos com nossa maneira de estar e pensar uma grande metrópole, como é o caso da cidade de São Paulo.

Podemos pensar essa relação por meio de diferentes perspectivas, como por exemplo, sob o ponto de vista cultural, religioso, musical, gastronômico, econômico e entre outros. Mas e quando pensamos nessas relações a partir das questões de raça, gênero, sexualidade e classe? 

Ao inserir esses debates no campo musical, ampliamos as perspectivas acerca do modo como nos relacionamos e interpretamos os movimentos que nos atravessam. Contudo, viver, analisar, interpretar e, a partir disso, criar ferramentas para a compreensão de si no mundo implica desafios, uma vez que não estamos propondo uma ação e/ou reflexão rasa acerca da temática que permeia nossos corpos e mentes enquanto sujeitos racializados. Estamos costurando, pelos fios de nossa memória ancestral, possibilidades de existir e se relacionar com o mundo que nos cerca, e as ofertas que nos são apresentadas mediante as dificuldades estruturantes presentes em nossa sociedade. 

Ser uma pessoa escritora no Brasil envolve desafios. Agora, ser uma mulher conscientemente negra, escritora, pesquisadora, professora e artista não apenas envolve desafios, mas transforma a existência em um misto de pavor diante do desconhecido e de concretização de caminhos possíveis, que se despontam no horizonte e se deixam traduzir pelo tempo. É assim que se expressa a sensação de ser a primeira da sua família, da sua rua e da sua comunidade e, ao mesmo tempo, compreender que não se é a primeira, pois tantas outras mulheres negras vieram antes.

Crédito: @daisy_aserena

A escrita, nesse sentido, assume o lugar de insubmissão para a mulher negra. Como uma palavra-ebó lançada a partir das cosmologias e fundamentos que me perseguem por causa da herança ancestral da diáspora negra forçada. Eu me torno insubmissa ao pensar, sonorizar, transformar palavras em sangue, aprender a aprender gingando e, quem sabe, lançar pensamentos. Produzir pensamentos críticos, evocar por uma epistemologia que reconheça o pensamento negro como crítica, como verbo, como som. 

E é a partir dessas relações, transformações e sentimentos, que a cidade de São Paulo me atravessa com toda sua pluralidade, diversidade, oportunidade, mas também limites. Filha da diáspora nordestina, meu pai, José Barreto Souza e minha mãe, Gilza Inácia da Silva Souza, nascidos no estado da Bahia, numa cidade chamada Ipirá, cujo significado é “Rio do Peixe”, se mudaram no início da década de 1990 para a cidade de São Paulo, junto com minhas duas irmãs mais velhas, Joseane da Silva Souza e Eula Paula da Silva Souza. 

Tal qual a dimensão e grandeza que constituem esta cidade, também eram grandes as promessas de uma vida melhor, como: emprego, educação, saúde, moradia, ascensão social e, principalmente, qualidade de vida. Na virada do século, em 1999 eu nascia na cidade de Ferraz de Vasconcelos, localizada na  Grande São Paulo e, no ano seguinte, em novembro de 2000, nascia o meu irmão mais novo, André Silva Souza. 

A vida na cidade grande seguia com suas dificuldades atreladas à forte influência da igreja evangélica, bem como às dificuldades por moradia digna. A verdade é que a experiência de viver em uma das maiores cidades do país não me concedeu melhores oportunidades, mas sim maiores dificuldades. Como dito anteriormente, eu não nasci na cidade de São Paulo, eu nasci no estado, mas a cidade onde nasci e vivi até os meus 22 anos foi Ferraz de Vasconcelos. 

Políticas de incentivo à cultura, educação, projetos de formação artística para crianças e adolescentes, segurança, cinemas de rua, Sescs, segurança alimentar, saúde, bicicletas do Itaú, aulas de música, oportunidades de emprego, nada disso chegava em Ferraz de Vasconcelos; afinal, era só uma cidade que pertencia ao estado e não a “grande, rica e próspera São Paulo”. 

A igreja, por sua vez, chegou primeiro na vida da minha família. Ela entrou com cestas básicas, aulas de música e a esperança de uma vida melhor, não na terra, mas no céu. Aliás, era uma esperança que me soava engraçada e confusa quando criança, e ao chegar na fase da adolescência me causava certa estranheza e indignação. Os servos de Deus diziam naquela época: “quanto maior a sua dor e sofrimento na terra, maior será o seu galardão, maior será sua coroa no céu”, alguns diziam até em diamantes: “quanto maior a tribulação, maiores serão os diamantes da sua coroa no céu”, e no auge dos meus 17 anos de idade eu só queria saber de possuir diamantes na terra, ainda viva. 

Nas voltas que a vida dá, eu fui aprovada, ainda na adolescência, para estudar saxofone erudito na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP Tom Jobim), e na Escola Municipal de Música (EMMSP). Para conseguir chegar às aulas práticas de instrumento e teoria musical, eu precisava atravessar a cidade, enfrentar trens e metrôs lotados e lidar com a desigualdade gritante que invadia os meus pensamentos. 

Crédito: @daisy_aserena

Em ambas as escolas eu nunca tive uma professora ou um professor negro, professoras mulheres eram poucas, e todas brancas. Por sua vez, a diferença de classe era gritante, enquanto eu dependia do saxofone da igreja para dar continuidade às aulas, eu tinha colegas que durante as férias iam para a Europa estudar de forma mais aprofundada seus respectivos instrumentos. 

O meu primeiro estranhamento com o ensino de música tradicional não foi a questão racial, apesar desta ser extremamente latente, mas sim a discrepância de classes sociais. Acredito que esse estranhamento se deu pelo fato de crescer ouvindo da minha comunidade que as artes, de modo geral, eram profissões de quem não queria trabalhar, que não dava dinheiro, que pessoas inteligentes e com maior poder aquisitivo cursavam medicina, direito ou as engenharias. 

Posso dizer que minha grande estranheza, contraste de perspectivas, subjetividades e construções sociais caíram por terra quando percebi que na verdade a grande maioria das pessoas que tinham acesso ao ensino musical tradicional, branco-europeu, especialmente, na cidade de São Paulo, eram pessoas de classe média alta. Contudo, o grande sacudir interior para a questão racial ainda estava por vir. Ou pelo menos, ele sempre esteve ali, eu apenas não havia despertado, ainda, para essas questões.  

O tempo, as sonoridades e subjetividades foram se construindo, ao passo que uma maior consciência de gênero e classe estavam se tornando cada dia mais fortalecidas em minhas corporeidades e gestos do cotidiano. Mesmo sem conhecer, naquela época, grandes escritoras, artistas e intelectuais mulheres, especialmente mulheres negras, a questão de gênero e classe se consolidavam em mim. A partir disso, lanço um questionamento: porque a questão racial demorou tanto para me sacudir? É impossível trazer uma única resposta, mas é possível analisar alguns caminhos. 

Hoje eu sei o quão benéfico é para nossa sociedade brasileira, com fortes heranças e privilégios do período escravocrata, que sujeitas e sujeitos negros não despertem para a questão racial em nosso país. Ao trazer isso, não quero propor uma pirâmide de marcadores da diferença onde selecionarei os que merecem estar no topo ou na base do sofrimento psíquico e do nosso colapso enquanto sociedade. Mas analisar, de forma crítica, como as questões raciais não são tratadas em nosso país da forma como merecem.

Crédito: @daisy_aserena

Questionar sobre isso me levou a pensar a questão musical a partir desses atravessamentos, uma vez que a música não é neutra, ela é interferência humana. Sons, ritmos, altura, dinâmica, andamento, silêncio e outros são processos manipuláveis que atravessam os interesses de quem compõe ou interpreta uma melodia. Como podemos pensar em educação musical sem analisar seu contexto histórico-social, político e étnico-racial? Como podemos ampliar nossas perspectivas acerca do fazer artístico-musical sem considerar seus fatores raciais, sociais e de gênero? 

Nos espaços tradicionais de ensino musical, como escolas, conservatórios e universidades de música, nos dedicamos a aprender sobre a música branca-europeia. As aulas de história da música, harmonia, contraponto, análise, educação musical, em sua esmagadora maioria, é sobre a música de tradição branca-europeia. Se vivemos num país pluriétnico e pluricultural, por que nossa formação é voltada somente para o que acontece na Europa?  

Aqui, eu não estou querendo propor abandonarmos esse tipo de ensino, nem fazer ataques pessoais a quem tira o seu sustento com essa prática. Mas procuro levantar reflexões acerca de outras possibilidades, para além do cânone. Se para ensinar nos espaços considerados “oficiais de ensino” é necessário apagar a memória, história, origem, filosofia, crenças e modos de existir de outras culturas, precisamos não só rever nossos currículos, como também nossa humanidade. 

É necessário sempre nos revermos, acolhermos as águas que nos invadem, perceber o som que nos acomete e como os espaços, lugares e cidades se revelam. Entender e se situar a partir disso, seja como pessoa negra, ou não, é o que nos permite nos inscrever no mundo de forma consciente. Não é fácil, mas a cada dia se torna um gesto mais do que necessário para o fortalecimento emocional, físico e espiritual em busca de nossa memória ancestral. 

 

Stefani Souza é mestranda em musicologia pelo Programa de Pós-graduação em Música da USP.

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