UMA INFRAESTRUTURA ESTRATÉGICA DE PODER

Soberania digital: da fragmentação a reconstituição

Em meio à crescente fragmentação da ordem internacional, a internet – antes celebrada como espaço global, aberto e conectado – transforma-se rapidamente em território de disputa geopolítica, vigilância e soberania estatal. O avanço da guerra cibernética, das regulações digitais e da competição entre grandes potências revela que o domínio online deixou de ser percebido como ambiente neutro para se tornar infraestrutura estratégica de poder

O fim do faroeste do WWW (World Wide Web)

Quando soluções coletivas faltam, a fragmentação torna-se uma resposta natural. Isso pois, perante um estado crítico, um sistema de atores organizados se fragmenta em uma multiplicidade difusa até que uma nova premissa de consolidação volte a parecer possível. Se há algo que nosso turbulento século XXI nos demonstra com dureza é que o fluxo da história não se satisfaz com dogmas ou declarações. E, perante a aceleração inerente das plataformas, nossa compreensão da realidade são sempre as notícias de ontem, e o sonho uma vez esperançoso de um futuro digital internacionalmente conectado foi interrompido com um despertar ruidoso.

E nós, usuários e uma vez cidadãos do reino da internet internacional conectada experienciamos justamente isso.

Durante a maior parte da história humana, a realidade foi um dos grandes elementos equalizadores da existência compartilhada, e, de certa maneira, a humanidade reconheceu a realidade como um domínio em que o ato possui consequência absoluta.

Em estilo faroeste, a World Wide Web (WWW) cultivou em nós, por décadas, a ilusão de ser um domínio alternativo, onde ato e consequência viviam separados em um divórcio de veludo. Agora, à medida que a era da desconstrução e da fragmentação global revela pouco a pouco seus contornos pontilhados, o último suspiro da WWW surge como um consenso final e precário antes da dissociação iminente: quase todos os Estados do planeta prefeririam ver seu espaço online transformar-se em geografia política, e seu espaço cívico digital tornar-se uma extensão da própria realidade, que se tornou policiada e regulada.

A ironia, claro, é que a desconstrução da WWW como a conhecemos está sendo conduzida pelo próprio Ocidente. Houve um tempo em que a China era alvo de escárnio pelo grande firewall, enquanto a abordagem europeia era tratada como referência de uma legislação inteligente e orientada aos direitos humanos para o domínio online. O famoso Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR) e a regulamentação da Identidade Digital Europeia (EUDI) foram constantemente vistos como marcos jurídicos avançados, de vanguarda, concebidos em favor do usuário.

Agora, no que parece ser um coro crescente de opiniões congêneres, após a proibição parlamentar australiana do uso de redes sociais por menores de 16 anos, diversos Estados europeus passaram a defender mecanismos mais rígidos de retenção de dados, verificação de identidade e regulação etária nas redes sociais, reprimindo o uso de VPNs e, em última instância, buscando liquidar de vez o próprio conceito de anonimato na web. Nas palavras de Dimitris Papastergiou, ministro da governança digital da Grécia, “o principal problema por trás do anonimato é a toxicidade – qualquer pessoa, especialmente nas redes sociais, pode difamar um indivíduo e realizar um assassinato de reputação sem enfrentar consequência alguma…”. Seguindo o exemplo australiano e seu próprio Online Safety Act, a posição atual do governo britânico sobre o “fechamento de brechas que colocam crianças em risco” consiste em impor procedimentos obrigatórios de verificação de idade e identidade. Retórica igualmente firme é adotada pelo primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, que ordenou uma investigação contra X, Meta e TikTok para combater material de abuso sexual infantil gerado por inteligência artificial, além de ter protagonizado um embate público de grande repercussão com Elon Musk. Sentimentos semelhantes são compartilhados pelo presidente francês Emmanuel Macron, e a Dinamarca também caminha, ao que tudo indica, na mesma direção.

Ao que tudo indica, porém, tudo isso possui menos relação com a proteção das crianças e mais com a afirmação de controle sobre a atividade dos usuários online, fundindo as personas digitais à identidade civil concreta – uma pessoa, um documento. Para compreender a silenciosa mudança tectônica atualmente em curso, basta observar colossos legislativos como o proposto Chat Control da União Europeia e a ampla estratégia de segurança interna ProtectEU. Comercializadas como medidas voltadas à proteção infantil, ao contraterrorismo e à dissuasão contra “Estados estrangeiros hostis”, tais iniciativas procuram impor o escaneamento indiscriminado de comunicações privadas, colocando a privacidade digital fundamental em conflito direto com a defesa do estado. Ainda assim, seu verdadeiro significado ultrapassa a erosão imediata do anonimato do usuário. Ao impor verificações obrigatórias de identidade, infraestruturas automatizadas de vigilância e bloqueios localizados de conteúdo, esses marcos regulatórios acabam por atrelar a existência digital às fronteiras físicas. Fragmentam a rede global tal como a conhecemos em jurisdições digitais definidas por Estados e cuidadosamente curadas – em nome da soberania digital.

Enxergar isso apenas como uma tentativa de aprimorar políticas domésticas, contudo, é ignorar a aposta estratégica mais ampla. O impulso em direção a uma internet estruturalmente delimitada possui, em essência, um propósito duplo. Internamente, concede aos Estados uma visibilidade panóptica sem precedentes sobre seus cidadãos; externamente, funciona como uma fortificação geopolítica. Em uma era em que conflitos são travados cada vez mais no ciberespaço, atrelar a internet às fronteiras nacionais permite que governos isolem suas infraestruturas críticas contra sabotagem estrangeira e contra formas militarizadas de interdependência tecnológica. No fim, a interpretação emergente de “soberania digital” pouco considera o usuário. O que observamos é a construção de verdadeiras muralhas digitais de Adriano, desenhando preventivamente os campos de batalha cibernéticos das futuras fraturas geopolíticas, enquanto direitos e liberdades individuais permanecem como uma preocupação distante e secundária. Isso também revela que, dentro do paradigma tradicional da WWW, os Estados ocidentais já não conseguem assegurar plenamente sua dominância; razão pela qual muitos correm para erguer suas linhas defensivas e, assim, reimaginar à força a própria natureza do domínio online.

 

O estágio decisivo da soberania digital: geopolítica

Isso ocorre porque a realidade da WWW como um sistema baseado em interdependência assimétrica acumulou evidências esmagadoras de ser um risco crítico de segurança. O volume de danos que pode ser infligido a Estados e sociedades através do plano digital desafia aquilo que pode ser alcançado no domínio físico. No longo prazo, tais processos bastam para provocar polarização social, degradação moral e declínio cultural; no curto prazo, ataques cibernéticos coordenados funcionam como uma espécie de granada de efeito moral – desorientando, corroendo o moral coletivo e induzindo comportamentos erráticos. E por que assimétrica? Porque apenas alguns poucos países possuem capacidade de controlar os níveis cognitivo e material de seus respectivos conjuntos soberanos de ferramentas tecnológicas. Aos demais resta disputar espaço no nível do software – ou pior, submeter-se a ecossistemas digitais estrangeiros sem possuir qualquer capacidade real de decisão sobre eles. Enquanto na mídia ocidental os esforços de países da Commonwealth e da União Europeia são heroicizados como uma batalha árdua para proteger sociedades contra atores estrangeiros maliciosos e formas de tirania, a parcela menos afortunada do mundo costuma ser retratada em um carrossel permanente de “vilões da semana”. Afinal, para além da câmara de eco, persiste a velha lógica do “daqui em diante, há monstros”: para além dos muros do jardim, supostamente espreitam terrores indizivelmente antidemocráticos.

Enquanto isso, na outra ponta desse amargo Game of Thrones, países dos BRICS e do Sul Global tornam-se cada vez mais preocupados, à medida que se acumulam confirmações de que uma estratégia de soberania digital deixou de ser mera opção e passou a constituir uma necessidade absoluta.

Para nações situadas fora do guarda-chuva ocidental, o nível material da soberania deixou de ser um objetivo tecnológico abstrato e passou a constituir a própria linha mínima de sobrevivência do Estado. A recente crise no Oriente Médio ofereceu u

Crédito: Autorretratos

ma confirmação dramática disso. Durante os ataques, o Irã alegou ter sofrido uma sabotagem sistemática de sua infraestrutura de rede fabricada nos Estados Unidos, com soluções de empresas respeitadas como Cisco, Juniper Networks, Fortinet e outras deixando de operar na capacidade esperada. Apesar de impor um apagão nacional da internet dentro de suas próprias fronteiras, Teerã afirmou que agentes norte-americanos exploraram backdoors profundamente embutidas em hardwares críticos para desligar e reinicializar sistemas remotamente no auge do conflito. Tenha isso ocorrido por meio de botnets clandestinas ou de vulnerabilidades latentes de hardware, a implicação geopolítica é profundamente alarmante: depender de equipamentos norte-americanos equivale a instalar um interruptor de desligamento estrangeiro no próprio sistema nervoso nacional.

Quem ainda acredita na existência de uma tecnologia politicamente neutra: este é o momento de preparar-se para o desencanto. A instrumentalização militar de hardware comercial é percebida de forma crescente como um risco de segurança intolerável tanto pelo Ocidente quanto pelo não-Ocidente. Trata-se de uma realidade tornada infinitamente mais urgente pela recente integração explícita do Pentágono com gigantes do Vale do Silício como SpaceX, OpenAI, Google, NVIDIA, Reflection AI, Microsoft e Amazon Web Services. Ao unir formalmente o aparato militar norte-americano aos arquitetos da infraestrutura digital global, os Estados Unidos praticamente apagaram a linha que separava as big techs privadas de seu complexo militar-industrial. Para o restante do mundo, isso soa como um convite à construção de fortalezas digitais próprias. E é precisamente aí que o próprio Ocidente talvez caminhe em direção a uma fragmentação digital, já que a questão em debate tornou-se tão relevante para países da Commonwealth e da Europa quanto para qualquer outro ator internacional.

Para organizações que tentam resistir à tomada hostil trumpista, isso vem se revelando um jogo perigoso. O exemplo da Anthropic, responsável pelo Claude – um dos LLMs mais bem recebidos do mundo – surge como uma fábula de advertência, já que a atual administração dos Estados Unidos exigiu que agências militares e civis deixassem de depender de seus produtos e os removessem de suas respectivas cadeias de suprimento. Ao mesmo tempo, isso oferece um raro vislumbre da profundidade da cisão ideológica entre os atores das big techs sob o governo do presidente Donald Trump. Enquanto o CEO da Anthropic, Dario Amodei, afirma que o uso pretendido pelo Pentágono para o arsenal digital pode “minar, em vez de defender, valores democráticos”, o CEO da Palantir Technologies, Alex Karp, denuncia abertamente praticamente tudo aquilo que a esquerda progressista representou nas últimas décadas, tratando a inteligência artificial como uma nova fronteira da Realpolitik fria. O manifesto de 22 pontos da Palantir funciona como um espelho da percepção trumpista do mundo e, para a maioria global, promete um cenário particularmente desagradável: não se surpreenda se um dia você acordar em um país rotulado como “disfuncional e regressivo”. Muitos já despertaram para isso – e, se algo pode ser dito a respeito, é que se trata de uma experiência profundamente sóbria.

Seja como for, a realidade da guerra cibernética contemporânea é tal que os espaços civil e militar tornaram-se, na prática, uma única e mesma coisa. A operação “Roaring Lion”, conduzida por Israel contra o Irã em 28 de fevereiro de 2026, serviu como uma demonstração perturbadora de que o espaço online civil, outrora difuso e movido por entusiastas, converteu-se em arena de guerra – não de direitos humanos. À medida que Israel executava ataques híbridos contra o Irã, até mesmo as infraestruturas civis mais banais foram transformadas em armas. Tome-se o caso do BadeSaba Calendar, um popular aplicativo de orações com mais de cinco milhões de downloads. Em um violento ataque psicológico, seu sistema de notificações push foi sequestrado por atores estrangeiros para transmitir ordens coordenadas de deserção exatamente no momento em que os ataques cinéticos começaram. Simultaneamente, a inteligência israelense passou a cooptar explicitamente as redes sociais civis, lançando um canal no Telegram em língua persa para solicitar inteligência coletiva em tempo real de cidadãos iranianos, sob a aparência de apoio à sua luta.

Para muitos, a operação “Roaring Lion” será lembrada por ter incluído o maior ataque cibernético já conduzido até hoje. Enquanto caças e mísseis de cruzeiro atravessavam o espaço aéreo iraniano, uma ofensiva digital paralela buscava desmantelar a República Islâmica por dentro, em uma síntese sem precedentes entre guerra cinética e guerra cibernética.

Por meio de uma combinação sofisticada de interferência eletrônica, ataques massivos de DDoS e profundas intrusões em rede, o Irã foi lançado em um apagão deliberadamente arquitetado. A conectividade da internet colapsou para meros 4%, rompendo os elos de comando e controle. Infraestruturas críticas falharam por completo, enquanto redes de aviação, sistemas energéticos e a logística de transporte em grandes cidades como Teerã e Isfahan mergulhavam na escuridão. Ao mesmo tempo, veículos oficiais de mídia estatal foram incapacitados ou sequestrados para transmitir mensagens subversivas voltadas à supressão psicológica. Isso demonstra que nada no ambiente online está fora dos limites, e que o direito internacional passou a se parecer cada vez mais com a lei das ruas: segurança reduzida à força bruta.

Por fim, apesar da gravidade dos danos sofridos, o Irã conseguiu se recuperar e montar uma contraofensiva eficaz, cujas repercussões ainda serão compreendidas nos anos vindouros. Para o restante do mundo, essa experiência possui enorme valor como um chamado direto: para sobreviver neste tempo turbulento, um Estado soberano precisa deter controle exclusivo sobre seus próprios sistemas de tomada de decisão e coordenação militar, sobre suas infraestruturas de transporte e navegação, redes energéticas, plataformas domésticas de comunicação e mídia, soluções locais de pagamento e fintech – e, preferencialmente, armas nucleares como garantia incontestável de dissuasão. Curiosamente, há ainda outra condição crucial para a soberania estatal que se revelou ao longo da década de 2020: a capacidade de possuir uma rede probatória independente capaz de sustentar suas ações no plano físico enquanto forças adversárias fazem de tudo para censurar, ocultar e desacreditar fatos. Ao que tudo indica, este é precisamente o caso da atual retórica dos Estados Unidos em relação à sua troca de ataques com o Irã, já que dados oficiais norte-americanos anteriormente compartilhados com o público teriam subestimado severamente os danos e perdas efetivamente sofridos durante o conflito.

É isso, antes de qualquer outra coisa, que impulsiona a corrida pela soberania digital: a criação de bolhas informacionais hermeticamente seladas. Muito provavelmente, é precisamente esse processo que contribuirá para o aumento da intensidade das atividades maliciosas no espaço online, elevando gradualmente a guerra cibernética à condição de uma verdadeira destruição de bunkers digitais. O paradoxo da realidade, contudo, permanece o mesmo: quanto mais alguém tenta ignorá-la, com mais violência ela bate à porta.

As linhas borradas entre cooperação e coerção

O tema em discussão também parece ter revelado que, apesar de glorificar sua relação com a OTAN na Estratégia Nacional de Defesa de 2026, os Estados Unidos caminham rapidamente de um parceiro difícil para um parceiro tóxico. Não há qualquer espírito de conciliação à vista; aliados percebidos prefeririam escapar, ainda que rastejando, de uma interdependência assimétrica inconveniente com uma potência norte-americana cada vez mais obstinada.

A Alemanha oferece o estudo de caso definitivo. À medida que os Estados Unidos aceleram a retirada de forças militares da Europa em meio a profundas fraturas ideológicas sobre o Oriente Médio, os alicerces do chamado “Ocidente Coletivo” tornam-se visivelmente instáveis, enquanto até mesmo o futuro da OTAN passa a parecer cada vez menos certo. Em resposta, Berlim começou a traçar linhas rígidas na areia digital. A Bundeswehr retirou-se recentemente da integração do software de inteligência artificial da Palantir Technologies, citando explicitamente o risco inaceitável de conceder a uma contratada de defesa norte-americana profundamente integrada acesso às suas bases de dados militares nacionais. Esse desacoplamento demonstra que a dependência de infraestrutura estrangeira, mesmo oriunda de aliados tradicionais, passou também a ser vista como uma vulnerabilidade crítica. A rápida erosão da confiança transatlântica empurra a União Europeia em direção à localização de suas arquiteturas de defesa e inteligência. Trata-se de um processo profundamente doloroso. Embora a Europa tradicionalmente tenha demonstrado agilidade para regular o nível do software nas tecnologias digitais, ela continua enfrentando enormes dificuldades no nível material da infraestrutura tecnológica.

Por exemplo, após a União Europeia optar por multar a X e investigar seus serviços por disseminação de conteúdo ilegal, Elon Musk respondeu com um movimento destinado a contornar completamente o nível do software. A parceria entre a Starlink e a Deutsche Telekom, somada à expansão geral da Starlink pela Europa – especialmente com a implantação de satélites V2 equipados com tecnologia Mobile Satellite Service (MSS) – permite que smartphones convencionais conectem-se diretamente à constelação da Starlink em dez Estados europeus. Na prática, isso estabelece uma espécie de dossel material não regulado sobre a Europa, permanecendo imune ao alcance legislativo de Bruxelas.

Embora Elon Musk e Donald Trump frequentemente entrem em choque em questões domésticas, essa manobra orbital alinha-se perfeitamente à agenda de política externa trumpista. Como destacado pela Político, a administração norte-americana posicionou-se explicitamente como uma cruzada contra a “censura online na Europa”. Juntos ou separados, a administração Trump e as big techs norte-americanas mantêm os olhos voltados para a exportação de seu próprio quadro ideológico ao exterior, independentemente das jurisdições locais.

Para formuladores de políticas europeus, isso já não se parece com uma promessa de parceria em nome da segurança coletiva. Trata-se de um ato explícito de coerção digital, que oferece muito pouco à Europa enquanto deliberadamente corrói sua autonomia regulatória.

Onde há vontade, há um caminho

Apesar dos severos inconvenientes e da ansiedade associada ao salto rumo ao desconhecido, a fragmentação constitui uma etapa necessária da recomposição. Em geral, quando se fala em fragmentação, as pessoas tendem a pensar naquilo que será perdido, raramente naquilo que poderá nascer a partir dela. A turbulência do presente abre espaço para um nível sem precedentes de possibilidades futuras. No fim, a melhor estratégia para superar a incerteza é adentrar na tempestade.

Adentrar também significa reconhecer que a mudança sempre prevalecerá sobre o hábito. Enquanto as capitais ocidentais lamentam a difusão de uma ordem global outrora mantida sob seus pés, a maioria global não espera por permissão para avançar. Nações ao redor do mundo deslocam-se em direção à construção de infraestruturas paralelas, transformando risco geopolítico em catalisador de uma profunda inovação sistêmica.

O campo de batalha mais imediato é a soberania financeira. Ao redor do mundo, países aceleram a construção de mecanismos destinados a contornar os protocolos financeiros ocidentais, reconhecendo que a dependência de redes dominadas pelo dólar constitui uma vulnerabilidade fatal. Na Ásia, China e a ASEAN continuam acelerando estruturas de liquidação em moedas locais, contornando metodicamente o sistema SWIFT para proteger seus vastos corredores comerciais. Na América Latina, a rede de pagamentos instantâneos brasileira, o Pix, evoluiu de uma ferramenta doméstica para um potencial instrumento geopolítico. O sucesso do Pix desorganizou de tal maneira os canais financeiros tradicionais que Washington lançou investigações comerciais formais contra o sistema, enxergando sua capacidade de contornar monopólios norte-americanos de crédito como uma ameaça direta à hegemonia financeira dos Estados Unidos. Outra prova de conceito encontra-se em Moscou. O sistema de pagamentos doméstico MIR atuou como um amortecedor sistêmico crítico, permitindo que a economia interna da Rússia sobrevivesse ao mais abrangente pacote de sanções ocidentais já imposto até hoje.

Naturalmente, a busca por soberania vai muito além dos registros digitais financeiros. De maneira ainda mais crucial, ela está remodelando as arquiteturas globais de segurança. Potências não ocidentais aceleram ativamente sua cooperação militar, abandonando de forma permanente a expectativa de proteção norte-americana. Primeiro, o cenário geopolítico sofreu uma mudança fundamental no início de 2026, quando Irã, China e Rússia assinaram um pacto estratégico trilateral, alinhando explicitamente suas estratégias militares e diplomáticas contra a dominância militar ocidental. Aliados tradicionais dos Estados Unidos passaram a diversificar de maneira cada vez mais ousada seus portfólios de segurança. A realização das operações navais conjuntas “Blue Sword-2025” pela Arábia Saudita em parceria com a China demonstra um movimento deliberado dos Estados do Golfo em testar interoperabilidade militar com potências não ocidentais. Terceiro, o recente conflito no Oriente Médio demonstrou que essa cooperação já possui elevado grau operacional. Durante os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel, inteligência satelital russa e sistemas de radar chineses sustentaram diretamente a infraestrutura militar iraniana, provando que coalizões não ocidentais são capazes de amortecer, em tempo real, operações cinéticas conduzidas pelo Ocidente.

Hegemonias ascendem e declinam. Contudo, potências que tentam impor sua influência sem manter canais abertos de autorreflexão, diálogo e deliberação tendem a cair com maior velocidade. O cálculo estratégico aqui é impiedoso, operando precisamente segundo a mecânica daquilo que cientistas políticos definem como feedback negativo: um fenômeno estrutural em que uma mudança extrema de política inevitavelmente gera a própria contramobilização que acabará por desmontá-la. Essa dinâmica também pode ser observada através do “modelo termostático” das preferências públicas. Assim como uma população doméstica tende a mover-se na direção oposta a políticas estatais percebidas como excessivas, buscando restaurar equilíbrio social, a arena internacional atualmente demonstra uma reação termostática de enorme escala – e, sob a fórmula presente, ela tende apenas a tornar-se cada vez mais intensa.

Em suas tentativas de conter o desenvolvimento soberano por meio de sanções unilaterais, coerção digital e demonstrações militares de força, a condução geopolítica ao estilo Donald Trump parece encaminhar-se para uma verdadeira insolação política em escala mundial. Em resposta, parcelas do próprio Ocidente e a maior parte do mundo não ocidental tenderão a mover-se cada vez mais agressivamente na direção oposta, buscando recalibrar o equilíbrio sistêmico. Quanto mais o Ocidente coletivo – ou fragmentado – pressionar por conformidade total, mais resiliente e coordenada tende a tornar-se a resistência global. Toda expectativa de submissão acelera a criação de alternativas imunes à dependência externa.

Nesse atrito, o conjunto do Ocidente prepara-se para um acerto de contas demográfico e geopolítico inevitável: mais cedo ou mais tarde, terá de reconhecer que constitui uma minoria global. O quanto diferentes atores ocidentais estarão dispostos a suportar de dano sistêmico antes de aceitarem respeitar as fronteiras físicas e digitais de seus vizinhos acabará por definir o próximo capítulo da história humana.

 

Aleksandr Dashichev é Diretor de Operações Internacionais do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+. Pesquisador e doutorando em Ciência Política no Instituto da Europa da Academia Russa de Ciências. Mestre em Estudos de Língua e Cultura pela Universidade Estatal de Moscou e Mestre pelo Trinity College Dublin. Especialista em soberania tecnológica e análise geopolítica.

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