DANDO CORPO ÀS ESTATÍSTICAS

Cláudia Jordão fala sobre o livro ‘Elas, mulheres’, que investiga as diversas formas de violência contra a mulher

O livro encerra a tetralogia iniciada com Mulheres que me habitamEu Tu Elas e Elas, meninas 

Em 2026, os níveis de violência contra a mulher tornaram-se alarmantes: segundo dados da pesquisa DataSenado, da Rede Observatórios da Segurança e Ministério da Justiça, 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar em 2025; além disso, no primeiro trimestre de 2026, 399 mulheres foram vítimas de feminicídio. Neste contexto de níveis críticos de violência e misoginia, obras que abordam o assunto se mostram cada vez mais atuais. 

Neste ano, Claudia Jordão lançou Elas, mulheres (2026, 88 págs.), o último volume da tetralogia iniciada com Mulheres que me habitamEu Tu Elas e Elas, meninas. Publicado pela Alpharrabio Edições com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) por meio do ProAC, a obra reúne contos que investigam as diversas formas de violência que atravessam a vida das mulheres e propõem a personificação das estatísticas, trazendo os números para o território concreto das vivências. Para a construção dela, Claudia utilizou-se de cinco anos de escuta e pesquisa, tanto no ambiente rural quanto urbano, assim fomentando a complexidade narrativa. O livro reúne mentoria de Claudia Chigres, leitura crítica de Jarid Arraes e orelha assinada pela socióloga Simone Brito.  

Foto: Divulgação

Claudia Jordão é paulista, escritora, pesquisadora e mediadora de processos de escrita. Em consonância à escrita de seus livros, ela coordena projetos e oficinas de escrita voltados à escrita e à formação de leitoras e escritoras. 

Confira abaixo uma entrevista com a autora: 

Sua tetralogia trata de um assunto que está muito em voga atualmente com o crescimento de casos de violência contra a mulher. Por que você escolheu tratar deste assunto?  

Escrevo sobre a violência doméstica e sexual porque esse tema não é externo a mim – ele atravessa a minha história, o corpo das mulheres da minha família e a vida de muitas mulheres com quem me encontrei ao longo dos anos. A origem desse percurso está em uma memória: a história da minha bisavó, assassinada pelo marido. Ao investigar essa narrativa, percebi que não se tratava de um caso isolado, mas de uma violência sistemática que atravessava gerações. Foi a partir daí que nasceu Mulheres que me habitam, meu primeiro livro, que revela essa cartografia íntima da violência que atravessaram minha família. 

Nos livros Elas, meninas e Elas, mulheres, amplio esse gesto: transformo essas experiências em literatura, recusando a espetacularização da dor, mas também recusando o silêncio. Meu trabalho busca deslocar a violência do campo abstrato dos números para o território das vidas concretas – onde cada história tem corpo, memória e voz. 

Escrevo sobre esses temas porque o silêncio também é uma forma de violência. E porque acredito na escrita como ferramenta de ruptura, de elaboração e de resistência. 

Mais do que denunciar, meu trabalho é um convite: para que outras mulheres também possam se reconhecer, se narrar e, sobretudo, sair do silêncio. 

Então, essa série veio de uma experiência familiar e se expandiu para a observação de uma dor coletiva por meio da escuta. Você poderia contar mais sobre os bastidores da pesquisa para a escrita do Elas, mulheres? 

A escrita de Elas, mulheres nasce de um percurso de escuta, memória e investigação que atravessa mais de cinco anos. Durante o processo de escrita dos livros anteriores da tetralogia, passei a escutar outras mulheres – em conversas, oficinas, rodas de diálogo e também por meio de uma pesquisa online que reuniu cerca de 150 respostas e dezenas de relatos. Essas narrativas foram fundamentais para compreender que essa violência não é episódica, mas estrutural, e atravessa diferentes contextos sociais, culturais e geográficos. Muitas dessas histórias chegaram até mim ao longo dos anos, e o livro foi sendo construído aos poucos, em diálogo constante com essa escuta. 

Ao longo dessa pesquisa, fui nomeando aquilo que, durante muito tempo, não tinha nome para mim. A escrita me colocou diante da minha própria história e me obrigou a encarar experiências que estavam soterradas pelo medo, pela culpa e pela vergonha. Foi um processo de elaboração, mas também de reconhecimento: entender que aquilo que eu vivi não era um caso isolado, mas parte de uma lógica maior, histórica e social. 

Um dos objetivos da obra e da teatrologia em geral é dar corpo às estatísticas de violência contra a mulher. Quais ferramentas você utilizou para humanizá-las?  

O livro convida o leitor a perceber que, por trás de cada número, existe uma história, um corpo, uma memória. Ao aproximar essas narrativas, há um convite ao reconhecimento – não como algo distante, mas como algo que atravessa a vida social de forma muito concreta. 

Nesse sentido, houve uma preocupação central com a linguagem. Vivemos em um contexto em que as redes sociais, os jornais e a mídia noticiam diariamente casos de violência doméstica e feminicídio, muitas vezes de forma repetitiva e, por vezes, dessensibilizadora. A literatura, então, aparece como uma possibilidade de reabrir esse diálogo: não para competir com a informação, mas para aprofundá-la. Por fim, o livro aponta para a importância da escuta e da fala. Romper o silêncio é um gesto central – não apenas como denúncia, mas como possibilidade de elaboração, de reconstrução e de existência. Nesse sentido, a escrita aparece como espaço de resistência, mas também de criação de novos modos de narrar a si e ao mundo. 

Mais do que oferecer respostas, Elas, mulheres propõe perguntas – e talvez essa seja sua principal força: tensionar aquilo que muitas vezes preferimos não ver. 

Na sua visão, em que medida a literatura pode contribuir para o enfrentamento deste estigma social? 

Acredito que a literatura ajuda no conhecimento e letramento sobre esse estigma. Autoras como Silvia Federici e Maya Angelou tiveram um papel decisivo no meu processo de consciência. Elas me ofereceram linguagem, pensamento e estrutura para compreender as violências que eu mesma não conseguia nomear. A partir desse encontro, entendi que a literatura pode ser uma ferramenta de revelação – um espaço onde o que foi silenciado ganha forma, sentido e possibilidade de compartilhamento. 

Foi então que percebi que a pesquisa da tetralogia poderia operar nesse mesmo lugar: não apenas como produção literária, mas como ferramenta de conexão. Um gesto de aproximação com outras mulheres que, como eu, também carregavam histórias atravessadas por essas violências, muitas vezes ainda sem nome. 

Qual foi o maior desafio no processo de construir essas narrativas humanizadas? Como você o superou? 

O desafio foi construir uma escrita que não reproduzisse a lógica da espetacularização da dor, mas que criasse outras formas de aproximação. Ao transitar entre o real e o ficcional, o livro busca construir pontes – oferecendo ao leitor uma experiência sensível, capaz de revelar, pela linguagem poética, dimensões que a notícia não alcança. A poesia, nesse contexto, não suaviza a violência, mas amplia a escuta e possibilita outros modos de enfrentamento.   

Como sua obra enfrenta a tendência de silenciamento sobre violências perpetuadas na sociedade por décadas?  Qual transformação você espera que ela possa gerar? 

Ao longo do processo de escrita, fui entendendo que não estava lidando apenas com as ruínas deixadas por experiências traumáticas, mas também com as máscaras que as encobrem – mecanismos de naturalização que fazem com que a violência seja absorvida como parte da vida, como algo “normal”, cotidiano, inevitável. A escrita passou a ser, então, uma forma de tensionar essas máscaras, de desestabilizar o que foi aprendido como silêncio. Se houve transformação, ela está justamente nesse movimento: sair de um lugar de isolamento para um campo de diálogo. Entender que a minha história é singular, mas não é solitária. E que a escrita – quando compartilhada – pode abrir caminhos para que outras mulheres também reconheçam, nomeiem e, sobretudo, reelaborem suas próprias experiências. 

 

Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais. 

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