LITERATURA

Resenha de Deitar-se com sede na alquimia dos pornógrafos, de Arthur Ledine

O livro é pensado como projeto, construindo, do início ao fim, um eu-lírico e suas vivências

Recém-publicado pela novíssima Tutaméia Edições, Deitar-se com sede na alquimia dos pornógrafos é o quarto livro do poeta e estudante de Tradução Arthur Ledine. O livro se destaca pelo tom visceral, quase dramatúrgico, e por uma poética que é metódica, preocupando-se principalmente com a forma e com o ritmo do texto.

A obra é dividida em quatro partes, sendo duas delas uma divisão do título. Primeiro, temos o “Prelúdio”, depois, “Deitar-se com sede”, em seguida, “Na alquimia dos pornógrafos”, e, por fim, o “Poslúdio”. Trata-se de um livro que é pensado como projeto, construindo, do início ao fim, um eu-lírico e suas vivências – particularmente, no que tange à experiências que atravessam corpos homossexuais em lugares marginalizados, como o interior.

Foto: Divulgação

A poesia de Ledine chama a atenção por mesclar uma poética de alto nível formal à elementos do cotidiano, por exemplo, linhas de ônibus – como no trecho “nesta quase beira de rio, / quente e cheia de mosquitos / / que o 901 não alcança / / que o 910 não alcança / / que o 902 tampouco alcança/ – porque os bons eram os tempos do 501” (p. 21).

O poeta constrói uma voz amarga, tecendo um personagem que parece real. A visceralidade da poesia de Arthur Ledine adquire um tom teatral, podendo Deitar-se com sede na alquimia dos pornógrafos ser imaginado como uma peça de teatro. Esta percepção se fortalece ao nos

depararmos com a complexidade do eu-lírico, que se desdobra não apenas em situações claras de opressão e exclusão, mas também ao amor e ao prazer, como no no poema “Amar” (p. 31) cuja última estrofe diz “Uma mancha de lixo se / forma no oceano – / pacífico, como você. / Não o oceano, o lixo. / Como você”.

Portanto, trata-se de um livro rico, que chama a atenção pela sua complexidade. Tanto na forma como no conteúdo, a obra se propõe enquanto uma obra ácida e provocativa, que procura leitores dispostos a encararem o incômodo.

 

Laura Redfern Navarro (2000) é poeta, jornalista e pesquisadora.

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