Vencedor do Prêmio Resistência 2025 fala sobre “Racismo, Constante como o Tempo”, obra que aborda o racismo como estrutura viva da sociedade
O escritor e violoncelista Carlos Márcio percorre quatro séculos de história para questionar a ideia de que o tempo é capaz de apagar as marcas da escravidão
Vencedor do Prêmio Resistência 2025, o livro Racismo, Constante como o Tempo marca a estreia literária de Carlos Márcio, violoncelista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Misturando poesia, crônica e ensaio, a obra propõe uma reflexão contundente sobre a permanência do racismo na sociedade brasileira, defendendo que a discriminação racial não é uma herança distante do passado, mas uma estrutura que se reinventa e continua moldando o presente.
Dividido em três frentes, o livro reúne poemas que retratam episódios cotidianos de racismo, crônicas que expõem microagressões naturalizadas e um ensaio que conecta acontecimentos históricos separados por séculos para evidenciar a continuidade das violências contra a população negra. Ao longo das páginas, Carlos Márcio confronta o revisionismo histórico, questiona homenagens a figuras ligadas à escravidão e transforma experiências pessoais em uma reflexão coletiva sobre memória, identidade e resistência.
Carlos Márcio é natural de Sabará (MG). Conheceu o violoncelo aos 17 anos por meio de um projeto social na Sociedade Musical Santa Cecília, graduando-se no instrumento e tornando-se mestre em Performance Musical pela UFMG. Em 2025, aos 38 anos, Carlos Márcio venceu o Prêmio Resistência com Racismo, Constante como o Tempo, estreando já laureado e oferecendo ao público uma obra em que a música e a palavra se encontram para romper o silêncio de séculos.
Quando a avó, Maria, adoeceu com Alzheimer, Carlos sentiu a urgência de registrar sua história e o livro está entre os vencedores do Concurso Frauta de Barro 2025/2026, promovido pela Editora Valer. A obra premiada, Ave, Maria, foi selecionada na categoria Crônica e passa a integrar o grupo de títulos escolhidos pela editora nesta edição do prêmio. A conquista no Frauta de Barro representa não apenas um reconhecimento editorial, mas a entrada da obra no circuito de publicação de uma das casas mais importantes da região Norte.
Para conhecer mais sobre o processo de criação do livro e as reflexões do autor sobre racismo, arte e memória, leia a entrevista completa com Carlos Márcio a seguir.

O racismo estrutural, a memória, a violência histórica contra pessoas negras, a naturalização da escravidão em obras de arte e o resgate de uma identidade negra são alguns dos temas abordados em Racismo, Constante como o Tempo. Como se deu a escolha destes temas?
A escrita é uma cicatriz do racismo talhada fora de mim. O nome do livro é um suicídio algorítmico. Colocar a palavra “racismo” no título de um livro hoje é, automaticamente, limitar o alcance de qualquer postagem sobre a obra. Eu tinha consciência disso.
Mas vivo o cotidiano de quem é acompanhado por seguranças em supermercados sem motivo algum ou confundido com um segurança nas cerimônias de casamento onde trabalho como violoncelista, apenas porque estou de terno. E veja: meu instrumento tem um metro e meio de comprimento. Ainda assim, o olhar social naturalizou a ideia de que a minha profissão não tem a cor da minha pele.
Há 13 anos integro, de maneira efetiva, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Há 23 estou no meio da música de concerto que é historicamente branco. Ao entrar na UFMG em 2006 na graduação, pude notar que não havia diversidade na faculdade e posso afirmar que esta realidade mudou com projetos sociais como o que eu comecei, em 2003. Aos 18 anos você não percebe o racismo estrutural porque não há tempo para isso, sobretudo com o despreparo técnico pela forma tardia de como começamos a estudar nossos instrumentos no Brasil. Hoje aos 38, posso afirmar que mesmo com a diversidade advinda deste período nos espaços da música de concerto não há um letramento racial real entre os gestores culturais em cargos de chefia, obviamente, majoritariamente branco. Por mais bem intencionados que sejam, não há cognição para perceber, por exemplo, que a ópera tema do ensaio poético do livro trazia a paz social de Gilberto Freyre em Casa-Grande e Senzala.
Construir uma ópera sobre um bandeirante escravagista em pleno século XXI, trazendo elementos da organização social dos negros, representadas nos reinados e nos congados nas comunidades das igrejas do Rosário que protegiam e davam dignidade aos escravizados como o elemento que apaziguaria alguma “polêmica” sobre a o tom de homenagem à um escravocrata, demonstra esta falta de cognição para representar a dignidade do povo negro escravizado neste país.
Mais que o resgate da identidade negra, este livro procura mostrar como a sociedade ainda não admitiu que a Escravidão foi o maior crime contra a humanidade já cometido. Relegá-la a um fato histórico ou como folclore (o que faz a ópera) comprova esta tese.
Como foi o processo de escrita de Racismo, Constante como o Tempo?
A vida de uma pessoa negra em uma sociedade que ainda não admitiu a Escravidão como um crime contra a humanidade é repleta de feridas que sangram por debaixo de nossa pele. Quando conheci Carlos Drummond de Andrade, primeiro me reconheci como mineiro. Vi minha infância, a casa da minha Vó Maria e as particularidades que quem é de Minas entende naqueles versos. Em Drummond vi que a poesia poderia conter o cotidiano. E o Racismo, constante como o tempo marcam o meu.
O que este livro representa na sua trajetória?
O livro mostra como a oportunidade para pessoas que jamais teriam contato com as artes mudam completamente a forma de pensar de quem é tocado por qualquer uma delas. Ao conhecer o violoncelo, aos 16 anos, até então um “objeto” que nunca tinha visto de perto, não me encantei. Digo que “o violoncelo me escolheu” porque minha mãe foi quem insistiu para que eu procurasse a inscrição no projeto da Sociedade Musical Santa Cecília de Sabará.
Ao começar a participar de masterclasses, sobretudo com o professor Márcio Carneiro, brasileiro finalista do concurso Tchaikovsky e que lecionou na Alemanha por 4 décadas, finalmente entendi o que era o estudo. Sempre fui um bom aluno, mas nunca tinha realmente estudado para ter boas notas. Era aquele aluno de véspera com uma boa memória. E por isso, matemática nunca foi meu forte. Com a profundidade do conhecimento técnico necessário para fazer uma nota no violoncelo que encantasse o ouvinte, veio também a compreensão do que era estudar.
Desta “epifania” como estudante vieram o conhecimento e a loucura artística necessária para criar. Bach, Beethoven, Brahms, Tchaikovsky, Villa-Lobos foram parte de uma expansão de minha sensibilidade e criatividade. A partir deles, os grandes nomes da música brasileira da Tropicália, Elis e o inexplicável Milton Nascimento junto do Clube da Esquina trouxeram as palavras que sentiam. Machado de Assis, Millor, Dias Gomes e Conceição Evaristo compõe o aprofundar neste universo.
Os textos de Racismo, constante como o tempo permeiam estes 38 anos de um aprendizado sobre a minha própria identidade acelerada pelo contato com a arte. Eu digo que no violoncelo, eu não posso me deixar levar pelas emoções. Quem tem que senti-las é o espectador. É um fazer artístico caudaloso, mas calculado. A escrita é um fazer artístico onde posso transbordar meus sentimentos naquelas palavras que trarão a voz do leitor para aquela vivência.
Este livro é resultado das feridas de todos os meus antepassados que não trago em mim. É como a casca de um machucado quando começa a se curar, mas com uma diferença. As cicatrizes do corpo, a gente não consegue se lembrar da dor sentida no momento daquela marca. As cicatrizes do racismo, a cada “Não foi bem assim”, a cada “Mas não se pode falar mais nada!”, elas doem. Lembram-nos do momento exato da nossa dor. Pulsam a negação da existência do racismo estrutural em nossa sociedade.
Escrever esta obra foi perceber o racismo por um universo onde ele é velado, silenciado e transformado em adorno folclórico quando se busca algum tipo de “inclusão”.
Racismo, Constante como o tempo apresenta diferentes gêneros, como poesia, crônica e ensaio. Como se deu a escolha deste formato?
O racismo estrutural apresenta diferentes gêneros. Por trás dos textos há vidas negras transformadas em protocolos quando ditos de maneira completa em um telejornal após mais um “engano”. Poesia, crônica e ensaios tornam-se argumentos de um mosaico histórico que busca a mudança do olhar e do ouvido do leitor para o eco da falta de dignidade que vivemos no Brasil e no mundo. A estrutura do país que a Escravidão ensinou ao Brasil tem muitas faces. Assim como este livro.
Como você construiu essa arquitetura narrativa e qual o papel de cada gênero na obra?
Utilizo o cotidiano como uma para revelar as camadas de violência e racismo estrutural que sustentam a nossa sociedade. Parto do cotidiano e de formas de comunicação diretas como as novelas, para expor a violência histórica e seus reflexos no presente, buscando aguçar no leitor o olhar para a visão de mundo que ele está naturalizando sem perceber, como no poema Anjo Mau, 1976. Como disse anteriormente, Drummond me mostrou que escrever sobre o cotidiano, ensina. Poesias com a materialidade de notícias reais, como O negro da semana, Chega, meu pai trazem ao leitor a sensação de que aquela poesia existe no seu mundo. “Partituras” traz o meu caso de abordagem policial que remete ao que eu disse anteriormente do olhar social que impede que a minha pele seja de um violoncelista de uma orquestra cinquentenária.
As poesias que falam sobre identidade procuram fazer com que o leitor olhe em uma mesa de bar para o seu amigo e perceba o que ele não diz sobre o racismo porque, como digo na Nota do Autor: “Os textos deste livro dizem o que a conversa social não comporta: custaria tempo demais e energia que já falta. Estamos cansados.” Por fim, o ensaio Devoção, memória e racismo estrutural traz meu sentimento ao tocar na ópera. Eu me sentia construindo uma igreja barroca. Todos viram, eu escrevi.
Como surgiu sua relação com a escrita e quais foram os primeiros incentivos que recebeu para seguir esse caminho?
Nos agradecimentos do livro, falo de minha professora da sexta série, Regina. Com a obrigação de ler alguns livros, deixava para depois até que uma pneumonia me abateu. Fiquei 13 dias no hospital. E não existia celular ou tablets. Ainda bem. Naqueles dias, achei no mínimo, intrigante o Jogo do Contente, de Poliana. Li os dois livros. Mas penso que algo que realmente me fez ver a leitura foi a minha antipatia e ojeriza por Bentinho. O personagem mais insuportável da história do mundo. O que torna o autor, algo muito mais que genial. Machado era o Pelé da escrita antes mesmo do Edson nascer.
Aos 14 anos, escrevi um “livro”, uma história que não me lembro direito mais. Ela me disse que eu tinha potencial para ser escritor. Mas como uma mulher negra, já me alertou: “Nesta área, ou em qualquer outra Carlos, nós precisamos ser Machado de Assis e não apenas termos um texto interessante. Dedique-se mais.” Não sei mais para onde foi o caderno com aquela história. Ainda lembro sobre o que era e dali já vinha um profundo sentimento de escrever coisas que realmente estavam em meu íntimo. Comecei a escrever de maneira mais real com 23 ou 25 anos.
Quais são as suas principais influências artísticas e literárias?
Como violoncelista, como citei anteriormente, o professor Márcio Carneiro era uma referência do que era realmente estudar um instrumento. Meu professor na faculdade, Cláudio Urgel, me mostrou o que é ter uma metodologia, me organizar, ser metódico para atingir meus objetivos como instrumentista. Minhas referências como performances são Mstislav Rostropovitch (o Deus do violoncelo), Antônio Meneses e Pierre Fournier.
Como escritor, peço licença a Drummond, Millor, Luís Fernando Veríssimo, Sérgio Vaz e Conceição Evaristo para dizer de sua influência sobre mim. O vulto de Machado de Assis está em qualquer um de nós, mas não temos coragem de sequer citá-lo porque sua genialidade é de outra dimensão. É como Pelé.
O que os leitores podem esperar dos seus próximos projetos de escrita?
Meu projeto atual é Racismo, constante como o tempo, e estou realizando os Concertos-Lançamento em diferentes cidades. Estou aberto a apresentar o projeto a todos que possam se interessar. Escrevi uma música homônima ao livro, e esses eventos são roteirizados e dirigidos por mim. Já os realizamos em Sabará e Belo Horizonte, e o leitor pode conhecê-los em meu Instagram, @carlosmarciocello.
Procuro, sobretudo, reiterar nossa dignidade por meio da partilha da minha história, especialmente em um momento em que a visão distorcida de que o racismo não existe vem crescendo de forma preocupante. Nos concertos, trago também as guardas do Congo para evidenciar o acinte que foi sua mimetização folclórica na ópera Devoção.
Além disso, em cada cidade programada, encontro um novo motivo para “escreviver”, diante da repetição dos apagamentos de tudo o que significaram as vidas escravizadas neste país. As conexões entre o livro – sobretudo o texto “Devoção, memória, racismo estrutural: caminhos da escuta” – e as cidades já programadas (Divinópolis, Ouro Preto, Ouro Branco e Diamantina) demonstram como Racismo, constante como o tempo permanece como uma realidade.
Em abril deste ano, venci outro pleito literário: O Prêmio Frauta de Barro, organizado pela editora VALER. O nome do livro é Ave, Maria que ficou em 4º lugar entre os 12 selecionados e será lançado pelo selo. Naquelas páginas vocês lerão sobre a minha luta para ser o último retalho da memória na luz daqueles olhos verdes em tardes transformadas em versos.
Tenho outro livro de poesias também finalizado e estou trabalhando em um romance que já está encaminhado para seu final. Além de um livro de contos escrito.
Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

