MÚSICA

O centenário de um eterno chamado Miles Davis!

Miles radicalizara a qualquer custo, sua busca por constituir e trilhar o próprio caminho, tendo o Jazz como sua forma de se postar perante o mundo. De fazer circular, tomar forma e sentido público o seu existir perante o mundo, de acordo com as suas regras e sentidos

Dentre as várias celebrações e homenagens ao centenário de nascimento de Miles Davis (1926-1991), como aquele que nunca se absteve de suas faltas e erros, por vezes atingindo os rastejos da vida em seu processo de constante reconstrução e mutação enquanto um ser em busca por sua plena e total humanidade! Para isso atingindo os patamares mais altos do jazz enquanto expressão artística libertária e revolucionária.

Destacamos a sua performance no Festival de Wight, em 29 de agosto de 1970, enquanto representação simbólica da magnitude da arte de Miles Davis. Ela não foi apenas um rompante de uma trajetória de excelência musical, mas sim o seu manifesto de um existir e ser, artístico e humanístico, para além de qualquer medida de rotulação e padrões que lhe impusessem!

É a sua negritude em movimento e radical, ao mesmo tempo poética e, formada por camadas e mais camadas de sutilezas profundas e tão delicadas, que se mascaravam em meio a tons e notas eletrificadas e por vezes em desacordo, quase dissonantes, mas que dava ao público, músicas de uma alma profunda, de plena comunhão e louvor a vida! Reafirmando os laços de irmandade que nos unem enquanto raça humana o que em plena efervescência da “Guerra do Vietnã”, do “Movimento Black Power”, “Lutas anticoloniais na África e Ásia”, a partir das vivências e experiências de um homem negro, em eterno desterro e desconforto, desde antes de seu nascimento nos Estados Unidos da América nos anos 1920. Tendo consciência de que o sonho americano não lhe era acessível e muito menos permitido. De que o sucesso por vezes é nada mais do que a confirmação de todo um fracasso existencial. E que a vida nos reserva muito mais do que a mediocridade alienatória que nos nubla a verve questionadora e nos castra em potência transformadora!

Miles radicalizara a qualquer custo, sua busca por constituir e trilhar o próprio caminho, tendo o Jazz como sua forma de se postar perante o mundo. De fazer circular, tomar forma e sentido público o seu existir perante o mundo, de acordo com as suas regras e sentidos. Não abstendo de se machucar, contradizer e se expor em toda a sua vulnerabilidade. Ou até mesmo de se perder no meio desse caminho…

Para entre idas e vindas, acertos e desacertos, se transformar e finalmente se constituir em um outro e melhor ser humano, consciente de suas imperfeiçoes e limitações, mas optando por não se prender por elas. Sempre buscando o mais, o além, aquilo que nunca será alcançado, mas que sempre deve ser almejado. A plenitude do segredo da vida… Para compartilhará com o mundo! Inserido e por vezes em consonância com os ares políticos a sua volta, mas nunca limitados ou restringidos por eles. Sempre vanguarda de novos tempos, nunca refém de velhas ordens.

Naquele dia primaveril britânico, diante de uma plateia estimada de 600.000 pessoas, Miles Davis com o seu hepteto eletrificado, iria dar ao mundo uma das mais corajosas execuções artísticas da história da música. Representando na jam – dividida em seis partes musicais – por ele intitulada de Call it anything, de pouco mais de 38 minutos, as melhores intenções e objetivos dos finados anos 1960, mas sem deixar de pontuar e destacar as suas contradições e mazelas. Além de anunciar os tempos incertos que já se faziam sentir! Demarcando-o enquanto um tanto como um retratista, quanto um semeador de eras. O homem unidimensional que transitava por entre passado e presente, realinhava os cursos da História ao revisitar o passado, redefinindo o presente, mas já habitando o futuro.

O artista que irrompia igual o vento ao palco, era não mais – “apenas” – o mestre do cool jazz ou o rei, e talvez o mais radical defensor – do bebop. O que temos ali é Davis reconstruído enquanto figura humana, aberto e em contato com a sua raiva que sempre lhe acompanhou, de ter consciência de ser um subcidadão em sua própria terra e de pôr isso nunca ter o reconhecimento artístico devido. Sempre infantilizado em suas intenções por devida remuneração financeira por seus álbuns, shows e turnês. Sempre condicionado a uma condição de exotismo ou de periculosidade por suas convicções políticas e artísticas. Nunca enxergado e respeitado enquanto um ser humano em sua plenitude, em sua totalidade. Sempre rotulado, subestimado e discriminado por sua condição de homem negro.

O que muito explica o seu acreditar e compreender em fazer o jazz se dar e se desenvolver para além de mera música descartável e de rápido consumo. Mas sim, como o testemunho vivo e ao mesmo tempo histórico e contemporâneo da diáspora africana na parte norte continental do chamado Novo Mundo. Um artista ciente da magnitude de um legado filosófico-religioso-histórico-político ao qual tinha noção de ser um de seus maiores e mais importantes artífices!

Músico em sintonia e incorporando ao seu arcabouço jazzístico, elementos de funk, rock, música africana, música eletrônica e psicodelia ao seu jazz. Hendrix, Sly Stone, Hermeto Paschoal, Milton Nascimento. Luta pelos direitos civis. Poesia, sexo e sensualidade. Amor, ódio e raiva. Tudo sendo amalgamado, ao seu modo de ser, de se ver, de pensar e inferir ao mundo!

Processo esse de desenvolvimento enquanto ser humano e músico, que teve como pilar e maior referencial a sua companheira Betty Davis (1944-2022) – modelo norte-americana e posteriormente cantora de soul e funk, além de ativista feminista negra – que lhe desafiou a romper as regras comportamentais que por vezes de maneira inconsciente o fazia agir sempre dentro dos limites impostos pelo “Sistema”. Em que sua aura de revoltado e irascível, de imprevisível e temperamental, sempre se fazia por atestar a sua incapacidade emocional e psicológica. Estereótipos que sempre eram imputados aos negros. Em especial quando estes não se coadunavam em seguir os determinismos sociais e seus papeis de subalternidade em meios as relações sociais de poder – inclusive no meio artístico libertário do jazz – da sociedade estadunidense.

Além da mudança no visual de Miles, representando um estilo mais urbano e jovial, como afirmação de uma negritude contemporânea. Inclusive com o uso de um penteado black power, até mesmo no sentido de manifestar seu rompimento com a estilística e a imagem dele enquanto expoente de uma elegância e imagem elitizada do cool jazz. Um artista em sua plenitude técnica e inovadora, liberando ao mundo uma nova vertente de jazz, movimento musical que já se fazia perceptível nos álbuns In a silent way (1969) e Filles de Kilimanjaro (1968) – o qual possuí como capa uma foto de Betty Davis, e uma faixa Mademoiselle Mabry (Miss Mabry), dedicada a ela – mas que toma forma, sentido e som definitivo a partir gravação de Bitches brew (1970) e dessa apresentação na ilha de Wight. O jazz fusion, ou jazz eletrificado, dali em diante se espalharia pelo mundo. Com efeitos, diálogos e influências por várias esferas artísticas, como noutras vertentes do jazz, rock, funk, soul, música popular brasileira, reggae, rap, cinema, literatura, teatro e esportes. Um momento determinante e divisível para a carreira de Miles Davis, e que iria ressignificar a sua herança e legado na cultura mundial, com efeitos sentidos até hoje.

Tal qual um arauto de novos tempos acompanhado por acólitos fiéis e totalmente comprometidos em acompanhar a empreitada de seu líder, o conjunto musical se esgueira por linhas melódicas transgressoras, reconstruídas e remodeladas, improvisadas, fraccionadas, redivididas, diminuídas ou ampliadas… Reescritas aos anseios e caminhos sonoros indicados por Davis, em que cada intérprete possuía salvo conduto para executar as músicas de acordo com o sentimento ao que fosse tomado. Música em seu sentido mais livre e sem regras, em sua plenitude e beleza. Poesia em forma de som, política em forma de música, vida reverenciada em coletividade e comunhão!

Em que cada músico tinha seu papel específico em torno de Davis e para o funcionar orgânico da banda. Chic Corea (1941-2021) e Keith Jarret como os arquitetos do som criados por eles, tendo Corea, a partir de seu piano elétrico, os recortes funky e blues do grupo, enquanto Jarret, com seu órgão elétrico, as harmonias e improvisações jazzísticas, com dialogando, se intercalando e se completando durante cada peça apresentada no show. Tendo como base rítmica e sonora para a liberdade de improviso do coletivo, as execuções da bateria de Jack DeJohnette (1942-2025) e do contrabaixo de Dave Holland, que direcionavam os caminhos dos ritmos a serem navegados ou (re)inventados por eles e seus companheiros. Desde o blues enquanto base referencial de tudo, passando pelo rock, funk, free jazz, samba, batucada, jams e tudo mais que ainda se fizesse criar, o trabalho da dupla se faz indissociável do novo momento da carreira de Miles Davis. E finalmente com o saxofonista Gary Bartz e o percussionista Airto Moreira, como os aquarelistas da banda. Em que Bartz, além de tecer cores em cada base e improviso, realiza com maestria os duetos de sopro com Miles, além de dar vazão a peças que se tornariam referenciais para as gerações vindouras, a cada momento seu de solista. Enquanto Moreira estabelecia camadas e mais camadas de sonoridades ainda não tão usuais ao mundo do jazz a época. Instrumentos de percussão dos mais variados (cuíca, apitos, chocalhos, cabaças, pandeiro), alternado entre duelar com os solos de Davis ou demarcar e acentuar as improvisações do hepteto. Estabelecendo as linhas de conexão do aprouch blues-jazz dos demais músicos, com o universo sonoro brasileiro como o samba, o batuque, o forró… Em muito contribuindo para a personalização desse amalgama sonoro que constituiu a gênese transformadora da nova direção musical de Miles Davis.

Um panteão de nomes que se tornariam seminais na história da música popular mundial, que circundavam em torno de Davis, lançando o nível de improvisação característica ao jazz para outro patamar. Estabelecendo uma sintonia com o público instantânea e estrondosa…

O que se evidencia desde os primeiros segundos de “Directions”, em que o som do trompete de Davis adornado pela cuíca de Airto Moreira, lança o público a um novo mundo, guiados por jazz, samba e muita improvisação, com os músicos totalmente entrosados, tocando em torno de seu líder, que já executa fraseados caracterizados por dedilhados rápidos e curtos, pequenos solos ariscos, motivados por um trompete, que devido a problemas na embocadura, se apresenta longe de seu agrado. Mas que não lhe impediria de executar suas peças com exuberância e precisão. Com a composição ganhando novas camadas com o solo de sax soprano de Gary Bartz, lançando-a para novos improvisos que culminam com o solo de Miles Davis tornando pública a sua total liberdade criativa e sua total ruptura com suas faces jazzísticas anteriores. Não em sentido de negação ou silenciamento sobre elas, em vista de que elas serão evocadas ao longo de toda apresentação, mas de não se deixar limitar ou ser definido por elas. É a afirmação pública do processo de metamorfose musical de Miles Davis.

Ao mesmo tempo que se dá enquanto um anúncio do que ainda virá e se fará ampliar a partir da segunda música, Bitches Brew, em que o blues se faz irromper através das marcações e riffs das teclas de Corea e Jarret, com as percussões de Moreira, ritmados pelo baixo de Holland e a bateria de DeJohnette, para o desfile do solo do trompete. Onipresente e cristalino em meio ao furor sonoro reinante, como uma lembrança do lugar de onde o jazz veio, do que ele foi e poderia vir a ser. Abrindo as sequências de solos dos demais músicos, a cada compasso executado afinando mais a cumplicidade entre banda e público, com Miles cada vez mais livre e exuberante a cada fraseado.

Crédito: Stephanie/Flickr

Dessa forma, como se fosse um único fluxo, as músicas vão se seguindo sem intervalo, não havendo espaços para pausas ou interrupções. Para que o processo de comunhão e criatividade não fosse quebrado, daí sucede-se It’s About That, um exemplo dos melhores exemplos do que se buscou qualificar como o jazz eletrificado de Miles Davis. Uma base de referência blues, swingada com elementos funk, com improvisos de free jazz, em que o combo sonoro toca como um só ser, uma só entidade, em torno do trabalho de sopro de Miles, seguindo sua acentuação na execução das notas.

E eis que, inesperadamente,  um solo de trompete se irrompe, estabelecendo um momento de calmaria, é Sanctuary como um elemento de frescor em meio a uma tempestade. Um espaço de ludicidade que é transfigurado pela implosão de um jorro sonoro alto, pesado e balanceado, em que se revela Spanish Key, presente na grande jam, a partir do baixo e bateria sustentando toda canção, com as arquiteturas de Chick Corea e Keith Jarret, tendo o trompete de Davis flutuando por entre as notas, agindo como anfitrião ao trabalho de solo, com notas de blues de Gary Bartz. Seguido pelo dedilhar dos solos de piano e órgão, se alternando e dialogando em perfeita harmonia, até o momento em que abrem caminho, fazendo a preparação para a reentrada do trompete de Miles que irá levar a música em um crescendo sem volta, adornada pelas batidas percussivas de DeJohnette e Moreira, sendo tudo regulado pelo baixo de Holland.

A banda em sua plenitude, fazendo revelar-se um esboço de sorriso em Miles Davis, em meio a mais uma necessidade de domar o seu instrumento, que lhe desafiou por toda apresentação. Uma situação que em outros tempos poderia abrir possibilidades para situações outras, mas que ali é mais uma oportunidade de improvisar e tingir novas cores e possibilidades a música.

Com Miles sereno e senhor de si e de tudo ao seu redor, estático em meio ao palco, ornado pelo céu de uma noite clara de verão, criando um de seus mais belos e cristalinos solos. Artesão, construindo nota a nota, modelando a seu bel prazer sua peça sonora. A execução de The Theme, se dá como o final do mosaico musical erigido e regido por ele perante centenas de milhares de pessoas. Um manifesto sonoro sobre novos tempos executado, tal qual um blues dilacerado e repaginado. Como se nada mais precisa-se ser tocado, entoa as últimas melodias, lapida os últimos tons, os diminuindo sutilmente, delicadamente, até que nada mais que o absoluto silêncio seja emitido pelo seu instrumento.

Erguendo triunfalmente o trompete, como se fosse um troféu, felicitando o público e saindo do palco, colocando em seus ombros sua bolsa, tal qual um artífice ciente de que nada mais precisava ser feito ou fosse necessário… Coroando a sua apresentação saindo do palco ao som da banda que desenvolve os aprontos finais do show, com cada membro encerrando seu improviso final, capitaneados pelas marcações e toques de bateria de DeJohnette, que sorrindo direciona seus companheiros ao final da jam, com todos deixando o palco. Ficando ao final, vazando o som da reverberação do piano elétrico de Corea, soando ao infinito, solitário perante a ovação do público. Como se aquela apresentação se torna-se dali em diante um looping em eterna repetição.

Um show eterno, para toda a eternidade!

Oferecendo ao público a percepção de estar adiante de um artista profundamente consciente de sua condição de humanidade e, portanto, senhor de complexas e infinitas contradições. De medos e anseios, falhas e frustações, vividos e intensos como os mais belos blues. Mas ciente de seu lugar no mundo, de construtor e artífice de novas possibilidades e futuros. Em paz e orgulhoso com a sua negritude, sempre em busca de novos desafios!

Show este que registrou para todo o sempre, o momento em que um artista atinge a perfeição em se tornar a própria música que toca! Registrando o mais belo e absoluto desequilíbrio entre perfeição e improviso, ao qual Miles Davis sempre almejou atingir!

Para dali em diante, cada vez mais se tornando um ser inquietante, sempre buscando não se acomodar e nunca mais se deixar rotular ou se deixar controlar por ninguém! Se tornando infinito e cada vez maior a cada nota oriunda de seu trompete!

Vida longa e feliz centenário, ao eterno, Miles Davis!

 

Christian Ribeiro é doutor em Sociologia. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/UNICAMP.

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