MÊS DO ORGULHO

Autor Vítor Kappel fala sobre tragicomédia queer “Sob o Céu de Isaías”

Publicada pela editora Patuá, obra traz protagonista LGBTQIAPN+ em ambiente opressor durante o seu último ano escolar

Em seu romance de estreia, Sob o Céu de Isaías, o escritor fluminense Vítor Kappel apresenta uma trama LGBTQIAPN+ envolvente, capaz de se aprofundar em temas como sexualidade, descobertas, amadurecimento e resistência, com sensibilidade e, ao mesmo tempo, leveza. A obra foi publicada pela Editora Patuá, com texto de orelha da autora Carol Bensimon e texto de quarta capa assinado pela escritora Helena Terra. A obra foi contemplada pelo Prêmio Talentos Helvético-Brasileiros e ficou em 2º lugar no Tato Literário – Prêmio com.tato de Literatura Independente.

A narrativa constrói um retrato tragicômico sobre o amadurecimento de um estudante que vivencia todas as turbulências do último ano da escola, enquanto sonha em deixar a cidade natal e iniciar uma vida nova. No percurso, envolve-se com uma rede criminosa e desenvolve um vínculo afetivo transformador com Bernardo, seu colega de classe.

Vítor Kappel nasceu em Nova Friburgo (RJ), em 1986, e hoje vive no Rio de Janeiro (RJ). É graduado em Engenharia de Produção pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Gestão Empresarial com Foco em Inovação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Trabalhou na última década com apoio a projetos audiovisuais, pesquisa e inovação no país. Mais recentemente, passou a se dedicar a escrever obras de ficção.

Ao longo da entrevista a seguir, o autor abordou temas como os conflitos centrais do livro, a construção dos personagens e a ambientação da narrativa.

Junho é o Mês do Orgulho. De que forma o universo LGBTQIAPN+ aparece em Sob o Céu de Isaías?

Ao longo dos seus dilemas sobre sexualidade, Isaías, esse herói contemporâneo, encara o resumo de um país recheado de mazelas e preconceitos, de modo que há um paralelismo poderoso em seu ritual de passagem para a fase adulta, ao ter que enfrentar tudo isso com certa graça e tenacidade. O livro aborda um puritanismo que assola o país e que se manifesta impondo códigos de conduta em nome de valores “tradicionais”, sendo o colégio mais um desses espaços. Esse modelo se infiltra no discurso público, na educação, política e na cultura, provocando estigmatização e culpa. Equilibrar esses pontos não era trivial uma vez que eu não queria pesar a mão na narrativa, mas alguns componentes ficam no subtexto e no pano de fundo, de modo que há uma sensação de uma luta de Davi versus Golias, sendo Golias um sistema maior, muitas vezes ardiloso e oculto.

Como foi construído o vínculo afetivo entre Isaías e Bernardo?

A dinâmica entre os dois surge como um vínculo afetivo transformador, com impacto profundo. Isaías consegue ser um ímã para confusões que funcionam para desafiá-lo, seja no conflito com figuras de autoridade, seja na necessidade e busca de pertencimento. Em função da bolha em que vive, Isaías no fundo, no fundo tem uma dificuldade central, que é lidar com a sexualidade, e de certo modo isso ecoa inúmeras vozes que simplesmente são apagadas por um motivo inaceitável: amar. Bernardo o atiça e mostra a possibilidade de construir a sua própria história, sem se curvar aos moldes sociais impostos.

Foto: Divulgação

A ambientação interiorana desempenha um papel importante no romance. Como surgiu a escolha por esse cenário?

Muito da ambientação reforça o grau contraditório entre a sensação de liberdade e o caráter de constrição de cidades menores no país. No caso, cresci no interior do Rio, mas creio que todos nós conhecemos e tivemos experiências em lugares aparentemente tranquilos, mas com atmosferas um tanto opressoras. Todo dia no noticiário ouvimos inúmeras histórias de sofrimentos e conflitos num cenário velado, muitas vezes perturbador, de aparências enganadoras. Não houve uma cidade específica como inspiração porque esse é um retrato de um país. No fundo, eu teria que fazer o exercício contrário: achar um município que não oferecesse os elementos apresentados.

Em quais aspectos o protagonista do livro se aproxima de você? Em quais se distancia?

Se eu dissesse que o Isaías não tem nada de mim, estaria mentindo um pouquinho. Mas também não consigo dizer que sou eu no papel. Ele está mais para um reflexo de espelho de parque de diversões: uma imagem comicamente distorcida. E mais trágica também. A verdade é que Isaías é muito mais esperto e interessante – a vida real tem menos graça. Eu não fui colocado tanto à prova quanto ele.

Como surgiu a ideia de utilizar personagens adolescentes na narrativa?

Costumo dizer que a busca por independência é complexa e profundamente tragicômica na medida em que exige também se questionar sem muita garantia de que gostaremos das respostas. A adolescência é isso. No caso então do livro, sempre tive em mente o desejo de não carregar em tintas melodramáticas, optando por uma comicidade melancólica. O maior desafio foi levar sofisticação e frescor na abordagem do tema central de emancipação e identidade, garantindo um olhar existencial, mas ainda assim oferecendo uma fluidez narrativa.

A obra também trabalha o suspense, ao apresentar tramas que envolvem uma organização criminosa. Como chegou a essa escolha? 

A escolha narrativa por uma rede criminosa foi criada a favor da movimentação da trama, mas também para garantir um olhar diferente na abordagem do tema central. Não só isso e não querendo dar spoilers, mas a existência da rede atravessa diretamente a vida de Isaías e funciona também como uma metáfora maior sobre sua própria prisão: suas amarras mentais, emocionais e até mesmo físicas. Como ele a enfrenta é o ponto central sobre o processo de amadurecimento, e isso passa por certa inventividade, resiliência e coragem.

Em quais aspectos a sua graduação em engenharia se relaciona com o seu trabalho literário?

Sob o Céu de Isaías talvez seja uma tentativa de organizar o caos que acredito que a mente de qualquer escritor tem, o que não deixa de ser de certa forma, ironicamente, um trabalho de engenharia. No fundo, arte e a engenharia derivam da mesma centelha: a necessidade de imaginar e materializar ideias. É um casamento improvável, mas divertido: equações que terminam em metáforas. Mas talvez o maior afastamento seja em relação ao mundo corporativo. Eu sentia falta de um espaço onde a lógica cedesse lugar à invenção. Oscar Wilde dizia que ‘toda arte é absolutamente inútil’, e essa inutilidade é, a meu ver, a sua maior força: escrever me deu a liberdade de criar sem precisar provar eficiência nenhuma.
Como foi o processo de publicação do livro?

Foi complexo por vários motivos, mas principalmente pela perda do meu primeiro editor, Leonardo Valente, que veio a falecer no processo. A ele dedico essa obra. Tive, contudo, a sorte de ter pessoas que abraçaram a minha escrita e sou eternamente grato por isso, incluindo meu editor atual, Eduardo Lacerda da Patuá, além de escritoras que admiro profundamente. Quando li O Clube dos Jardineiros de Fumaça, da Carol Bensimon, por exemplo, fiquei emocionado. Na minha opinião, é um dos melhores livros da literatura contemporânea, uma obra-prima. E Helena Terra faz milagres com as palavras, não por acaso o seu último livro Os dias de sempre foi finalista do prêmio São Paulo de Literatura. As duas têm vozes marcantes e prosas irretocáveis, e para completar, opiniões honestas sobre o que leem. Então foi uma bênção tê-las na orelha e quarta capa.

Quais obras e artistas influenciaram diretamente o livro?

Há ecos de algumas referências como o Quarto de Giovanni, do James Baldwin, e As desventuras de Arthur Less, livro do Andrew Sean Greer; este último traz um pouco do tom leve de Sob o Céu de Isaías. O humor aparece como uma salvação. Mesmo na tragédia, ou até por conta dela, Isaías traz em seus ombros uma amostra dessa sagacidade. O protagonista diversas vezes se atrapalha, “tropeça”, mas é justamente no movimento cômico que surge a graça existencial. A prosa não nega o sofrimento de Isaías, mas o envolve num abraço leve, como quem diz: “sim, tudo é complicado – mas veja como é bonito tropeçar no meio do caminho”.

Como tem sido a recepção do romance?

Tem sido gratificante. Muitos têm visto esse personagem um tanto atrapalhado, mas genuinamente bondoso como inspiração para superar os obstáculos de forma criativa, e com surpreendente resiliência. Outros comentam sobre o tom agridoce da história, e um humor curioso que insiste em aparecer em meio à tensão, destacando uma reflexão sobre o medo de ser quem se é, a vergonha e a coragem. Acaba sendo uma terapia que se abre quando o leitor traz algum retorno.

 

Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.

Leia mais sobre o tema: