Um ensaio literário sobre o desejo em Rede de pescar ossos
Segundo romance de Martha Lopes parte da ficção para compor uma espécie de pesquisa literária sobre desejo, maternidade e relações sociais
“Séculos de civilização, educação e urbanização mental não têm serventia para a maternidade”, lemos em uma das passagens de Rede de pescar ossos, o segundo livro da escritora paulista Martha Lopes. A obra ficcional traz uma série de reflexões, alusões autobiográficas e referências teóricas e literárias para destrinchar a vida dos desejos e limitações de uma mulher que lida, entre outras coisas, com o fato de ser mãe.

No livro, a construção social do papel materno é desestabilizada para longe do senso comum. A autora reivindica também para tal função as ambiguidades inerentes a todo ser humano. E alterna descrições da vida doméstica da personagem com a redescoberta de vontades, a culpa, a relação com o pai da criança e a solidão, fazendo com que a maternidade emerja como território inacabado, a ser constantemente refeito.
A linguagem sintética e objetiva de Martha Lopes, que praticamente não nomeia os personagens (“a criança”, “o pai da criança” etc), conduz o leitor a um ritmo sem sobras, repleto de cenas límpidas e cotidianas, como as fotografias de família dos anos 90. Elas sintetizam uma vida não idealizada enquanto deixam vazar alguma coisa – a sensação de que um segredo, um não dito ou imprevisto está sempre à espreita.
As imagens e cenas literárias se desdobram em críticas e costuras associativas que fazem, por vezes, com que o romance ganhe ares de ensaio. Como no trecho: “Em Calibã e a bruxa, a historiadora italiana Silvia Federici sugere que a vida da mulher na Idade Média talvez fosse menos desoladora que na contemporaneidade. Antes que o capitalismo se instalasse, as mulheres viviam de forma coletiva, cuidando dos filhos umas das outras, da agricultura, da produção de alimentos e medicamentos. Mais importante do que isso, detinham conhecimento e poder: eram parteiras e curandeiras, praticavam abortos e ensinavam a anticoncepção, guardavam os saberes e os fazeres de nascimento e morte dos corpos femininos.”
A vida na sociedade capitalista, o corpo que se desestabiliza pelo desejo e pela culpa, as relações familiares e certa angústia marcam o romance. Tais temáticas poderão remeter o leitor de Rede de pescar ossos a obra da escritora Elena Ferrante, consagrada mundialmente por sua Tetralogia Napolitana e por tensionar desejo e culpa em publicações como A filha perdida, posteriormente adaptado para o cinema com direção de Maggie Gyllenhaal em 2021.
Enfim, Rede de pescar ossos traça com renovado fôlego literário temas urgentemente contemporâneos. E coloca sob perspectiva a vida de uma mulher que reconhece, a partir da mesma urgência, o corpo, a sociedade, o cuidado, o desejo e a estranheza de si.
Ana Luiza Rigueto é jornalista.

