“Ser autista está na forma como seguro o garfo. Por que não estaria na minha literatura?”
Vencedora do Prêmio LOBA 2025, Milena Martins Moura defende uma representação não didática da neurodivergência na poesia
A escrita acompanha Milena Martins Moura desde a infância no subúrbio do Rio de Janeiro, mas foi ao longo dos anos como poeta, pesquisadora, editora e tradutora que ela consolidou uma voz marcada pela experimentação formal e pela recusa de respostas fáceis. Semifinalista do Prêmio Jabuti 2024 e vencedora do Prêmio LOBA 2025, a autora lança agora o carro de apolo capotou no horizonte (Macabéa Edições), livro que transforma o próprio fazer literário em objeto de investigação.

Construída como um falso caderno de rascunhos, a obra explora os limites entre autobiografia e ficção, ao mesmo tempo em que incorpora experiências ligadas à neurodivergência, à infância, à dor e ao amadurecimento. Sem recorrer ao tom explicativo, Milena trata o autismo como parte inseparável de sua presença no mundo e, consequentemente, de sua literatura. Nesta conversa, a autora fala sobre origem, processo criativo, representação, memória e os projetos que prepara para os próximos anos.
Confira a entrevista completa com a autora:
Você começou a escrever em 1996, ainda criança. Como sua família acolheu essa vocação literária?
Eu tive um avô leitor e minha tia era alfabetizadora de crianças – me ensinou a ler muito cedo. A escrita foi quase uma consequência. Vinda de uma família muito pobre, a arte na minha vida, que sempre se mostrou uma necessidade, nem sempre pôde ser perseguida, fosse pelo preconceito de se acreditarem que isso não é coisa de pobre, fosse pela falta de recursos financeiros. Mas caneta e papel eu sempre tive.
Quanto tempo você levou para escrever o carro de apolo capotou no horizonte? O livro parece ter sido escrito de uma só vez, mas não foi?
Nada poderia estar mais longe da realidade. Comecei a escrevê-lo ao terminar O cordeiro e os pecados dividindo o pão, em meados de 2023, e apenas o fechei no início de 2025. Há nele poemas que datam de 2021 que não entraram no livro anterior. Editei-o minuciosamente em seus elementos verbais e gráficos. A ideia foi, desde o início, trabalhar o difícil da palavra, pensar seu caminho até o papel. O resultado é esse arremedo de caderno de rascunho que parece – e apenas parece – inacabado.
Se você pudesse resumir os temas centrais do livro em poucas palavras, quais seriam?
Acredito que os temas que mais me inquietam na época da escrita eram a infância, a experiência da neurodivergência, o processo de escrita, limites do autobiográfico e o labor poético.
Você diz que “nenhuma literatura pode fugir do sujeito que a redige”. Como o autismo atravessa sua escrita no dia a dia?
Ser autista está em todos os aspectos da minha vida. Influencia de maneira substancial aquilo que sou no mundo, uma vez que é ele a base neuroquímica com que reajo aos estímulos. Está na minha preferência de dirigir sozinha porque pessoas são imprevisíveis e superestimulantes. Está nos fones de ouvido que não posso deixar de colocar para sair de casa. Está na configuração de corrida silenciosa no Uber. Por que afinal não estaria na minha literatura? A questão é a forma como eu trabalho esse tema. Não me sinto obrigada a falar sobre ele didaticamente. Ele pode estar ali, se manifestando na minha forma de escrita, nos métodos, nas imagens, no vocabulário, mas não necessariamente ser acessado como tema.
O que motivou a escrita do livro? Houve um estopim?
Tudo o que defini acima foi estopim. A questão do processo de escrita é primordial para trabalhar esse livro, pois ele é pensado para parecer escrito de uma só vez. Mas a realidade é outra: editei-o minuciosamente, e ele foi também editado pela Priscila Branco e Bianca Monteiro Garcia já durante a produção editorial. A ideia, como eu disse, foi pensar o caminho da palavra até o papel, jogar para o leitor essa pulga atrás da orelha.
O que esse livro representa para você, entre todos os seus livros?
Esse livro foi uma oportunidade de criar para além da poesia. É meu livro mais inventivo não apenas por expandir as temáticas, mas pelos elementos gráficos, pelas imagens que são de minha própria autoria, as marcas da escrita nas bordas – como uma pessoa que rabisca enquanto cria – e também pela minha participação ativa na criação do projeto gráfico. Tudo, palavra e imagem, nesse livro é projeto com sentidos que se complementam.
Você tem livros novos já finalizados e acabou de ser traduzida para o tcheco, não é? O que podemos esperar de você daqui para frente?
Sim, tenho um romance e um livro de contos já finalizados – o romance, inclusive, foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura em 2025. Recentemente tive poemas traduzidos para o tcheco na revista Plav, numa edição sobre poesia brasileira escrita por mulheres. A edição contou com autoras como Adélia Prado e Ana Martins Marques. E estou também finalizando um novo livro de poemas.
Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora Orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.

