Em Na espera áspera, Neira Galvêz aborda hiperconectividade, precarização do trabalho e colapso emocional em poemas marcados por ironia e crítica social
Veriana Ribeiro
Em seu primeiro livro, Na espera áspera, o poeta Neira Galvêz constrói um retrato poético das angústias e contradições de uma sociedade marcada pelo capitalismo tardio. Publicada pela Kotter Editorial, a obra apresenta uma escrita crítica e provocadora sobre a precarização do trabalho, a crise da saúde mental contemporânea e a mercantilização da fé.
Foto: Divulgação
Neira também trabalha o excesso de telas e o colapso da saúde mental: a alienação digital aparece em poemas como “brain rot” e “diário noturno para os sociólogos do futuro”, expondo como certos hábitos nas redes sociais mascaram a insônia e o medo do amanhã. Apesar do niilismo, o livro não se encerra no desalento. Existe na obra a busca por um recomeço e por gestos de resistência em um mundo que se encontra em ruínas. Por isso, o autor brinca que seus poemas podem ser vistos como um pedido de socorro talvez inócuo para os humanos do futuro.
Nascido em 1994, em São Bernardo do Campo (SP), Neira Galvêz publica suas experiências poéticas desde 2017. Filho e neto de exilados políticos da ditadura de Pinochet, o autor constrói uma escrita que dialoga com memória, política e transformação social, transitando entre sua vivência no ABC Paulista e as tensões do mundo contemporâneo. Suas influências literárias passam por nomes como Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Alberto Pucheu e Claudia Roquette-Pinto, referências que contribuem para uma poesia que une inquietação existencial, crítica e experimentação formal.
Na espera áspera aborda temas como precarização do trabalho, capitalismo tardio e a crise da saúde mental contemporânea. O que te motivou a escrever sobre estas questões?
Escolhi estes temas por serem os temas que mais me angustiam nos nossos tempos. Me sinto como uma testemunha apática do final dos tempos, com a necessidade de comunicar isso, ainda que apenas como um pedido de socorro inócuo para os humanos do futuro.
Ainda estou em busca de entender o meu objetivo com a publicação de um livro de poesia destas temáticas no Brasil, em 2026. Por hora, acredito que seja para sanar uma necessidade de comunicação e de reafirmação dos meus pontos de vista. O livro contém uma mistura de poemas e trechos de rascunhos que acumulo desde 2014, quando comecei a escrever os primeiros poemas. Porém, a decisão de sentar para compilar o que se tornou o livro durou três meses de trabalho, entre releituras, ajustes e colagens dos meus escritos de arquivo.
Quais reflexões ou mensagens você espera que os leitores levem consigo após a leitura do livro?
A mensagem que pretendo transmitir é que, apesar de todas as coisas terríveis que relato e diagnostico, é preciso, de alguma forma, encontrar alguma forma de trabalhar nossa habilidade de ter e dar esperança.
O que Na espera áspera representa na sua trajetória como artista e pessoal?
Este livro representa uma consolidação da minha coragem em me apresentar como autor para o mundo, sustentando minhas críticas e opiniões, independente dos julgamentos que possam surgir como consequência. Uma carta de alforria da minha timidez infantil. O livro me transformou no sentido de me passar mais segurança para ser quem eu realmente sou, apesar do meu comportamento e personalidade mais gentil e respeitoso, há em mim muita indignação e crítica, que sempre ficou muito recrudescida.
O autor Neira Galvêz – Foto: Divulgação
Embora Na espera áspera seja seu primeiro livro, você já possui uma trajetória na música como compositor. De que forma essa experiência contribuiu para a construção da obra?
Nunca havia escrito um livro, porém escrevi dezenas de letras de música nos últimos anos, o que me ajudou a exercitar o trabalho com as palavras, sobretudo o de editar, apagar, sacrificar frases em prol do espaço e métrica, sem perder o objetivo e sentido.
Qual é a sua relação com a poesia e como essa aproximação influenciou a escolha do gênero para escrever Na espera áspera?
A poesia é um dos últimos espaços verdadeiramente livres que a humanidade preservou, sobretudo pela sua discrição e inexpressividade econômica. Ainda é possível dizer o que quer que se pretenda, ainda que fictício, ainda que constrangedor, ainda que violento, em um poema. A liberdade do gênero é o que me atraiu. Escrevo desde 2014, depois de ler o livro Em alguma parte alguma, de Ferreira Gullar.
Quais artistas e autores mais influenciaram sua formação criativa e como essas referências aparecem na construção de Na espera áspera?
Sou muito influenciado pela música e seus letristas, sobretudo os melhores exemplos em extinção do rock brasileiro, como Clemente Nascimento, Arnaldo Antunes, Renato Russo, Marcelo Nova; os rappers brasileiros da década de 2000, como Mano Brown, Rappin Hood, Mv Bill e BNegão, e sobretudo, Marcelo Yuka! No mundo literário as minhas maiores inspirações são Claudia Roquette-Pinto, Alberto Pucheu, Ferreira Gullar, Augusto de Campos e outros autores mais contemporâneos do Brasil.
Como você definiria o seu estilo de escrita e as escolhas formais que orientam os poemas do livro?
Meu estilo de escrita é caótico. Não sigo muito uma formatação rigorosa, no sentido de manter um padrão métrico, ou de estética bem definida. No livro há poemas metrificados, há versos livres, há falta de pontuação, pontuação excessiva. Tudo ao mesmo tempo agora! Tenho o privilégio de não ter uma escola de poesia predileta em detrimento de outras. O que despertou em você a vontade de escrever poemas e como foi sua trajetória com a escrita?
Escrevo poemas desde 2014, quando completei 20 anos. Apesar de escrever letras de canções, a poesia sempre esteve em uma prateleira que considerava distante da minha realidade e possibilidades. Foi após ter contato com Ferreira Gullar que percebi que começava a raciocinar de forma poética com muita naturalidade. E assim comecei a exercitar poemas, onde encontrei uma maneira única de dizer e descrever experiências humanas de uma forma que só poderiam acontecer no gênero.
Quais são os projetos criativos em que você está trabalhando atualmente?
Eu estou trabalhando em um álbum solo conceitual, que pretendo chamar de Língua morta. Trabalhando a indignação como uma espécie de língua em extinção nos nossos tempos. Além disso, venho tentando praticar um pouco de prosa.
Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.
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