A esquerda e a inteligência artificial
Já que treinaram os modelos de inteligência artificial com a experiência humana acumulada, os gigantes do setor deveriam transferir metade de seu capital para um fundo popular, propôs em junho o senador norte-americano Bernie Sanders. No entanto, essa ideia deixa uma questão em aberto: como seria um socialismo da IA que, para além do capital, transformasse essa tecnologia em capacidade coletiva?
Antigamente, os grandes momentos de emancipação nasciam sobre o calçamento ensanguentado das barricadas; hoje, eles despontam na atmosfera sombria dos estacionamentos de shopping centers. Em julho de 2024, na pequena cidade de Ormskirk, em Lancashire, na Inglaterra, a empresa ParkingEye aplicou uma multa questionável contra Loren Cole. Com a ajuda do ChatGPT, esse motorista de 37 anos contestou a penalidade, recusando-se a pagar as 60 libras esterlinas exigidas. Por fim, o tribunal decidiu a disputa em seu favor, concedendo-lhe uma indenização de 462 libras. Para Karl Marx, Lancashire era a terra do algodão. Foi ali que os trabalhadores, pela primeira vez, “depositaram” seu saber nas máquinas – para depois vê-lo retornar sob a forma de uma força estranha. Dois séculos depois, um modelo de inteligência artificial (IA) – isto é, uma máquina treinada com a inteligência acumulada da humanidade – permitiu, desta vez, que um homem arrancasse um pedaço de…

