EDITORIAL

A disputa pela água

Se a falta de água no estado de São Paulo já impõe medidas de contenção do consumo, o que pensar se o calor se elevar demasiadamente, aumentando a demanda por água nas cidades?

Existe um risco real de chegarmos ao momento das eleições com um calor atroz e falta de água no estado de São Paulo. Setembro e outubro podem ser os meses mais quentes de sua série histórica.

A Sabesp, companhia de saneamento privatizada em julho de 2024 pelo governador Tarcísio de Freitas, emitiu, agora em julho, seu alerta sobre escassez de água e diminuiu de 33 m3/segundo para 27 m3/segundo a oferta do Sistema Cantareira, uma redução de 18%. Isso porque os reservatórios do Sistema Cantareira ficaram abaixo de 40% do volume de água que podem abrigar. Hoje esse sistema conta com 37,84%[1] de seu volume total.

© Claudius

O Sistema Cantareira atende 8,1 milhões de pessoas. O corte de 6 m3/segundo equivale ao consumo de 1,7 milhão de pessoas.[2] Essa redução da oferta urbana, das 19h às 5h, impacta principalmente os bairros da periferia, justamente as populações mais vulneráveis. Implantada em agosto de 2025, essa redução da pressão já deixou de distribuir 172 bilhões de litros de água, um volume que pode abastecer 30 milhões de pessoas por um mês.[3] A Sabesp declara economizar água ao privar as populações dos bairros periféricos da água necessária para seu consumo. A cobertura das favelas e demais assentamentos informais é precária também porque a companhia privatizada quer passar a cobrar a água em todas as ligações, ignorando as condições sociais dos moradores.

Trata-se da redução noturna da pressão do sistema, que dificulta a chegada da água a áreas mais distantes e mais elevadas. Os únicos prejudicados até agora com a escassez são os mais pobres. Você chega do trabalho e não tem água para cozinhar, para tomar banho, para beber.

Segundo Anailson Santos Lima, líder comunitário do Jardim D’Abril, extremo oeste da capital, “quando chegam do trabalho, no começo da noite, as pessoas não conseguem tomar banho porque a água fica fraca e o chuveiro queima”.[4]

Integram o Sistema Cantareira os municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Osasco, Carapicuíba e São Caetano do Sul, além de partes de São Paulo, Guarulhos, Barueri, Taboão da Serra e Santo André.[5]

Segundo relatório da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) de 2024, o consumo doméstico de água no estado de São Paulo é de 10% a 15% do total; a indústria consome de 15% a 20%; o agronegócio, 70% (irrigação, de 50% a 60%; pecuária 9%).[6]

Num período de abundância, o desperdício tem sido tolerado. A água ainda hoje é tratada como um recurso natural inesgotável. Num período de escassez, que deve se tornar mais agudo com os efeitos do El Niño, passa a haver uma ferrenha disputa pelo acesso à água. O desperdício na irrigação é de 50% a 60% da água retirada dos rios.[7] Na verdade, não se sabe quanto o agronegócio retira de água dos rios; trata-se de uma estimativa, pois não há controle público sobre essa extração.

O crescimento do agronegócio torna-se uma ameaça para o abastecimento urbano. Uma pesquisa conduzida pela então doutoranda Amanda Amorim, realizada na Bacia Hidrográfica do Rio Pardo, identificou um aumento de cem vezes no consumo de água para irrigação nos últimos vinte anos.[8] Se a situação atual já impõe medidas de contenção do consumo, o que pensar se o calor se elevar demasiadamente, aumentando a demanda por água nas cidades?

É um processo em cadeia. A falta de água compromete a agricultura, especialmente as safras de soja, milho, cana-de-açúcar, laranja e café; compromete a pecuária, com a redução das pastagens e da água consumida pelo gado. A seca aumenta a ocorrência de incêndios florestais. O calor extremo ameaça a saúde de todos.

No caso do Rio Grade do Sul, maior produtor nacional de trigo, a Emater-RS estima uma quebra de 30% na safra deste ano. No Brasil como um todo, a quebra pode chegar a 26,8%, caindo de 8,12 milhões de toneladas em 2025 para 5,9 milhões agora. Outros cereais também sofrem com o clima, o que pode gerar escassez de alimentos e aumento dos preços. No caso do estado de São Paulo, que não é o único com esse problema, a falta de água compromete também o abastecimento das cidades, o consumo humano.

E aqui está a questão crucial: como limitar os gastos de água do agronegócio para garantir a água para o consumo humano?

Nessa situação extrema, sob o impacto do El Niño, são necessárias medidas imediatas para enfrentar a escassez de água. A atual e a futura. O desperdício de água na irrigação tem de acabar.

O volume de água desperdiçado no agronegócio seria mais que suficiente para enfrentar a escassez de água nas cidades – 93% dos empresários do agronegócio desperdiçam uma enorme quantidade de água na irrigação de suas culturas; apenas 7,4% manejam a irrigação sem desperdício.[9] A Secretaria do Meio Ambiente do estado de São Paulo, depois da privatização da Sabesp, criou a SP Águas, em setembro de 2024, para fiscalizar a captação de água dos rios. Contudo, não há ainda fiscalização.

Em 2025, o governo do estado de São Paulo lançou o Irriga+SP, que até agora beneficiou 8 mil hectares, dispendendo R$ 56 milhões em investimentos.[10] É muito pouco. A seca não tem prazo de tolerância. É corrigindo esse desperdício que poderemos enfrentar a escassez de água nas cidades.

É preciso criar um maior estímulo para que as empresas agropecuárias se mobilizem para evitar o desperdício na irrigação: uma lei que estabeleça um prazo para a implantação de novos sistemas de irrigação; apoio técnico para aplicar a adequada irrigação em terras com distintas configurações; linhas mais ativas de oferta de financiamento em condições vantajosas para estrita aplicação na irrigação. Essas iniciativas são responsabilidade do governo do estado de São Paulo.

Se os mecanismos institucionais foram criados – SP Águas e Irriga+SP –, é preciso que o governo do estado aja com presteza, oferecendo financiamento e apoio técnico, mas exigindo a curto prazo a adoção de novas tecnologias de irrigação. Afinal, sai mais barato prevenir do que remediar. O próprio agronegócio está ameaçado pela escassez de água. Segundo Caio Bacci, da consultoria Agrosmart, um bom planejamento e investimento tecnológico no sistema de irrigação permite uma produção 2,6 vezes maior e uma economia de 50% na irrigação.[11]

Outra responsabilidade desse governo é assegurar, como direito inalienável, a água como um bem comum aos moradores das cidades. As tubulações que levam a água aos domicílios urbanos não podem desperdiçar 30%. Aliás, a Sabesp havia se comprometido a reduzir em 2023 e 2024 os vazamentos na Região Metropolitana de São Paulo, mas isso não se verificou. A melhor forma de reorientar a estratégia da Sabesp para que atenda ao interesse comum, com as providências imediatas que a conjuntura exige, é sua desprivatização, seguindo o exemplo de muitas capitais em todo o mundo, que voltaram a ter o controle público sobre o serviço de saneamento, alegando incompatibilidade de interesses na gestão privada de equipamentos e serviços públicos.

 

[1] Na verdade, a diminuição da vazão foi oficializada porque a Sabesp, desde agosto de 2025, já vinha reduzindo a pressão no horário noturno.

[2] “IAS investiga aumento do consumo e perdas de água da Grande São Paulo em novo estudo”, Instituto Água e Saneamento, 9 jul. 2026.

[3] Clayton Castelani, “Periferia de São Paulo sente racionamento diário de água com redução da pressão”, Folha de S.Paulo, 23 jul. 2026.

[4] Clayton Castelani, op. cit.

[5] https://www.nivelaguasaopaulo.com/cantareira.

[6] Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO); Malena Stariolo e Pablo Nogueira, “São Paulo enfrenta desafio de assegurar água para abastecer consumidores, cidades e indústrias em meio a crescimento da irrigação voltada para produção agrícola”, Jornal da Unesp, 22 mar. 2023.

[7] “Você conhece as principais causas do desperdício na irrigação?”, Agrishow Digital, 11 jan. 2019.

[8] Amanda Trindade Amorim, “Diagnóstico e definição de áreas prioritárias à conservação e preservação ambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Novo, UGRHI-17, São Paulo”, Tese (Doutorado em Geografia), Unesp, 2022.

[9] “Você conhece as principais causas do desperdício na irrigação?”, op. cit.

[10] Novacana.com/notícias, 25 fev. 2026.

[11] “Você conhece as principais causas do desperdício na irrigação?”, op. cit.

 

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