A frágil soberania do agronegócio brasileiro e a alta conta geopolítica dos fósseis em nossa mesa
Ao expor a extrema dependência de insumos estrangeiros e rotas marítimas estranguladas, a crise atual demonstra a grande contradição do latifúndio agroexportador: a privatização dos lucros bilionários e a socialização do risco geopolítico junto ao Estado
O modelo hegemônico do agronegócio brasileiro, frequentemente exaltado como o grande motor da nossa economia, esconde uma contradição estrutural e uma profunda vulnerabilidade: a extrema dependência de pacotes químicos estrangeiros. Esse cenário de subordinação não constitui um fenômeno acidental, mas possui suas origens no advento da Revolução Verde na década de 1960, cuja introdução no país consolidou uma modernização conservadora, integrando de forma abrupta insumos químicos, sementes modificadas e maquinários ao campo sem, contudo, alterar a estrutura social e a concentração fundiária originárias.
Atualmente, o Brasil importa mais de 85% de todos os fertilizantes que consome. Essa subordinação transforma o setor em um eterno refém do mercado externo, a ponto de os fertilizantes chegarem a representar insustentáveis 46,7% dos custos totais de produção da safra de soja no estado do Mato Grosso. Longe de ser autossuficiente, o latifúndio agroexportador opera sob uma lógica que aprofunda a nossa perda de soberania nacional, exaurindo nossos solos e recursos hídricos para exportar matéria-prima bruta enquanto enriquece corporações químicas transnacionais e perpetua a transferência líquida de valor para o centro do capital.
Embora o país tenha ensaiado caminhos rumo à autonomia produtiva durante o Segundo Plano de Desenvolvimento Nacional, período em que os estímulos desenvolvimentistas estatais permitiram atingir a autossuficiência em fósforo e suprir 83,69% da demanda interna de nitrogênio, as escolhas políticas subsequentes optaram pela interdependência assimétrica das cadeias globais de valor. O enfraquecimento progressivo das políticas de fomento e a consolidação de distorções tributárias, como a instituição do Convênio 100, em 1997, que desonerou produtos importados e desestimulou os investimentos nacionais, desencadearam um severo processo de desindustrialização do setor.
Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a produção nacional de fertilizantes desabou 30% entre 2002 e 2022, movimento agravado pelo fechamento de plantas de nitrogenados e por uma retração de 48% na oferta de intermediários químicos essenciais entre 2012 e 2024. Essa desestruturação interna culminou em episódios recentes de desnacionalização de ativos estratégicos, a exemplo da venda da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados (UFN3) da Petrobras, no Mato Grosso do Sul, para o grupo russo Acron.
Essa fragilidade estrutural do campo brasileiro está intrinsecamente relacionada às instabilidades da geopolítica global, evidenciando as contradições no discurso de livre mercado adotado pela elite. Com o acirramento dos conflitos no Oriente Médio e as interrupções de importantes rotas marítimas como a do estreito de Ormuz, os preços globais de insumos dispararam, com matérias-primas essenciais como o enxofre registrando uma alta de mais de 820% entre janeiro de 2024 e abril de 2026. Como exemplo, a tonelada de enxofre, que orbitava entre USD 150 e 180, escalou recentemente para patamares próximos a USD 900 e 1.000, ao passo que os preços do fósforo romperam a barreira dos USD 800 por tonelada. Para piorar, potências como a Rússia e a China passaram a reter ou suspender suas exportações para priorizar seus mercados internos, e os Estados Unidos elevaram os fertilizantes ao status de minerais críticos e de segurança nacional.
Diante da ameaça aos seus lucros e do fechamento do cerco internacional, a elite agrária brasileira abandonou o discurso anti-Estado e correu para cobrar a máquina pública, exigindo que o Itamaraty realizasse uma varredura diplomática emergencial pelo mundo para salvar o plantio da sua próxima safra. A atual vulnerabilidade doméstica frente a esse processo especulativo global é potencializada pelo fato de o governo brasileiro ter abandonado gradativamente, a partir de 2016, a sua política ativa de estoques reguladores, deixando as estruturas estatais vazias e impotentes para estabilizar os preços internos em momentos de crise generalizada. Nesse contexto, fica claro que, sob o capitalismo dependente, os lucros bilionários são privatizados, mas a conta do risco geopolítico e da subordinação é cobrada do Estado. Essa dinâmica reflete perfeitamente o duplo movimento do capital agrário: repúdio à intervenção regulatória em momentos de bonança e socorro visceral ao fundo público nas conjunturas de crise.
Contudo, a crise de abastecimento dos fertilizantes é apenas a ponta do iceberg de um debate estrutural muito mais amplo e urgente que precisaremos desbravar a seguir: a teia que liga o modelo agrário à nossa dependência crônica da cadeia dos combustíveis fósseis e a necessidade de uma transição energética radical e justa. É fundamental pontuar que insumos como o enxofre são subprodutos diretos do refino de petróleo e que a própria produção de adubos nitrogenados depende do gás natural. Essa sobreposição nos leva obrigatoriamente às disputas climáticas que antecedem a COP 31 e ao papel contraditório do Brasil: um país com grande potencial em energias renováveis, mas que ainda baseia seu equilíbrio econômico na exploração fóssil e em um modelo agropecuário que avança sobre as florestas, sendo o grande motor nacional de emissões de gases de efeito estufa. Compreender como o pesado lobby dos países produtores de petróleo e do grande capital atua nas trincheiras diplomáticas para atrasar o fim da era fóssil será o nosso próximo passo para debater o futuro da nossa verdadeira soberania energética e também alimentar.

A geopolítica dos fertilizantes
À primeira vista, fertilizantes são insumos técnicos destinados a repor nitrogênio, fósforo e potássio nos solos. Sua produção e circulação, entretanto, dependem de uma geografia bastante desigual. Reservas minerais, plantas industriais e rotas de exportação estão concentradas em poucos países, fazendo com que decisões tomadas por governos estrangeiros atravessem toda a cadeia mundial de alimentos. Analisando os circuitos espaciais de produção, percebe-se que a modernização da agricultura brasileira está vulnerável a nós de comando logístico e produtivo sediados no exterior. Recentemente, relatórios da Organização Mundial do Comércio (OMC) expuseram a gravidade dessa vulnerabilidade em nações agroexportadoras como o Brasil, destacando que a normalização das cadeias de suprimento pode arrastar-se por meses mesmo diante de eventuais cessar-fogo regionais.
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a China lidera a produção mundial de amônia, rocha fosfática e enxofre, o que transforma suas decisões comerciais em uma variável importante para os mercados de nitrogenados e fosfatados. A Rússia ocupa posição ainda mais diversificada: está entre as maiores produtoras de amônia, é a segunda maior produtora de potássio e mantém participação relevante nas cadeias de fosfato e enxofre. No Golfo Pérsico, países como Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Irã e Omã formam um polo de ureia e amônia baseado na disponibilidade de gás natural barato, além de concentrarem parcela expressiva do enxofre comercializado por via marítima. Os Estados Unidos, por sua vez, estão entre os líderes em amônia, fosfato e enxofre, mas importam a maior parte do potássio que consomem.
A guerra na Ucrânia tornou mais visível a vulnerabilidade pela dependência de poucos países. No início do conflito, a Rússia respondia por cerca de um quinto da oferta mundial de fertilizantes. As dificuldades logísticas, os efeitos das sanções e a alta do preço do gás contribuíram para a forte elevação dos preços dos insumos em 2022. Desde então, a Rússia redirecionou parte das exportações para países como o Brasil e a Índia, enquanto a União Europeia adotou, em 2025, tarifas progressivas sobre fertilizantes nitrogenados russos e bielorrussos para reduzir sua dependência e as receitas de Moscou.
O conflito no Estreito de Ormuz entre Irã e Israel com os Estados Unidos, iniciado em fevereiro de 2026, expressou outra dimensão dessa dependência. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a região responde por 30% a 35% das exportações mundiais de ureia, enquanto cerca de 30% do comércio global de fertilizantes passa pelo estreito. O fechamento quase total da passagem reduziu os embarques, reteve cargas e pressionou os preços dos fertilizantes e da energia.
O Memorando de Entendimento assinado entre Irã e Estados Unidos, assinado em 17 de junho, permitiu a recuperação de 640 mil toneladas de enxofre e 427 mil toneladas de ureia. No entanto, essa abertura não se manteve. Com a retomada das hostilidades entre Estados Unidos e Irã nas últimas semanas, dados de rastreamento da Kpler e da Bloomberg mostraram que o número de navios que entravam no Golfo para buscar fertilizantes, entre 20 e 40 por semana antes do conflito, caiu para aproximadamente cinco em julho.
Essa disrupção logística e o subsequente desabastecimento de enxofre provocaram um desabamento na produção global de adubos fosfatados. O impacto corporativo fez com que gigantes multinacionais do setor, como a norte-americana Mosaic, reduzissem severamente suas operações de fosfato tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, face ao comprometimento generalizado de suas margens financeiras. Em paralelo, o grupo marroquino OCP, líder mundial na exportação de fosfatos, diminuiu o ritmo de suas plantas industriais e antecipou paradas programadas de manutenção técnica, enquanto o governo chinês optou por suspender a exportação de produtos fosfatados estratégicos até pelo menos agosto de 2026 para salvaguardar o suprimento doméstico de suas lavouras.
A crise demonstra como uma rota pode permanecer geograficamente aberta e, ainda assim, tornar-se comercialmente inacessível. O risco de ataques eleva seguros e fretes e reduz a frota disponível, impedindo que cargas já produzidas cheguem aos compradores. Segundo analistas, as restrições em Ormuz eram predominantemente logísticas e financeiras, e não produtivas.
Mesmo assim, o impacto chegou rapidamente aos preços: no primeiro trimestre de 2026, o índice de fertilizantes do Banco Mundial subiu mais de 12%, alcançando em março o maior nível desde 2022. O acirramento dessa espiral inflacionária é intensificado pelo avanço do protecionismo alimentar no Sul-Global, evidenciado por decisões unilaterais como a da Índia, que abriu concorrências internacionais massivas para assegurar 1,6 milhão de toneladas de adubos fosfatados (incluindo volumes recordes de fosfato diamônico), após já ter paralisado remessas externas de trigo e arroz para blindar seu mercado consumidor interno.
Esses choques combinados de escassez e custos impõem uma severa ameaça à segurança alimentar global. Diagnósticos elaborados pela Associação Internacional da Indústria de Fertilizantes (IFA) e pela FAO demonstram que a redução na dosagem ou o adiamento da aplicação de macronutrientes indispensáveis – com destaque para o fósforo, vital para o desenvolvimento radicular e o metabolismo energético vegetal – penalizam diretamente o crescimento das plantas, a produtividade final e a qualidade biológica dos grãos. Monitoramentos da consultoria ICIS apontam que o risco desse cenário consolida uma divisão geopolítica perversa: enquanto economias centrais ricas absorvem a alta inflacionária e sustentam suas compras preventivas, produtores rurais de regiões mais vulneráveis, como a África Subsaariana e o Sudeste Asiático, são sumariamente excluídos do mercado pelo fator preço e começam a cortar a aplicação de nutrientes essenciais nas lavouras.
O nexo energia-alimento e a intervenção estatal
Essa disputa também está ligada à energia. Mais de 70% da amônia mundial, matéria-prima dos fertilizantes nitrogenados, é produzida a partir do gás natural. O gás natural funciona simultaneamente como matéria-prima e fonte de calor para a amônia e pode representar entre 60% e 80% do custo de produção dos nitrogenados. Em 2022, a interrupção dos fluxos russos pelo Nord Stream elevou o preço europeu do gás e levou diversas fábricas de amônia a reduzir ou suspender suas operações; o encerramento do trânsito pela Ucrânia, em janeiro de 2025, consolidou a perda dessa fonte de energia barata.
Já o enxofre recuperado no refino de petróleo e no processamento de gás é necessário à fabricação de ácido sulfúrico, empregado na transformação da rocha fosfática em fertilizante. Nesse caso, o fechamento do Estreito de Ormuz atingiu ao mesmo tempo a produção baseada em gás e o transporte de ureia, amônia e enxofre. Como quase metade do enxofre marítimo atravessa Ormuz, o bloqueio afetou também os fosfatados. Rússia e Ormuz revelam, assim,
duas faces de uma mesma vulnerabilidade: o controle das fontes de energia e o controle das rotas pelas quais os insumos circulam.
A reação dos países reforçou o caráter geopoliticamente estratégico desses insumos. Em 2026, a China prorrogou restrições às exportações de ureia e limitou as vendas de ácido sulfúrico; a Rússia estendeu cotas para fertilizantes e suspendeu licenças de exportação de nitrato de amônio; e a Turquia proibiu temporariamente a saída de enxofre. Países importadores responderam com compras públicas, subsídios, redução de impostos, financiamento e formação de estoques. Assim, o “livre mercado” mais uma vez dependeu de ações estatais destinadas a proteger produtores e consumidores nacionais.
Os Estados Unidos consolidam essa tendência ao incluir, em 2025, o fosfato e o potássio em sua lista de minerais críticos. A medida reconhece oficialmente que a interrupção dessas cadeias pode afetar a economia e a segurança nacional. Fertilizantes deixam, portanto, de ser apenas mercadorias agrícolas e passam a integrar estratégias nacionais. Evidencia-se que o debate sobre a transição energética não pode se restringir à descarbonização dos transportes ou da matriz elétrica, mas precisa enfrentar a dependência fóssil inerente ao modelo de produção de alimentos.
Em contrapartida, conforme indicam análises da agência Moody’s, a América Latina e o Brasil retêm uma geologia rica em minerais críticos e uma matriz de energia limpa com custos competitivos, elementos que abrem caminhos para a superação gradativa da dependência fóssil tradicional.
A atual crise não representa uma anomalia passageira, mas a consolidação de uma ordem internacional na qual a segurança alimentar e as formas de poder se sobrepõem. Países com produção doméstica, estoques, capacidade financeira e diversificação de fornecedores conseguem amortecer parte dos choques. Já os importadores permanecem expostos tanto a oscilações do mercado quanto às decisões políticas dos principais fornecedores, o que é especialmente relevante para compreender a vulnerabilidade brasileira e reitera a urgência de colocar a transição agroecológica e a soberania de insumos no centro da agenda rumo à COP 31. Essa transição passa, obrigatoriamente, pelas esferas de fomento à agricultura de precisão e ao desenvolvimento técnico liderado por instituições como a Embrapa, cujas frentes de pesquisa em biofertilizantes minerais, economia circular e “fertilizantes inteligentes” (grânulos de liberação prolongada ativados por condições específicas de umidade e temperatura) buscam redesenhar o metabolismo agrícola do país, reduzindo o desperdício estrutural e pavimentando a verdadeira autonomia alimentar nacional frente aos ditames geopolíticos contemporâneos.
Márcio Caldo Moreira, Márcio Rocha da Silva Filho, Lucca León Franco e Yamila Goldfarb são Observatório da Política Externa e Inserção Internacional do Brasil.

