A QUARTA NATUREZA

Quando a natureza reivindica seu lugar na cidade 

Le Corbusier, Roberto Burle Marx e Lawrence Halprin diante de uma nova condição urbana 

E se a cidade deixasse de ser compreendida como o lugar em que o homem domina e transforma a natureza para ser reconhecida como um espaço no qual a própria natureza reivindica o direito de existir? É a partir dessa inversão de perspectiva que Barbara Boifava constrói sua reflexão em La quarta natura della città (Quodlibet, 2025), investigação dedicada à presença e à ação do mundo vivo na cidade moderna.  

Historiadora da arquitetura e professora de Arquitetura da Paisagem na Universidade Ca’ Foscari de Veneza, Boifava parte de uma rigorosa genealogia do pensamento paisagístico. A autora recupera a clássica distinção ocidental sistematizada por John Dixon Hunt: a primeira natureza seria a natureza selvagem e incontaminada; a segunda natureza, o território transformado pelo trabalho humano e pela produção (campos, canais e infraestruturas); e a terceira natureza, a expressão estético-cultural do jardim. Se o ecólogo Ingo Kowarik já havia ensaiado a ideia de uma “quarta natureza” ao observar a vegetação espontânea emergindo sobre as ruínas da cidade pós-industrial, Boifava dá a essa noção um salto historiográfico e projetual: a quarta natureza não é apenas a ruína recolonizada, mas a possibilidade de a própria cidade ser projetada e vivenciada como um ecossistema integrativo, capaz de potencializar a experiência estética e social do espaço urbano. 

Para sustentar essa hipótese, Boifava cruza o trabalho de três mestres de gerações, origens e visões distintas: Le Corbusier, Roberto Burle Marx e Lawrence Halprin. Longe de traçar uma linha direta ou formalista, a historiadora constrói uma genealogia marcada por uma dupla sequência: simultaneamente cronológica e escalar. Trata-se do movimento que vai do planejamento territorial e da utopia moderna (Le Corbusier), passa pelo desenho da estrutura da cidade (Burle Marx), e desemboca na dimensão micro, na escala do corpo, da experiência sensorial e da ação comunitária (Halprin).  

A “Cidade Verde” de Le Corbusier:  o território 

Em Le Corbusier, a natureza é abordada a partir da escala do território. A ville verte não consiste em simplesmente acrescentar jardins a um tecido preexistente, mas em reorganizar a estrutura urbana por meio de grandes superfícies livres. A célebre máxima “La ville peut devenir une ville verte” traduz o desejo racionalista de conciliar a densidade urbana com o ecossistema.  

Entretanto, há uma contradição fundacional que a pesquisa de arquivo de Boifava traz à tona. Ao resgatar notas e estudos do arquiteto franco-suíço – como os manuscritos não concluídos do texto La construção da cidade (iniciado em 1910) e os croquis de jardins históricos desenhados na Biblioteca Nacional de Paris –, a autora revela como a natureza corbusiana se gestou no âmbito da pura racionalização. Essa natureza é submetida ao projeto, higienizada e geometrizada; contudo, ela deixa de ser mero ornamento para se tornar componente estrutural do desenho da cidade.  

Burle Marx e a “cidade-parque”: a estrutura urbana 

Com Roberto Burle Marx, a relação entre cidade e natureza desloca-se para a dimensão propriamente urbana e ecológica. O contexto brasileiro não opera uma mera mudança de paisagem, mas uma verdadeira revolução epistemológica no campo do projeto.  

Foto: Georgea Andrade/Wikimedia Commons

O artista brasileiro recusa a vegetação como mera maquiagem para a dureza da arquitetura. Sua práxis nasce da síntese entre arte abstrata, botânica aplicada e expedições de exploração aos biomas nacionais. Em vez do jardim de matriz europeia, Burle Marx introduz a lógica da “cidade-parque” e a provocativa premissa “Floresta = Cidade”. Boifava ilustra esse aporte teórico ao recuperar manifestos e escritos do paisagista – incluindo textos de 1970 nos quais ele já conclamava os arquitetos-paisagistas a assumirem o papel de “custódios de um patrimônio natural do qual depende a sobrevivência da espécie humana”. 

Essa abordagem possui uma ressonância incontornável para o Brasil contemporâneo. Diante da urgência climática, do avanço da impermeabilização e da destruição de nascentes, a obra de Burle Marx deixa de ser apenas uma referência histórica para se tornar um programa político: como planejar cidades onde a vegetação e as redes hídricas sejam as matrizes ordenadoras, e não o resíduo que sobra após a especulação imobiliária?  

A floresta de granito de Halprin: a escala do corpo e a comunidade 

Com Lawrence Halprin, o debate alcança a escala do corpo, do indivíduo e da comunidade. Ancorado na cultura norte-americana e fundamentado em extensas viagens de catalogação espacial pela Europa – que culminaram em sua famosa obra Cities –, Halprin constrói a natureza urbana através do movimento e do estímulo aos sentidos.  

Sua emblemática granite forest (floresta de granito), traduzida em intervenções dramáticas como as praças e parques de Seattle ou Portland, não busca imitar panoramicamente a floresta, mas evocar sua dinâmica por meio do uso da água, das rochas, dos desníveis e das sequências topográficas. A natureza torna-se uma “arte ambiental participativa”, uma coreografia urbana que atende ao desejo humano de explorar, caminhar, fantasiar e habitar coletivamente o espaço.  

Mais do que apontar limites, a abordagem de Boifava abre caminhos instigantes para expandir o próprio alcance da “quarta natureza”. Ao focar na trajetória de três grandes figuras consagradas da arquitetura ocidental, a autora consolida uma base historiográfica indispensável, a partir da qual se torna possível projetar esse conceito para novos territórios de reflexão. A ideia da natureza reivindicando seu espaço urbano ganha uma camada ainda mais vibrante quando colocada em diálogo com as práticas comunitárias, as redes de agriculturas urbanas, a sabedoria ancestral e as táticas informais de resistência ecológica gestadas nas periferias do Sul Global. O conceito se amplia e se fortalece quando tensionado pelas lutas cotidianas por hortas comunitárias, pela defesa dos mananciais por populações ribeirinhas e pelas epistemologias dos povos originários.  

Nesse sentido, a contribuição de Barbara Boifava é valiosíssima. Em tempos de emergência climática e de cidades genéricas – cada vez mais pasteurizadas e vulneráveis a eventos extremos –, La quarta natura della città demonstra que a integração entre urbanismo e ecologia não é um modismo recente, mas uma agenda consistente, construída ao longo de mais de um século de teoria e prática.  

Superar a dicotomia entre o espaço construído e o mundo vivo não é apenas uma escolha estética, mas uma condição para a sobrevivência urbana. O grande convite da obra de Boifava é justamente nos instigar a avançar a partir dessas lições históricas para construir uma cidade em que urbanização e natureza deixem de ser forças antagônicas – reconhecendo que, sem a natureza, não há futuro urbano possível. 

 

Adalberto da Silva Retto Jr., é arquiteto urbanista e engenheiro agrônomo. Atua como professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). É doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP) e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (IUAV), com pós-doutorado no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza – Itália. Foi professor-pesquisador visitante na Universitè Panthéon Sorbonne -Paris I – França. 

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