ENTREVISTA

Giovanna Ramundo fala sobre ‘Sorriso Sorvete de Cereja’, romance vencedor do 2º Prêmio Candango de Literatura

Autora comenta seu processo de escrita e a relação entre infância e memória em sua obra, além de adiantar os próximos projetos: um livro infantil e um romance sobre luto familiar

Sorriso Sorvete de Cereja conta a história de Rio, uma menina-mulher submersa em recordações familiares e estranhezas da infância. Na tentativa de reconstruir sua vida, ela se depara com a descontinuidade de sua memória, o que a faz oscilar entre um eu e vários nós que compõem seu universo particular. Numa língua bravia, franca e inquiridora, Rio revela as várias formas de violação que seu corpo sofreu e toda a angústia repetitiva que a torna intermitente. Em cenas desconcertantes, com desencaixes acentuados, a protagonista esbarra num emaranhado de possibilidades impostas a ela, como se fossem definitivas e únicas possibilidades. E nos alerta: “É estranho, ser criança”. Rio vive uma tragédia: a de ser diferente.

Giovanna Ramundo é escritora, professora, contadora de histórias e graduada em letras – formação do escritor pela PUC-Rio. Sua trajetória literária é marcada pelo diálogo entre infância, memória e linguagem, temas centrais em sua produção e em seus encontros com leitores. É autora de Como nascem as estrelas: a história das crianças que não sabem crescer, obra dedicada ao público infantojuvenil, e participou da coletânea de contos Das infâncias. Em 2024, publicou o romance Sorriso Sorvete de Cereja, vencedor do 2º Prêmio Candango de Literatura na categoria Melhor Romance (2025), premiação que reúne autores de todos os países lusófonos.

Possui experiência em mesas literárias, palestras e mediações de leitura em livrarias, ambientes escolares e acadêmicos. Entre suas atuações mais recentes destacam-se sua participação como autora convidada no Mar Aberto, clube do livro da Livraria Cecí dedicado à leitura de grandes vozes femininas da literatura nacional, o bate-papo sobre infância realizado na Livraria Funambule, em Petrópolis, e sua presença na 50ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, o maior evento literário da América do Sul.

Confira na íntegra:

No prefácio do seu romance, Rosana Kohl Bines escreve a respeito de uma zona cinzenta entre a infância e a vida adulta da narradora. O que te levou a escrever sobre a memória, por vezes dolorosa da infância, que atravessa sua personagem principal?

Sempre me interessou pensar a infância como um território muito mais complexo do que costumamos admitir. Existe uma tendência de olhar para esse período com nostalgia, como se ele fosse naturalmente feliz e livre de preocupações, mas acredito que crescer é um processo profundamente desconfortável e doloroso. Também percebi que a infância vai além de um momento da vida e parece ser, em sua essência, um lugar pessoal que carregamos por todas as fases, revisitando-o, às vezes com alegria e às vezes a contragosto. Em Sorriso sorvete de cereja, com Rio, busquei justamente trabalhar esses desconfortos do ser criança, as dificuldades enfrentadas por meninas e mulheres ao longo do crescimento e a forma como essas experiências da infância permanecem marcadas no corpo e na mente. A memória também me fascina por sua descontinuidade e instabilidade. Lembrar não é acessar um arquivo organizado, mas caminhar por um solo incerto, no qual enraízam-se verdades inventadas e esquecimentos propositais. Acredito que também vivemos dessas lembranças imaginadas, e que de tanto imaginá-las fazemos delas parte da nossa realidade. Foi nessa brincadeira entre o vivido, o fantasiado e o esquecido, que a Rio cresceu.

Seus trabalhos costumam se direcionar para o público infantojuvenil. Como foi o processo de escrever sobre a juventude em um livro cujo público é mais maduro?

Embora o público de Sorriso sorvete de cereja seja diferente, sinto que minhas inquietações continuam as mesmas. A infância sempre permeou a minha escrita de um jeito ou de outro, já que acredito que ela vá além de um período decisivo em nossas formações. Na verdade, cada dia me vejo mais certa de que eu sou a minha infância, e, assim como eu,  todos são as suas infâncias, e talvez nós não consigamos ser muito mais além disso. A temática, então, continuou a mesma, a forma de abordá-la, essa sim mudou. Em Sorriso sorvete de cereja, meu interesse era conversar com a criança que cada um carrega dentro de si, ouvi-la e acolhê-la, se possível. É um romance que convida o leitor a olhar para a infância (sua própria e dos que o cercam) com mais sensibilidade e principalmente com mais empatia. Muitos leitores me disseram que reconheceram em Rio sentimentos que julgavam muito particulares, talvez essa seja uma das maiores conquistas do livro.

Você tinha de antemão as técnicas e recursos narrativos, ou foram aparecendo com o tempo no decorrer da escrita?

Algumas escolhas surgiram muito cedo, Rio praticamente me exigiu uma linguagem própria: seus nós incontroláveis fogem dos cabelos, afetam a forma como ela se comunica, como sente o mundo ao seu redor, como se lembra e como se esquece. Rio vive nessa fronteira entre a normalidade e o delírio, entre a criança e a adulta, ela é uma infância que flui ininterruptamente, e me parecia impossível que ela narrasse sua história obedecendo a uma lógica linear. E assim surgiram as confusões temporais, as misturas entre o singular e o plural, a memória fragmentada e remendada que transmite essa sensação de que ela nunca é apenas um “eu”. Rio é uma e ao mesmo tempo muitas, é mulher sem deixar de ser menina, e menina sem deixar de ser mulher. Conforme fui compreendendo quem ela é, compreendi também a forma como ela desejava contar a sua história. Pode-se dizer que em Sorriso Sorvete de Cereja, a estrutura nasceu da personagem, e não o contrário.

Capa de Sorriso Sorvete de Cereja – Foto: Divulgação

A sua formação é pela PUC-Rio em letras – formação do escritor. Influenciou diretamente Sorriso sorvete de cereja?

Sem dúvida, a graduação foi fundamental para a construção do romance e também para que eu me tornasse a escritora que sou hoje. Meu período como universitária foi de muito amadurecimento, tanto como leitora, quanto como autora. Foi no curso de Letras que aprendi a olhar para a literatura de maneira mais consciente, sem que isso diminuísse o meu encantamento pela escrita. Vale repetir sempre: sou imensamente grata aos professores que me acompanharam na PUC-Rio. Sorriso sorvete de cereja passou por muitas mãos generosas antes de chegar aos leitores, e esse olhar coletivo para o texto foi essencial para que ele se tornasse o livro que é hoje.

Quais são as suas maiores influências literárias e artísticas?

Acho que minhas influências são bastante diversas, sempre li de tudo. Me comove a literatura que dialoga com a infância sem subestimá-la e admiro escritores que exploram a subjetividade da memória através da linguagem. Acredito que meu apreço pela fantasia clássica e pelo realismo mágico também me influenciam a escrever mais desgarrada das normas e descompromissada dos fatos.  Para citar alguns títulos que me impulsionaram na escrita com Rio:  Por que a criança cozinha na polenta, de Aglaja Veteranyi; Lolita, de Vladmir Nabokov;  A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst; O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar; O Sol é para todos, de Harper Lee, e Matilda, de Roald Dahl.

A música também, desde de muito cedo, ocupa um lugar de destaque no meu processo criativo, cada livro ou projeto artístico é acompanhado de uma playlist própria que escuto até enjoar. E com Sorriso sorvete de cereja não foi diferente: o livro nasceu da canção Rio, da banda Duran Duran. Nessa composição, a partir da voz de um homem, conhecemos uma linda e jovem mulher, que dança na areia com o seu sorriso da cor sorvete de cereja. A Rio do livro também recebe esse nome por conta de um homem, seu pai, grande fã do Duran Duran, o qual ela não conhece, e esse sorriso perfeito descrito na música se torna sua pequena obsessão.

Você foi convidada para a Feira Internacional do Livro de Buenos Aires em sua 50ª edição. Como foi apresentar o seu livro em outro país?

Foi uma experiência maravilhosa estar presente no espaço destinado ao Brasil. A Feira Internacional do Livro de Buenos Aires é um dos maiores eventos literários da América Latina, então estar ali apresentando o meu trabalho e representando o meu país foi uma honra enorme. O mais bonito foi perceber que, apesar da barreira linguística, as questões abordadas por Rio parecem ser universais, quem esteve comigo sentiu-se à vontade para falar sobre infância, pertencimento, memória e diferença. Isso reforçou em mim a sensação de que a literatura nunca é feita de forma solitária, pelo contrário, a literatura é um grande e interminável diálogo.

Além de convites internacionais, os clubes de leitura e demais eventos no Brasil também se interessaram pelo seu romance. Comente um pouco sobre a recepção do público.

A recepção tão positiva do livro não deixa de ter sido uma surpresa para mim. Quando comecei a escrever Rio, imaginei que ela era muito diferente de todos, pensei que considerariam a ela (e por extensão a mim) uma completa desequilibrada. Me emociona descobrir que muitas pessoas se reconhecem nela, isso me deixa mais segura para que eu mesma também encontre semelhanças entre nós duas. Somos mais parecidas do que eu havia imaginado.

Depois que recebi o Prêmio Candango de Literatura, o livro ganhou mais visibilidade, o que tem me proporcionado estar presente em eventos literários, bate-papos e clubes de leitura… Isso me permite conversar com diferentes leitores, ouvir sobre suas próprias impressões, e assim, também, conhecer suas versões particulares da Rio. É como se a cada leitor que conheço, eu descobrisse mais um “nós” em Rio. Isso me lembra que um livro nunca termina quando o autor escreve a última frase, ele segue sendo escrito por quem o lê.

Quais as diferenças e semelhanças no seu processo criativo para públicos tão distintos?

Não penso tanto em quem vai ler o que eu escrevo, talvez se eu pensasse, deixasse de escrever. Vou produzindo e quando percebo ter feito algo que vale a pena ser compartilhado me pergunto com quem. O que posso dizer é que prezo pela honestidade, não simplifico sentimentos por imaginar um leitor jovem, e nem deixo-os mais complexos por imaginar um leitor mais maduro. Acredito nos meus leitores, confio que eles darão o tom necessário ao que escrevo, independentemente da idade. Pergunto-me, também, se esses públicos são realmente tão distintos ou se nós, “adultos”, é que precisamos separá-los…  De certa forma, Sorriso sorvete de cereja nasce dessa minha indagação:  Rio é o encontro constante da criança com a adulta submersa na própria infância.

Por último, tem projetos em andamento na literatura?

Fico feliz em dizer que tenho, sim, alguns projetos em andamento. Ainda esse ano espero lançar Uma História Difícil de Engolir, um livro para as infâncias que está sendo produzido em parceria com a ilustradora Bela Pinheiro e sairá pela Editora Cambucá. Se trata de uma desventura cheia de sapos, e, para lê-la, será preciso aguçar as papilas gustativas…

Também estou trabalhando no meu próximo romance, no qual investigo, em particular, o luto familiar. Ter recebido o Prêmio Candango, sendo ainda jovem, traz um misto de sensações: por um lado, a de dever cumprido, e por outro, o receio de já ter dado o meu melhor. Sinto que preciso me reinventar como escritora e tenho me empenhado em desvirtuar-me de Rio e de sua língua descabelada. Acredito que ainda estou encontrando a voz própria para essa nova história, mas sei que estou chegando lá. Hoje, percebo que o meu maior objetivo enquanto autora, é seguir escrevendo livros que desafiem a mim mesma e também aos que se dispuserem a me ler.

 

Lorraine Ramos Assis é redatora, pesquisadora e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). É mestranda em Ciência da Literatura (UFRJ).

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