Autor catarinense trabalha com questões a respeito da ancestralidade, religião e linguagem sob o prisma da memória em livro de contos
O trem em meio à névoa apresenta narrativas filosóficas, cortejando o hermetismo e o mundo místico, com poucas personagens as quais refletem o mundo exterior com o seu íntimo
O trem em meio à névoa é o projeto introdutório de uma tetralogia de livros de contos que visam refletir a relação do homem com a sua natureza – inspirando-se no tríptico O Jardim das Delícias Terrenas, do pintor Hieronymus Bosch. Neste livro, que funciona como uma espécie de introito, busca-se compreender o Eu do ser humano – refletindo os múltiplos significados dos termos como: morte, sonho, lar, divino, universo e, principalmente, tempo. Nesse contexto, é dividido em duas partes: “O trem em meio à névoa ou Uma autobiografia em estórias”: trata-se de uma biografia ficcionalizada do autor pictoricamente surrealista, desenvolvendo o tema da descoberta do Universo como a descoberta de si. “Outros prosários mais”: é a reunião de outras estórias com assuntos afins ao livro, visando resumir de forma mais clara a filosofia do projeto. Assim, O trem em meio à névoa apresenta narrativas filosóficas, cortejando o hermetismo e o mundo místico, com poucas personagens as quais refletem o mundo exterior com o seu íntimo.
Magnus Ferreira de Melo nasceu na cidade de Joinville, no norte do estado catarinense. Mora em Florianópolis, onde faz graduação em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas pela Universidade Federal de Santa Catarina. É inclinado ao estudo da poesia e na produção de textos em prosa com foco na reflexão da ideia de tempo, memória e identidade. O trem em meio à névoa (Editora Mondru, 2025, 112 p) é seu primeiro livro.
Como foi o processo de escrita de O trem em meio à névoa como um todo? Os contos foram escolhidos a partir de textos antigos, novos?
Em 2019, iniciei um projeto de escrever um livro de contos. Eram inúmeros esboços: reescrevia uns, outros iam para o lixo ou se perdiam. Foi apenas durante a pandemia que alguns fizeram sentido juntos e, a partir deles, produzi textos novos – tentativas e erros, leituras e releituras. Escrevia, engavetava para deixar fermentar, retomava, “lançava” de caneta sobre o manuscrito e devolvia o pão ao forno para crescer. E assim ia.
“Isolamento” foi o que mais sofreu alterações. No início, tinha como tema central a pandemia – e creio que esse fundo ainda permaneça. O menos corrigido foi “A luz & sombra”, mais recente, o último a entrar no livro, já em 2023 ou 2024.
Seu livro aborda temas como a memória, morte e identidade. É interessante notar que as imagens que ilustram os contos e a capa são inspiradas no Tarot. Por quê?
Como muitos, tive minha fase mística – tanto que Santiago de Compostela se faz presente em minha capa, essa imagem de Espanha, de Galiza. E há muito o que brincar com o Tarot, a depender se suas tiragens surgem histórias maravilhosas, apesar de ter escolhido apenas arcanos maiores. Calvino, no Castelo dos destinos cruzados, fábula de interpretações sobre elas; infinitude de leituras, visões livres que demandam suas especificidades, suas regras, uma ideia, labirinto, uma infinitude à lá Borges. Adoro brincar dentro de regras, explorar a criatividade. Além disso, indico ao leitor que leia os contos pensando nas cartas que os representam, aventure-se fora do livro, imagine meus motivos literários.
Seu livro recebeu boa recepção, desde resenhas e comentários mais esparsos. O que chama atenção é que há um fator comum na interpretação dos críticos: o personagem como espelhamento de seu autor. No conto que abre sua obra, “Mata-se um escritor”, o narrador retorna à sua cidade natal em busca de uma ressignificação de suas memórias. Você considera que O trem em meio à névoa” seja uma autoficção? O que acha desse olhar dos leitores?
Acho interessantíssimo! Apesar de tê-lo criado com outra questão em mente. Mas, claro, total, o livro é uma autoficção, “autobiografia em estórias” como ponho. A questão do livro era de pensar uma “jornada do escritor”, como um “deus” e seu microcosmo, sua Tessália, que foi a minha, como pode ser de outros escritores iniciantes… A diferença ficou no foco, opacar minha vida, real, e dela uma projeção, abusar da liberdade de criar. Quiçá o texto que mais se aproxime do chão seja o “Mandala”, carta real, destinatária real, minha amiga de infância, pois tudo foi criado – até a dedicatória ao texto “Artifícios”, pseudônimo meu de muito tempo.

O gênero, na perspectiva de alguns pesquisadores na área de Literatura, ganhou relevância nos últimos anos, tanto no tom positivo quanto negativo. De um lado, a experiência do sujeito e indivíduo, em especial das camadas consideradas marginalizadas, é tratada como conquista, inclusive política; de outro, o desgaste de um Eu que se perde no modo de narrar e nos temas. O seu livro parece caminhar diferente, tanto para o fantástico, inóspito, mas também por tratar de tópicos mais existenciais, como a morte, a espiritualidade e a memória de modo quase místico. Como foi o processo de misturar a sua vida com essas questões?
Todo jovem, na idade que eu tinha, pensa muito nessas questões. Tinha de me planejar a sair de casa, pensar em emprego, estudar. O que eu queria ser quando adulto não era mais questionamento senão questão. O adolescente entra nesse inferno mental muito pesado, uma pressão. Resolvi ressignificar tudo, enfim. Meus medos, tristezas, lutos, encarar a vida sob outra ótica. Essas levantadas nada mais são do que a vida, não podem ser borradas, não conseguimos nos esquecer eternamente… No meu próximo livro não volto a esses temas, não terá esse foco, mas por ser uma tetralogia o Trem muito tem a acrescentar com tudo, mesmo. Ele fará mais sentido com os outros, imagino.
Ainda na parte acadêmica, você é graduando em Letras-Língua portuguesa e Literaturas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com interesse na poesia e produção de textos em prosa, cujos temas são tempo, memória e identidade. Teve alguma influência em O trem em meio à névoa? Se sim, como foi esse trabalho?
Gosto de imaginar três de mim: um leitor (crítico demais, ora preguiçoso), o acadêmico com sua demanda mais analítica e o escritor, inimigo do acadêmico, cada qual a revirar seus olhos pelo outro, por incrível que pareça. O trem foi escrito fora da universidade, a maior parte no meu Ensino Médio, no entanto, o que aprendi e aprendo na academia refletiram e refletem diretamente minha escrita, claro! Hoje penso: o que nós demandamos? Como é a literatura de agora, temas de hoje, sem cair numa cópia dos outros, ou uma “maria-vai-com-as-outras”. Enfim, o curso mais tem ajudado meu próximo projeto.
Quais são suas inspirações literárias, artísticas?
Além da literatura, música e teatro (principalmente), devo muito minha escrita ao teatro! Mas, como se vê no trem, eu tento reproduzir telas conhecidas por todos; filmes, séries, até Chaves! Nos livros eu gosto de voltar aos textos sagrados. Corruptamente, me inspiro, pois não sou religioso ferrenho e nem praticante. Literatura, nomes como Santa Teresa D’Ávila, Jorge Manrique, Rosalía de Castro, Miguel de Unamuno (que roubei o título Névoa), Emília Pardo Bazán, Lorca, e por aí vou: Jeremias Gotthelf, Heinrich von Kleist, Kawabata, Gógol, Tchekhov, Florbela Espanca, José Luís Peixoto, Ungulani Ba Ka Khosa, Alfonsina Storni, Quiroga… No Brasil o Machado, Érico Veríssimo, Cecília Meirelles, Gilka Machado, Lygia Fagundes Telles, Lygia Bojunga, Guimarães Rosa, Maria José Durpé, e me perco na lista! Devo minha escrita e quem sou a esses e inúmeros outros nomes.
Como definiria sua escrita?
Engraçada. Pode ser que eu tenha, claro, um humor quebrado, nada impede, mas eu me diverti muito escrevendo alguns contos. Não os vejo muito a sério. Thomas, por exemplo, do “Mata-se um escritor”, é um panaca, o vejo assim e temo ser como ele. Tem meu sobrenome por ser meu medo. É engraçado, tento puxar uma ironia, e talvez quem me conheça lerá até com a minha voz… irá notar isso, mesmo que não pareça piada. Como bom brasileiro dessas tristezas eu relevo com riso.
Por fim, há trabalhos em andamento? Um próximo livro?
Sim! E, muito ansioso por eles. Agora, da religião (Deus formando um mundo), migro para a terra, para a sociedade, o sul. Até então tem como nome Itajaí-açu: ou um griô falseador – do tarot para a fotografia, mania minha de fabular imagens. Este eu acredito que demore, por ainda estudar mais o que quero apresentar. Já parti pelo Uruguai, pelo Paraná, me faltam o Rio Grande do Sul, Argentina, para entender melhor Santa Catarina, sabe? Por enquanto não tenho pressa. Aproveitar o lançamento de meu trenzinho nevoento.
Lorraine Ramos Assis (1996) é redatora, pesquisadora e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). É mestranda em Ciência da Literatura (UFRJ)

