CRIMES AMBIENTAIS

A pressão francesa que afogou vidas em Mato Grosso

Sete anos depois do início da operação da Hidrelétrica de Sinop, famílias atingidas pelo barramento do rio Teles Pires, no Mato Grosso, seguem cobrando indenização justa e denunciam as marcas deixadas pela atuação direta do governo da França

“Antes dessa usina nós tínhamos tudo. A usina trouxe só destruição pra nós. Nem pescar a gente consegue mais, nem no rio a gente vai. Acabou com a gente.”  

– O relato de Terezinha Martins de Carvalho carrega uma vida que começou a ser ‘alagada’ há sete anos atrás.  

Terezinha Martins de Carvalho, moradora do assentamento Gleba Mercedes V, no município de Sinop, em Mato Grosso, lembra de um passado ainda recente, anterior à entrada em operação da Usina Hidrelétrica (UHE) de Sinop, no rio Teles Pires. Para começar a funcionar, a usina precisou primeiro alagar uma área de cerca de 34 mil hectares. Seria como inundar 50 mil campos de futebol. Só que, no lugar de estádios, o barramento inundou terras onde viviam famílias de produtores rurais e submergiu grandes áreas de floresta amazônica, habitat de diversas espécies, incluindo animais ameaçados de extinção. Entre eles estão espécies de primatas que vivem na região do Teles Pires e foram recentemente catalogadas pela ciência, como o zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi) e o sagui-de-Schneider (Mico schneideri), ambos em risco de extinção. 

A vida das famílias assentadas pela reforma agrária no Gleba se organizava em comunidade, com o rio conectando as relações e a produção de alimentos da agricultura familiar sustentando a vida local. Terezinha lembra da abundância de peixes, dos alimentos vendidos nos comércios da região e do movimento de visitantes que chegavam aos fins de semana para tomar banho de rio e pescar: “São muitas lembranças”. O assentamento Gleba era refúgio para quem vivia ali e também para quem estava apenas de passagem. Dona Terezinha carrega um mundo de memórias que hoje colidem com o lugar coberto pelo lago, onde a terra que sustentava famílias inteiras foi engolida pela barragem. 

Em 2026, a UHE Sinop completa sete anos de operação comercial. Para as famílias atingidas, esse tempo marca outra contagem. São sete anos de pressões, com muitas perdas e prejuízos, incluindo a falta de indenização justa. Também é um período marcado por muita luta das pessoas atingidas por reparação e respeito. O lago ficou e as promessas de “desenvolvimento” para a região ficaram pelo caminho. Hoje as famílias ficaram apenas com a conta de uma fatura que cobra centenas de moradores todos os dias.  

Nos assentamentos atingidos diretamente pela usina, como a Gleba Mercedes V, em Sinop, e o Projeto de Desenvolvimento Sustentável 12 de Outubro, no município de Cláudia, mais de 100 famílias tiveram suas vidas atravessadas pela barragem. A imagem dos chamados “paliteiros” ajuda a traduzir a decisão política adotada pelo governo da França e mostra o que aconteceu nesse território quando uma grande área foi inundada. Onde antes havia um rio conhecido por suas corredeiras, parte do Teles Pires foi transformada em um grande lago.  

 

Crédito: Caio Mota

 

França 

Esse cenário faz parte de um modelo mais amplo de exploração do território. A implantação de hidrelétricas na bacia do Teles Pires tem raízes em decisões tomadas ainda durante a ditadura militar e segue marcada pela presença de interesses estrangeiros. No caso da UHE Sinop, empreendimento que destruiu a casa de dona Terezinha e de centenas de famílias, a operação da usina está sob responsabilidade da Sinop Energia, empresa que reúne grupos econômicos nacionais e internacionais.  

A principal acionista é a estatal francesa Électricité de France, conhecida pela sigla EDF, que detém a maior parte do controle do empreendimento, com 51% das ações. Os outros 49% estão atualmente vinculados à Axia Energia, empresa que surge a partir do processo de privatização da Eletrobras. Isso significa que a energia gerada no Mato Grosso entra em uma lógica internacional de negócios, na qual parte das decisões é tomada longe do território atingido. 

Antes de encher o reservatório, a empresa, deveria ter retirado a vegetação da área que seria alagada como uma medida de reduzir a contaminação da água e a emissão de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global e pelo agravamento da emergência climática. Uma medida prevista na lei federal 3.824/60 e que foi ignorada pela empresa por decisão política.  

Um levantamento feito em 2018, pelo Fórum Teles Pires, rede de movimentos e organizações sociais criada para defender as vidas atingidas por hidrelétricas nessa região, já alertava sobre os riscos caso a retirada da vegetação não fosse realizada. A empresa retirou cerca de 30% da vegetação prevista por lei. Com o lago cheio, a floresta morreu em pé. Em pouco tempo, restaram troncos saindo da água, como palitos cravados no reservatório. Os “paliteiros”. 

Esse vínculo internacional ajuda a entender como a atuação da empresa se materializa no território. A lógica empresarial aparece na forma de pressões sobre a vida das famílias e sobre o ambiente, impactando diretamente uma área que abrange os municípios mato-grossenses de Sinop, Cláudia, Itaúba, Sorriso e Ipiranga do Norte. O rio Teles Pires, que organizava a vida de comunidades inteiras, foi transformado em ativo econômico.  

Crimes ambientais 

Previamente à emissão da licença de operação da usina para a Sinop Energia, em 2019, os riscos dos “paliteiros” já haviam sido apontados também por cientistas e pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPE/MT). Todos os alertas foram ignorados pela Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA/MT), que liberou as licenças necessárias para a operação do empreendimento. Em 2015, o engenheiro Felipe Faria publicou, na revista científica Environmental Research Letters, uma análise indicando que a hidrelétrica de Sinop poderia se tornar uma das piores usinas da Amazônia em emissão de gases de efeito estufa, com níveis capazes de superar a poluição gerada por usinas de carvão, justamente pela decisão política de fazer um reservatório que produz os “paliteiros”. 

O cientista Philip Fearnside, que ganhou em 2007, o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas, também alertou sobre os riscos dos “paliteiros”. Em relatório produzido em conjunto com o MPE/MT, ele apontou que deixar árvores dentro do reservatório poderia agravar impactos ambientais, como a emissão de metano e a transformação do mercúrio em metilmercúrio, uma forma mais tóxica da substância. 

Em novembro de 2018, o MPE/MT emitiu cinco recomendações à SEMA/MT para que a licença de operação da usina fosse barrada até a retirada completa da vegetação da área alagada. Mesmo assim, a licença foi emitida em janeiro de 2019. Ao longo dos meses daquele ano e nos anos seguintes ao enchimento do reservatório, a mortandade de mais de 13 toneladas de peixes em grande escala confirmou os alertas feitos anteriormente por movimentos e organizações do Fórum Teles Pires, cientistas, pesquisadores e órgãos de controle e fiscalização.  

A SEMA/MT multou o empreendimento em mais de R$ 86 milhões entre 2019 e 2020 por crimes ambientais. A Justiça Federal chegou a suspender a licença de operação da usina, em 2019, por causa da grande mortandade de peixes. Em 2022, a Justiça Estadual de Mato Grosso também condenou o empreendimento por negligência relacionada às queimadas na região do lago e no entorno da UHE Sinop, ocorridas nos anos de 2018, 2019 e 2020. Na prática, isso significa que a Justiça brasileira decidiu enviar um pedido formal às autoridades francesas para que o presidente Emmanuel Macron fosse chamado a se manifestar sobre os impactos ambientais atribuídos à atuação da estatal francesa EDF no Brasil. A medida reforça que o caso da UHE Sinop ultrapassa as fronteiras brasileiras e envolve a responsabilidade política do governo francês, já que a EDF é controlada majoritariamente pelo Estado da França.  

 

Crédito: Caio Mota

Quem paga o preço da destruição?  

A mesma lógica de descaso aparece no processo de indenização das famílias atingidas. Em 2017, a então Sinop Energia, na época com nome de Companhia Energética Sinop (CES), pagou, em média, R$ 3,9 mil por hectare aos assentados, que tiveram suas casas destruídas pelo empreendimento. Segundo as famílias, o valor foi definido pela empresa na base da pressão, sem possibilidade de negociação. A alternativa apresentada para quem questionasse os termos e valores era recorrer à Justiça.  

Ainda em 2017, um laudo feito pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) apontou que o valor médio das terras na região era de R$ 12.258 por hectare. Em 2018, uma nova perícia, apresentada no âmbito de uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF), estimou o preço médio da terra em R$ 23.700 por hectare. Esses levantamentos indicaram que os valores pagos pela empresa ficaram muito abaixo do que seria devido às famílias. 

Com base nessas provas organizadas por organizações sociais e pelas famílias atingidas, o MPF levou o caso à Justiça Federal. Mesmo assim, a empresa contestou o trabalho do MPF e não aceitou participar da audiência de conciliação para recalcular as indenizações. O processo seguiu por anos, enquanto as famílias atingidas tentavam reconstruir a vida diante das perdas acumuladas. Em março de 2024, a Justiça Federal em Sinop reconheceu que 214 famílias do Gleba Mercedes V foram prejudicadas nas negociações de indenização. A decisão abriu caminho para uma indenização adicional (ou seja, um valor extra além do que já havia sido pago), mas a Sinop Energia recorreu. Depois disso, uma decisão em segunda instância derrubou o entendimento que favorecia as famílias. 

Em setembro de 2025, cerca de 100 famílias protestaram em frente ao MPF, em Sinop, cobrando a revisão do caso. Na decisão desfavorável às famílias, o juiz Ailton Schramm de Rocha afirmou que o MPF não poderia acompanhar o processo. Ele descreveu os moradores do Gleba como “advogados, corretores de imóveis, engenheiros, políticos, médicos, entre outras profissões, e de alto poder aquisitivo” e concluiu que, por isso, eles teriam condições de pagar advogados particulares. 

A afirmação foi recebida com indignação pelas famílias atingidas, que reivindicam o reconhecimento de sua condição de assentadas da reforma agrária e vítimas do empreendimento. Para Jefferson Nascimento, coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens de Mato Grosso (MAB/MT), a decisão revela uma violência que vai além da perda da terra. “Quando uma família precisa provar que existe, que é assentada, que foi atingida e que sofreu prejuízo, a reparação vira outro barramento”, afirmou. 

 

Crédito: Lola @siriusepah

 

A disputa pela indenização, portanto, segue como uma das marcas abertas pela UHE Sinop. A barragem retirou terra, casa, produção e renda. O processo judicial, por sua vez, prolonga a espera e aumenta a sensação de abandono. Enquanto a empresa segue operando a usina, as famílias atingidas continuam tentando reconstruir a vida diante de uma reparação que ainda não chegou de forma justa. 

A disputa por uma indenização justa segue aberta. Ao longo de 2026, representantes das famílias atingidas e da Sinop Energia retomaram o diálogo em busca de uma solução para os valores das indenizações e outros passivos socioambientais deixados pela usina. Como parte desse processo, as famílias buscaram novamente a interlocução com o MPF, autor da Ação Civil Pública que trata do caso, para construir uma proposta de negociação. Em 3 de julho, a Câmara de Conciliação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região marcou uma audiência entre as famílias atingidas e a empresa para 18 de setembro de 2026, às 16h, por videoconferência. Até o momento, a Sinop Energia ainda não apresentou manifestação no processo sobre a audiência. Enquanto uma possível conciliação começa a ser construída quase uma década depois das primeiras indenizações, o tempo segue pesando sobre as famílias, que aguardam uma reparação capaz de reconhecer as perdas provocadas pela UHE Sinop. 

Complexo 

A barragem de Sinop faz parte de uma transformação que percorre todo o rio Teles Pires. A usina integra uma sequência de quatro grandes hidrelétricas em operação. Rio abaixo estão Colíder, Teles Pires e São Manoel. Ao longo desse percurso, trechos antes marcados por corredeiras e cachoeiras deram lugar a barramentos e grandes reservatórios. O rio que conectava comunidades e sustentava diferentes formas de vida passou a ser tratado como uma sucessão de pontos de geração de energia. 

 

Crédito: Caio Mota

 

No papel, cada usina aparece como um empreendimento separado. No território, porém, os impactos se acumulam e atravessam a pesca, a fauna, a vida das pessoas e as relações com o rio. Um dos casos mais graves é o de Karobixexe, a cachoeira de Sete Quedas, considerada uma “casa sagrada” pelo povo Munduruku. Durante as obras da UHE Teles Pires, foram encontrados mais de 200 mil artefatos arqueológicos, que evidenciam a ocupação milenar da região. Mesmo assim, a cachoeira foi dinamitada. Outro local sagrado também foi destruído. Deko Ka’a, conhecido como Morro dos Macacos e relacionado à “Mãe dos Animais”, foi impactado pela UHE São Manoel. A sucessão de barragens e reservatórios amplia ainda mais a pressão sobre espécies que vivem apenas nessa região e sobre famílias que dependem diretamente da água para produzir alimentos e garantir renda. 

A presença da estatal francesa EDF em Sinop ganha outra dimensão quando a usina é vista dentro desse conjunto. O investimento estrangeiro se insere em um processo que transformou o Teles Pires em infraestrutura para geração e venda de eletricidade. As decisões são tomadas por empresas e governos distantes, enquanto os prejuízos permanecem concentrados nas comunidades atingidas. 

Essa contradição aparece dentro do próprio Gleba Mercedes V. Mesmo vivendo ao lado de uma grande usina, moradores enfrentam instabilidade no fornecimento de energia e pagam caro pela conta de luz. A falta de eletricidade constante compromete atividades como a produção de leite e amplia os prejuízos das famílias. A energia produzida no território segue para o sistema nacional, mas o serviço oferecido a quem vive ali continua precário.  

O complexo de barragens mostra que a situação da UHE Sinop ultrapassa um conflito localizado. Trata-se de um modelo que reorganiza rios e comunidades para atender aos interesses do setor elétrico. A mesma lógica que pressionou famílias durante as indenizações aparece na forma como o território inteiro foi colocado a serviço dos empreendimentos. 

Corredor de vida 

Diante de um rio cercado por barragens, as famílias do Gleba Mercedes V também passaram a construir caminhos para recuperar o território. Uma dessas iniciativas é o corredor ecológico, articulado pelas comunidades com o Movimento dos Atingidos por Barragens e organizações parceiras. A ação busca recompor áreas afetadas e proteger partes da floresta essenciais para a sobrevivência de espécies ameaçadas.  

Um corredor ecológico funciona como uma ligação de vegetação entre áreas de mata. Essa passagem favorece a circulação dos animais e contribui para a recuperação da floresta. No Gleba, a iniciativa tem relação direta com a proteção de primatas ameaçados de extinção e que vivem apenas nessa região, como o zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi) e o sagui-de-Schneider (Mico schneideri).  

A proposta também se conecta com a agroecologia e com a reorganização da produção das famílias. A recuperação das áreas pode fortalecer novas formas de sustento e abrir caminhos para atividades de turismo ecológico conduzidas a partir da comunidade. O território volta a ser pensado como espaço de produção e convivência, a partir das necessidades de quem vive nele.  

Enquanto os paliteiros mostram a floresta que morreu em pé, o corredor ecológico aponta para a recomposição construída por quem permaneceu no território. A imagem muda, mas a denúncia segue presente. A obrigação de reparar os danos continua com a empresa, e as famílias mantêm a cobrança por indenização justa e pelo cumprimento dos direitos das populações atingidas. 

Sete anos depois do início da operação da UHE Sinop, o Gleba Mercedes V carrega as marcas do reservatório e também as sementes de outro futuro. O corredor de vida nasce dessa escolha coletiva de cuidar da terra e recuperar vínculos rompidos pela barragem. No lugar onde o empreendimento deixou troncos mortos dentro da água, as famílias seguem organizadas para manter a floresta e a própria comunidade de pé. 

 

Caio Mota é jornalista com experiência nas lutas sociais da América Latina, atuando com comunicação popular e mobilização. Integra o Instituto aProteja.org, fortalecendo movimentos e grupos sociais na luta por terra e território. 

 

Publicações científicas e relatórios sobre as violações cometidas pela barragem de Sinop:  

  • A Hidrelétrica de Sinop: Um teste para a legislação ambiental brasileira, publicada em 2019. Acesse em telespiresresiste.info 
  • A Hidrelétrica de Sinop: 6 – Floresta morta e gases de efeito estufa, publicada em 2019. Acesse em amazoniareal.com.br  
  • As políticas do setor elétrico na Bacia do Rio Teles Pires e os assentados atingidos pela barragem da usina hidrelétrica de Sinop/MT, publicada em 2020. Acesse em telespiresresiste.info  
  • Análise da supressão da vegetação nativa no reservatório projetado da UHE Sinop, publicado em 2018. Acesse em telespiresresiste.info 
  • Panorama dos municípios afetados pelas UHEs do complexo de hidrelétricas do rio Teles Pires, publicado em 2017. Acesse em telespiresresiste.info  
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