REPORTAGEM

Um futuro para viver e compartilhar

No livro Manifesto pelo florescer da diversidade (Dantes, 2025), os antropólogos Jerome Lewis e Chris Knight ecoam uma ampla diversidade de vozes e modos de saber, reunindo suas percepções sobre o que precisamos transformar no presente – e com quem podemos aprender  

“Quando a vida prospera e perdura na Terra, é porque a diversidade floresce em todos os níveis.” 

Enquanto esse texto é escrito, chuvas fortes inundam cidades em diversos pontos do Brasil. Ao redor do mundo, de praias cobertas de plástico até genocídios étnicos, os noticiários transmitem todos os dias a ideia de que o mundo está para acabar a qualquer momento. Mesmo diante disso, sociedades dominantes insistem em consumir o planeta na máxima velocidade, criando a ruína de espécies, povos, culturas e, por fim, de si mesmas.  

Esse cenário sombrio é o único que muitos e muitas de nós conseguem vislumbrar. Mesmo assim, ainda há tantas e tantos que insistem em manter viva uma pergunta: o que fazer? 

No livro Manifesto pelo florescer da diversidade (Dantes, 2025), os antropólogos Jerome Lewis e Chris Knight ecoam uma ampla diversidade de vozes e modos de saber, reunindo suas percepções sobre o que precisamos transformar no presente – e com quem podemos aprender – de modo a retomar um estado de bem viver e a perspectiva de um futuro habitável na Terra.  

Com uma linguagem acessível e direta, entre saberes tradicionais e científicos, Lewis e Knight traçam um percurso que entrelaça as florestas do Congo, a Amazônia peruana, a revolução Zapatista, os latifúndios monocultores, a simbiose no interior das células e até mesmo as estrelas em suas dimensões cósmicas.  

Geralmente, constatar os impactos negativos de nossas ações sobre a Terra leva a uma sensação de culpa. A culpa leva ao medo, à vergonha e, eventualmente, a um estado de paralisia, de desesperança em qualquer possibilidade de melhora. 

O que esse Manifesto propõe, no entanto, é que não apenas é possível sair dessa rota de autodestruição coletiva, mas que o caminho para a transformação necessária passa pela alegria de viver, pelo senso de comunidade, pela partilha do sustento e pelo cultivo de nossas conexões com a grande teia da vida, da qual somos parte. 

Felizmente, apesar das tentativas de apagamento de nossas sociedades coloniais e dominantes, ao redor de todo o mundo há pessoas que insistem em ficar “agarradas na terra”, como diz Ailton Krenak; comunidades locais que entenderam há muito tempo os caminhos para viver bem de verdade, transmitindo esses saberes e estratégias ao longo das gerações. 

Lewis e Knight fazem um forte apelo à escuta dessas comunidades tradicionais e povos indígenas ao redor do mundo, que, através de seus modos de ser e viver, “são mais confiáveis como guardiões de ambientes biodiversos do que os governos”, ou do que nossas sociedades dominantes industrializadas no geral. 

Para muitas pessoas hoje, falar em alegria ou amor pode parecer algo alienado ou distante da realidade política. No entanto, o que a escuta dessas comunidades nos aponta é que a alegria, o amor, o prazer em viver são fatores essenciais para uma boa orientação de nossas ações no mundo. 

Os autores demonstram como tanto os saberes tradicionais quanto a ciência moderna apontam para essa mesma percepção: vivemos de forma profundamente interconectada. Desde o nível microscópico até o nível cósmico, o que observamos é que a vida é apenas uma. Como diz o filósofo Emanuele Coccia, também citado por Lewis e Knight, a vida é uma metamorfose contínua, passando de corpos entre corpos em uma grande dança. 

O tom dessa dança é a diversidade, a pluralidade de formas e os modos de ser no mundo. Podemos visualizar uma densa floresta tropical, imaginando a quantidade de vidas que existem nesse espaço. Mas qualquer canto da Terra, ou mesmo do Cosmos, segue essa mesma lógica. Todos nós, seres vivos e não vivos, somos profundamente únicos e diversos; ao mesmo tempo, não somos nem um pouco separados ou autônomos como podemos pensar. 

Aceitar racionalmente essa ideia pode ser um primeiro passo útil para uma mudança de valores necessária. Um passo além, indicado por Lewis e Knight a partir de vários exemplos, é aquilo que povos originários ao redor do mundo já fazem há milênios: identificar, cultivar e transmitir estratégias concretas, tecnologias para colocar em prática em seu dia a dia essa percepção, permitindo que seu comportamento seja transformado pela percepção de suas conexões com a vida à sua volta. 

Um dos exemplos do livro é o povo BaYaka, das florestas do Norte do Congo, uma sociedade de caçadores-coletores com a qual Lewis conviveu como antropólogo. Habitantes milenares das florestas do norte do Congo, os BaYaka desenvolveram um modo de ser que cultiva por um lado, um imenso apreço pela floresta, por sua beleza e abundância; por outro lado, um conjunto de normas culturais, chamadas de ekila, que servem como regras de conduta. 

Esses dois elementos se complementam e permitem aos BaYaka, com poucos confortos materiais ou tecnológicos, viver em abundância na floresta. Esse estado de abundância é cultivado, pelos BaYaka, “não através da acumulação, mas da partilha”. Ao partilhar tudo que coletam, e tomar cuidado com os ritmos de regeneração da floresta (sua ekila), se adaptando conforme a necessidade, eles conseguem viver sem degradar suas terras além do suportado. E ao amar profundamente a floresta que os abriga, os BaYaka também encontram alegria, suficiência e um senso de propósito para cuidar da vida à sua volta. 

Nosso mundo-floresta é abundante, mas, como todos nós, precisa ter momentos de descanso. Essa é a essência do conceito de “ressurgência holocênica”, uma ideia relevante no pensamento do Manifesto, a partir da antropóloga e pesquisadora Anna Tsing. Todos os seres vivos impactam continuamente tudo ao seu redor. Por milhares de anos de atividade humana pré-industrial, a floresta cresce e renasce porque é derrubada em um ritmo que não extrapola sua capacidade. A questão, portanto, não é preservar áreas florestais como se não pudessem ser tocadas, expulsando comunidades tradicionais e criando uma ilusão de “sustentabilidade”. É algo mais profundo que está em jogo: a nossa capacidade de escutar verdadeiramente a floresta e ter a sabedoria de se movimentar com ela.  

Lewis e Knight defendem que nossa mudança de rota não virá de um ponto central, mas dessa densa trama de comunidades, povos, grupos humanos enraizados em seus locais, cada um contribuindo a partir de sua experiência e saberes. 

 

Crédito: Divulgação

 

Assim como uma monocultura vegetal está mais sujeita a pragas devastadoras, uma sociedade monocultural em suas ideias e visões de mundo tem menos ferramentas para lidar com crises complexas como a que vivemos hoje. A monocultura nos fragiliza, isola e limita; a diversidade nos fortalece. 

Quintais, roças, hortas, acampamentos, pequenas comunidades localmente enraizadas, com escuta atenta, cuidado e práticas de partilha afirmadas ao longo de gerações: essa é a aposta do Manifesto pelo florescer da diversidade para o movimento que as sociedades dominantes, industrializadas e globalizadas, precisam fazer para modificar seus valores e sair da rota de sua autodestruição. 

A ativação desse movimento pode ser através da alegria, do encantamento e de conexões verdadeiras com a teia da vida. Esses conceitos devem ser considerados em sua profundidade, por um motivo muito simples: cuidamos melhor de uma casa quando gostamos de morar nela.  

O lavrador e pensador quilombola Antonio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, também dizia: “a melhor maneira de guardar o peixe é nas águas. E a melhor maneira de guardar os produtos de todas as nossas expressões produtivas é distribuindo entre a vizinhança, ou seja, como tudo que fazemos é produto da energia orgânica esse produto deve ser reintegrado a essa mesma energia”. 

Valorizar o que é escasso leva à competição, ao individualismo, à ganância. Por outro lado, valorizar o que é abundante, aquilo que todos podem alcançar e partilhar, aquilo que nos permite ter tempo de sobra para cantar, dançar e celebrar a vida, parece um passo necessário para a mudança de que estamos falando. 

Os exemplos citados pelos autores nesse sentido são diversos. Nas palavras de uma pessoa do povo Urarina, da Amazônia peruana, “quando comemos juntos, vivemos como pessoas de verdade”. Ou, para os Ashaninka, outro povo amazônico, “somos seres transitórios aqui e não podemos simplesmente olhar para o próprio bem-estar”. Para os iroqueses, uma nação indígena da América do Norte, devemos considerar o impacto de nossas decisões naqueles que estarão vivos daqui a sete gerações. 

A música do mundo já está tocando desde muito antes de nós. Toda a Biosfera vibra em uma sinfonia de cantos, zumbidos, grunhidos, trovoadas, florescimentos. Definitivamente não estamos sozinhos; e, para dançar no ritmo, precisamos escutar com atenção. 

Felizmente, como os autores apontam: “Somos seres criativos e inteligentes, então, a questão não é se conseguimos inventar soluções, mas se temos condições e preparo para nos comprometer com elas de todo o coração”. 

Fazer o deslocamento de uma lógica de escassez a uma lógica de abundância pode ser difícil. No entanto, nossas sociedades dominantes, enfeitiçadas pelo delírio da mercadoria e da acumulação sem limites, não estão sozinhas e têm muitas referências com as quais aprender: em especial, povos indígenas, comunidades quilombolas e outras comunidades humanos que vivem há gerações cultivando a memória da conexão com a vida à sua volta. 

Como os BaYaka e outros povos mostram, precisamos de regras claras; não podemos fazer o que quisermos sem entender e respeitar os ritmos da biosfera, sob o risco de degradá-la até um ponto sem volta.  

Encontrar nosso próprio equilíbrio não será simples; mas nesse caminho está uma possibilidade real de celebrar a vida e sua florescente diversidade – agora e por muitas gerações futuras. É um bom motivo para mudar. 

 

Daniel Grimoni é coordenador de acervo na Associação Selvagem, uma organização cultural sem fins lucrativos, parceira da Dantes Editora. Também é artista e educador. 

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